Quadrinhos Adultos

Uma pequena parcela das pessoas entende que há quadrinhos para todos os públicos. Boa parcela não se aprofunda no assunto por achar que tudo é infantil, gerando um ciclo de preconceito. Associam os desenhos animados exibidos na TV (que são em sua maioria feitos para o público infantil) aos personagens dos quadrinhos (até porque em alguns casos são os mesmos). Acham, só pelo fato de ambos serem desenhos, se trata da mesma coisa, feitos para crianças, mesmo quando muitas histórias originais das HQs inspiraram e serviram de base para muitos dos seus filmes preferidos. Entre os que compreendem a questão dos públicos, às vezes não sabem diferenciar um quadrinho adulto de uma HQ voltada para o público adolescente. Quando se fala de uma HQ adulta, é porque existem alguns fatores que se devem levar em conta, pois é o que caracteriza a produção como tal.

Os temas geralmente fogem daquilo que é proposto nas HQs do Batman ou Lanterna Verde e protagonistas que, mais um pouco, quase não se podem chamar de anti-heróis, dada suas personalidades. Um bom exemplo de personagem que se enquadraria muito bem nesta categoria, caso fosse de quadrinhos, seria o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, violento e tendo ataques de Pânico. Um outro exemplo, já nas HQs adultas, é o famoso John Constantine, da série Hellbalzer (Vertigo). As histórias podem passear entre aventuras em mundos e ambientes sinistros, casos policiais ou monstros sendo caçados.

Na arte, é comum ver nas HQs adultas desenhos que fogem do mainstream. Há um padrão para a arte nos quadrinhos de super-heróis americanos. Poses imponentes, com suas musculaturas exageradas expostas ou corpos femininos voluptuosos expostos em uniformes colados, com centenas de músculos bem detalhados (e às vezes inventados pelo artista), destacam a arte do super-herói americano. Nos quadrinhos adultos é possível encontrar trabalhos mais autorais sem fugir dos padrões comerciais, com estilos bem definidos e identificáveis. Alguns, inclusive, são tão autorais que, à primeira vista acabam parecendo feios para alguns. Já a maioria se mantém mais realistas, com expressões e fisionomia tão humanas quanto possível, sem parecer o Superman.

Outro ponto é a linguagem usada. Dificilmente vemos palavrões nos quadrinhos de super-heróis, mesmo em cenas onde eles estariam ali naturalmente (mataram sua mulher. Você grita “Maldito!”, “Bastardo” ou “Filho da mãe”). Vemos vez ou outra alguém falando um “merda” ou um “p+%#@“. É tudo muito sugerido. Nos quadrinhos adultos, palavrões mais pesados são usados até com certa naturalidade em algumas produções. Quando não são agressivos, estão inseridos de forma tão natural na cena que passam despercebidos, como ocorre constantemente em Hellblazer. Existe mais liberdade no linguajar porque são feitos para adultos (embora crianças e adolescentes gostem muito).

O sexo é sempre o mais polêmico. No mainstream ele praticamente não existe, a não ser de forma extremamente implícita em alguns casos. Pra se ter uma idéia, houve polêmica quando o Arqueiro Verde comenta com seu amigo Hal Jordan ter ouvido algo sobre uma festinha com o Lanterna Verde do setor 2814, a Falcão Negro e a Caçadora (como disse o Arqueiro, “Aê, garanhão.”). Quando alguém pega um quadrinho adulto para ler, ela pode estar certa que vai haver pelo menos uma leve nudez. As cenas de sexo não se limitam a apenas insinuar, mas mostram a “começão” rolando (nada à la soft porn). Em alguns casos, é simplesmente sexo pelo sexo, mas geralmente está bem relacionado à trama.

