Opinião #19: Uma viagem cura feridas?

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Há muito tempo eu tenho um sonho de escrever sobre o que de fato aconteceu para eu viajar pro Japão. Normalmente, as pessoas gostam de ouvir o lado bom dessas histórias e esquecem que os seres humanos são feitos de coisas boas e ruins. Ás vezes temos que catalisar algo ruim e transformar em algo bom.

Em 2008, eu tinha acabado de me formar na faculdade de publicidade e propaganda, mas a conclusão do meu curso não acalentou meu coração. Sendo fã de cinema, publicidade e propaganda foi uma forma de chegar perto do mesmo universo, porém não era uma realização plena. Aliado a trabalhar em algo que desgosta, mas que ao mesmo tempo é o que tem para aquele momento.

Numa realidade assim, eu comecei a demonstrar sintomas preocupantes que chamaram atenção da minha família. Praticamente vivia para trabalho e dormia cedo, por um certo desgaste em não ter uma realização pessoal.

Ás vezes, usamos máscaras para parecer que está tudo bem, porém elas servem apenas para evitar questionamentos de amigos de trabalho ou familiares. Seja no âmbito pessoal ou profissional, a máscara é o que nos torna sociáveis, mesmo quando não estamos apresentáveis.

E é bem difícil falar sobre isso, mesmo que anos depois, porque são fatos que aconteceram seguidos sem que tivesse tempo de analisar o que realmente estava acontecendo contigo.

Normalmente se sugere a ajuda de um profissional para tirar você daquele abismo que você foi inserido, porém em casa se acreditava que uma realização de um sonho poderia ser um incentivo para sair daquela situação.

Foi exatamente essa viagem que virou uma jornada para que tivesse gosto pela vida novamente. Num processo de renovação de passaporte, visto, busca de passagens, encontrar amigos que pudessem me hospedar, entre outros fatores que eram as apostas da minha família.

Num processo que demorou 3 meses, acabei traçando tudo que era necessário para viajar. Devo salientar que foi uma mistura de sentimentos bons e ruins, que muitos ainda não tenho coragem de confessar.

Sei que é uma loucura imaginar isso, mas a viagem foi realmente um gatilho para tirar de uma depressão que estava consolidando sobre minha cabeça. Principalmente por ter trabalhado mais de 15 anos em algo que detestava, mas que ao mesmo tempo, eu não conseguia sair daquele ciclo interminável.

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Feridas podem ser curadas?

A viagem me deu um novo gás realmente, porém eu assumo que poderia ter aproveitado a viagem se tivesse deixado a depressão e os problemas no Brasil. Isso acalentou numa insegurança extrema, vergonha em me expressar num idioma que eu estava engatinhando, além de ter perdido passaporte na viagem. Amigos sem saberem o que eu estava tendo, ajudaram e devo muito a eles, porém ao mesmo tempo eu gostaria de ter viajado sem ter trazido problemas na bagagem.

Já tive a felicidade de viajar para diferentes regiões do Brasil, outros países, mas a pergunta que fica sempre é sobre o Japão. Uma cultura tão diferente da nossa, mas que ao mesmo tempo tem tantas semelhanças.

Exótico, mítico e único. Japão abriu portas para eu dar palestras, trabalhar em revistas de games, como direcionar para uma carreira diferente da que eu estava naquele momento.

Verdade seja dita, viagens não podem simplesmente curar feridas e tive (tenho) recaídas pontuais. Seja pela infelicidade profissional ou numa questão de aceitação pessoal.

Canalizei essa energia em outros projetos, criando JWave, desenvolvendo podcast, trazendo alegria para pessoas que muitas vezes tinham os mesmos sintomas que eu tinha. Por quê sei disso? E-mails e amizades que relatam as mesmas coisas que eu sentia e ainda sinto.

E o Japão? A exposição a um país que você sempre sonhou, meio que acabou me fazendo acreditar que era impossível alcançar novamente. Quebrado por uma viagem caríssima em plena alta do dólar, fez com que olhasse como um sonho distante.

A depressão rondava cada degrau do sucesso construído com meu esforço. Quando meus textos eram criticados, seja por descuido ou pela forma que os conduzi, acabava destroçando desejo de continuar como redator.

Recentemente me perguntaram em que gostaria trabalhar e pergunto se em alguma vez tive tal realização. Sempre embalado em trabalhos temporários em publicações ou trabalhos praticamente voluntários no seu site e outros portais, acaba não trazendo realização. A cobrança de uma sociedade cai matando e colocando contra a parede de que alguns sonhos não pagam as contas.

Atualmente, estou chegando ao avançado ao idioma Japonês e o que faz com que um desejo intenso de ir para o Japão novamente. Residir e trabalhar por lá, mas pergunto se o Japão não um subterfúgio no qual muitos partem para deixar sua máscara da sociedade brasileira pra trás. Uma máscara que incomoda, mas que ainda é vestida para aguentar pré-conceitos sobre a forma que você conduz a sua vida, ou na forma que você realmente é feliz contigo mesmo.

Gostar de uma cultura, de uma indústria cultural da qual você não está inserido acaba te machucando. Seria prático que não existisse bolhas de defesa na interação de uma sociedade mais interessada em trocar culturas, porém a bolha acaba sendo sua defesa, quando não utiliza a máscara para interagir com os outros.

Se desejo morar no Japão? Sim, por almejar acalentar o coração com uma realização. Daqui alguns anos, talvez até entenda que seja um subterfúgio, porém eu gostaria de ter a real experiência sobre tal desejo. Pode ser que eu me canse daqui alguns anos? Sim, mas é a experiência que fez valer a pena, e não a frustração de não ter tentado.

Sobre o livro, eu pondero se realmente as pessoas desejam ler a história de uma viagem na forma que ela realmente aconteceu. O público quer a experiência, mas nunca demonstrou interesse na dor que gerou a conquista da mesma. Na minha vida, ela se tornou um marco, justamente porque eu tive vontade de viver novamente, depois dela.

Uma lembrança que nunca esquecerei é quando liguei para o Brasil do aeroporto de Narita. Por mais alegres que estavam sobre o meu retorno, eu não conseguia entender porque tantas lágrimas desciam pelo meu rosto. Aquilo não era saudade, mas tristeza em saber que a partir daquele ponto, eu teria que usar uma máscara novamente e fingir quem era antes. Será que um dia conseguiremos ser quem realmente somos? É algo que me pergunto todos esses anos, carregando a mesma máscara surrada e quebrada, mas ainda presente em meu dia a dia.

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