JMangá #87: Helter Skelter

JMangá POST 2016 87

Que todos somos, em maior ou menor grau, escravos da ditadura da beleza, não existe dúvida. Que existem pessoas que se mutilam ou chegam a perder a vida por um conceito que é diferente para cada um de nós, também não é segredo. Um dos muitos lançamentos da New Pop, Helter Skelter, conta de forma nua e crua a história de uma modelo que, para se tornar linda, submeteu-se a situações que qualquer pessoa em sã consciência nem deveria cogitar. Confiram com o JWave.

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A história

Lilico é uma super modelo. Magra, loira e linda, é objeto de desejo dos homens e de obsessão das mulheres. Todas elas querem ter uma silhueta tão esguia como a dela. Todos eles querem dormir com ela. E ela acha isso incrível, ao mesmo tempo em que sabe que tudo não passa de ilusão.

Após dormir com o diretor de um filme com a intenção de ter um destaque maior no papel, Lilico se olha no espelho, nua e branca como a neve. Enquanto se admira, percebe um pequeno machucado um pouco acima de sua sobrancelha e surta.

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No dia seguinte, enquanto a prepara para a próxima sessão de fotos, o maquiador repara no machucado e questiona se Lilico foi picada. A modelo fica perturbada e surta novamente, quando a presidente da agência interfere e leva ela e maquiador para um lugar mais reservado. Lá, ela revela um segredo: o machucado de Lilico nada mais é do que um efeito colateral da cirurgia plástica. Cerca de 95% do corpo da super modelo é artificial e, pelo visto, não irá durar muito se não for tratado adequadamente. E o que vamos acompanhar a partir daí é o inferno psicológico de Lilico rumo à destruição.

Perturbador como um thriller psicológico

O mangá tem um traço que, até agora, não sei se amo ou odeio. Parece uma espécie de Paradise Kiss das trevas, mas me atrai da mesma forma que um inseto caindo na teia da aranha.

As atitudes e expressões de Lilico vão do inocente ao grotesco em apenas uma página, o que representa com perfeição o drama psicológico pelo qual a protagonista passa. Seus momentos de felicidade e depressão são regados com muitos remédios e bebidas; sua vida é vazia, pois ela não passa da representação doentia do sonho da presidente, que não aceitou ser esquecida quando perdeu a beleza ao envelhecer.

Lilico é cruel e dissimulada, ao mesmo tempo em que é uma criatura solitária e digna de pena, pois o que a mídia ama não é sua “pessoa”, mas sim, a casca defeituosa e artificial que exibe por aí com orgulho. Suas atitudes vão do estrelismo exacerbado (do qual temos exemplos todos os dias nas colunas de fofoca de todo o mundo) à total vontade de chamar a atenção porque se sente sozinha: ela perturba sua assistente dos jeitos mais horríveis possíveis (e a pobre coitada nem assim consegue contrariá-la), dá declarações vazias à imprensa e parece importar-se apenas com a irmã caçula e com os pais, que já não vê há muito tempo.

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Ao perceber que outra modelo jovem e natural pode tomar o seu lugar, ela fica ainda mais insana e instável, tornando-se uma espécie de bomba relógio que pode ser detonada a qualquer momento. Além disso, ainda tem que lidar com o fato de que não poderá ficar com o homem que ama e que está com prazo de validade prestes a vencer. Como lidar com isso sem perder a majestade que lhe foi concedida por toda a mídia? Não há uma resposta, pois a contagem para o final já foi iniciada e acabará mais cedo do que ela poderia prever.

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Outras mídias

Helter Skelter colecionou uma série de prêmios, dentre eles, o Tezuka e o Japan Media Arts Festival, que seleciona as obras essenciais do Festival de Angoulême, o maior revelador de quadrinhos na França.

O mangá ganhou uma adaptação para os cinemas em 2012, aclamada pela crítica.

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A edição brasileira

A versão da New Pop para o clássico de contou com a tradução de Denis Kei Kimura e edição de Caio Cezar. Como não podia deixar de ser, a obra foi impressa em papel off set e traz páginas coloridas que realçam ainda mais o clima perturbador da história e são minha parte favorita da edição.

Infelizmente, a revisão deu uma escorregada, com vários errinhos bobos de digitação e ortografia. Além disso, algumas frases estão meio esquisitas, especialmente os diálogos decorrentes dos flashbacks/pesadelos de Lilico e do investigador.

Tirando esse detalhe, a edição está muito linda, daquelas que fazem uma bela figura na estante. A história é atual e nos faz pensar, como a própria autora já declarou uma vez: a culpa por existirem Lilicos por aí afora é toda nossa. Isso não acontecerá mais no momento em que deixarmos a maldade e o veneno de lado e aceitarmos as pessoas e a nós mesmo do jeito que somos… se é que isso será possível algum dia.

Minha imagem favorita

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Agradecemos ao pessoal da New Pop por ter cedido o exemplar para análise.

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