Muitos classificam Batman ou Superman como violentos. Na verdade essa violência é bastante comedida, não mostrando tanto sangue ou mutilações, às vezes até deixando isso apenas sugerido. Apesar da ação,não é realmente violento. Quem classifica o quadrinho de super-herói como violento geralmente são senhorinhas fãs da novela da oito. Há golpes desferidos por superseres que nem deixam hematomas. A forma que encontram para mostrar o quanto o golpe foi perigoso é rasgar o uniforme e deixar um arranhão ou outro. Quando se fala de um público um pouco mais velho que o leitor comum de Marvel ou DC (se bem que lá fora é tudo marmanjo), há o sentimento de “posso ir um pouco além”. O público é mais maduro e está mais preparado para cenas mais agressivas (pelo menos é o que se espera). Tiros e golpes mortais podem ser explorados de forma mais explícita, com um pouco mais de sangue, o que vai deixar as senhorinhas fãs da novela das oito totalmente chocadas.

Por que Watchmen é uma grande produção? Porque Alan Moore usou esta HQ (pricinpalmente) para mostrar que os quadrinhos possuem linguagem própria, meios próprios e formas próprias que só podem ser exploradas nos quadrinhos e em nenhuma outra mídia. Como o próprio Moore disse, “não foram feitos para serem filmados“. Isso mostra o poder, ainda despertando, dos quadrinhos. Precisam ser entendidos como um meio, com seus gêneros e grandes e pequenas produções para crianças, jovens e adultos.

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Comentários

comentários


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  • Krull

    Só uns complementos.
    1- A questão da visão de classificação etária é um processo de desenvolvimento cultural, as HQs e animações em sua origem eram produtos quase que exclusivos do publico adulto ,não podiam ser de outra forma pois no começo do século passado o conceito de criança ainda estava se consolidado e os mesmo não possuíam poder aquisitivo (um bom exemplo são as primeiras animações do gato Felix).
    2- a única coisa que difere uma obra para o publico adulto de uma obra infanto-juvenil é a complexidade de construção da história, os temas abordados são pouco relevantes, os anos 90 estão aí pra provar que se pode fazer uma """""""""""""""obra""""""""""""" com muito "sekiço" violência e intrigas políticas estúpidamente infantil e simplória (pra dizer o mínimo).
    3- você podia dar uma caprichada no texto, ficou um bocado confuso.
    4- o problema da visão que as pessoas tem esta mais no publico consumidor do que no material, os leitores não se importam muito em fazer propaganda do pouco material de qualidade, e convenhamos, nós leitores em geral somos muito grano as.

  • http://odefinitivo.blogspot.com RogerWillc

    Bom artigo.

    Atualmente, tenho gostado muito da revista mensal da Vertigo que tem trazidos essas histórias adultas. Especialmente Vampiro Americano.

  • Wesley da Guia

    Ótimo artigo.
    Lia quadrinhos quando era criança e agora com 29 anos, quero voltar a ler ¬¬ lembro que antes dos games essa era a diversão que eu curtia muito, mas depois de ter acesso ao SuperNintendo, PSOne, PS2, PSP e internet deixei de lado a leitura dos quadrinhos, mas até hoje lembro dos bons momentos de leitura.
    Hoje incentivo minha filha, que está aprendendo a ler, a gostar de Histórias em quadrinhos e ela tem várias.
    Por nenhum motivo específico, nunca li quadrinhos adultos, agora por exemplo vou começar agora a ler X-Men – A era do apocalipse http://goo.gl/uZpS4 mas vou ver alguma história bacana de HQ adulto pra ler. Alguém indica alguma coisa?

    Valeu

  • edes o.

    As primeiras revistas da série Hellblazer foram as melhores e únicas. As histórias de John C. e Tim Hunter, influenciaram e complementaram muito a minha percepção. Daí com o passar dos tempos, mudaram-se os desenhistas, a qualidade dos roteiros, o formato. Bom, negócios são sempre negócios; perdi o interesse. Mas guardo até hoje as 12 primeiras edições para re-ler até ficar velho.
    Feliz daqueles que conseguiram viver nesses anos..

    Edes Oliveira