JMangá #150: Relembrando Fushigi Yuugi

Chegamos ao JMangá #150!!! Para comemorar, decidimos trazer de volta um dos mangás mais queridos já publicados no Brasil, mas também um dos mais injustiçados: Fushigi Yuugi.

Yuu Watase nos brindou com uma história cheia de reviravoltas, intrigas e algumas tristezas, porém a amizade e o amor triunfaram no final. Essa trama incrível é a estrela do JMangá edição 150!

Relembrando a história

Miaka Yuki é uma estudante ginasial como qualquer outra: não se destaca em particularmente nada que não seja comer tudo o que vê pela frente, frequenta cursinho para passar no vestibular por pressão da mãe e vive à sombra da melhor amiga, a atraente e super inteligente Yui Hongo.

Um dia, quando as duas amigas estão na sessão reservada na biblioteca, acabam se deparando com um livro interessante, o Shijin Tenchisho (em uma tradução ao pé da letra, seria algo como “Livro dos Quatro Deuses do Céu e da Terra”, ou ainda do “Universo”). Ao começar a ler o livro, acontece um terremoto e as duas amigas são transportadas para dentro do livro.

Quando aterrissam no mundo do livro, se envolvem em uma confusão e são salvas por um belo rapaz, que tem um kanji tatuado na testa (鬼 – oni, “demônio”). Antes mesmo que elas pudessem sacar o que estava acontecendo, ambas estão de volta à biblioteca, sem entender absolutamente nada.

Mais tarde, de volta à sua casa, Miaka briga com a mãe e resolve esquecer um pouco dos problemas da vida real, lendo o livro misterioso na biblioteca. Ao se concentrar, entra novamente no mundo do livro e, depois de muitas reviravoltas, aceita se tornar a Suzaku no Miko (algo como a Sacerdotisa de Suzaku). Agora, com a ajuda de sete guerreiros (Seishis) que têm nomes de estrelas tatuados em algum lugar de seus corpos, deverão chamar o deus Suzaku e proteger o povo do país de Konan para sempre.

Miaka aceita a missão e acaba se apaixonando por Tamahome, o rapaz que a salvou dos problemas que arranjou logo que caiu dentro do livro e que, por acaso, é um dos seishis. O problema é que, ao tentar trazer Miaka de volta ao mundo real, Yui é tragada novamente para o livro. Graças à um grande mal entendido, a garota é enganada e acaba aceitando tornar-se a Seiryu no Miko, protegida do deus padroeiro do país rival de Konan, Kuto.

Após muitas lutas, intrigas, lágrimas e mortes, Miaka finalmente consegue chamar Suzaku, limpar a bagunça feita por Yui e ficar com Tamahome… o que nos leva à segunda (e desnecessária) fase da trama.

O coração de Tamahome

Na história, é dito que a Miko não deve se apaixonar por um seishi, pois eles são de mundos diferentes e, teoricamente, os deuses não deveriam interferir no “mundo real”. Como o poder do protagonismo é forte em nossa espevitada heroína, Miaka e Tamahome superam esse obstáculo e o rapaz renasce na Terra como Taka Sukunami, um universitário que se recorda de sua vida passada e do amor que sentia por alguém, a quem reencontra com uma ajudinha do destino.

O problema é que Taka ainda é um ser humano incompleto, pois parte do seu coração ficou no livro, dividido em sete partes que estão em locais que remetem a cada um dos seishis.

Para que Taka não desapareça do mundo real, mais uma vez Miaka usará o poder de Suzaku para derrotar as trevas que querem tomar conta da Terra e, de quebra, recuperar os fragmentos de memória (teria Tsubasa do CLAMP bebido dessa água?!). A batalha é árdua, mas com a ajuda de todos e o amor profundo que une as almas de Miaka e Taka (Tamahome), eles vencem mais uma vez todas as dificuldades e conseguem ficar juntos para sempre.

A edição brasileira

No Brasil, Fushigi Yuugi teve 36 volumes (cada volume original foi dividido em dois, como prática comum na época). Os volumes 1 a 20 foram traduzidos por Dirce Miyamura e os demais por Ricardo Cruz.

Na primeira fase de tradução tudo correu praticamente às mil maravilhas, com alguns apontamentos:

– Quando os seishis e Miaka precisam viajar para um dos países vizinhos, Hokkan, o nome do país foi mantido como Hokkankoku. Esse “koku” quer dizer “país” e já tinha sido retirado de Konan e Kuto (o país protegido pela Seiryu no Miko) e acabei ficando sem entender porque foi mantido em Hokkan e Sairou (lar de Byakko).

– Quando Amiboshi (ainda disfarçado de Chiriko) se oferece para tocar qualquer música que Miaka deseja a pretexto de animá-la, as várias bandas que a garota sugere são adaptadas para Backstreet Boys e Dreams Come True. Dessas duas, a segunda é japonesa e, já que foi feita uma adaptação, poderiam ter adaptado todas para algo mais familiar aos brasileiros, mas ainda assim nada que atrapalhasse o bom andamento da obra até então.

Bandas para todos os gostos

Já na segunda fase de tradução, os honoríficos foram meio esquecidos: Yui-sama virou senhorita Yui ou só Yui em algumas falas de Nakago, que sempre se dirigia à ela com respeito, assim como os demais seishis de Seiryuu. A maioria das onomatopeias não foram adaptadas para algo mais próximo da realidade brasileira e muitos nomes tiveram várias grafias, como os de Byakko, Chiriko e do próprio Shijin Tenchisho, que na segunda fase virou Shijin Tenchinosho (não tenho os volumes que correspondem à segunda fase do mangá em japonês para ver se é justificado, mas é algo para se pensar) e a Montanha Reikaku, lar de Tasuki e seus companheiros de bando, que virou Reikakuzan (este “zan” aí seria de “montanha”. Além disso, os errinhos de revisão tornaram-se constantes, alguns bem explícitos.

Errinho de revisão

Mais um errinho de revisão

Mesmo isso é possível relevar, afinal, ninguém é perfeito… Até que no volume 24 brasileiro, algo me chamou muito a atenção: nesta parte da história, Tamahome está no mundo real, pensando em tudo o que descobriu sobre sua condição como personagem de um livro. A briga de um casal chama sua atenção e, na versão brasileira, dá a entender que ele só prestou atenção porque o rapaz chama a companheira de Miaka… mas isso não acontece na versão japonesa.

Tem uma Miaka a mais aí…

Na verdade, o casal está brigando por banalidades e Tamahome presta atenção porque um dos dois grita algo como “Já chega!”; logo depois, o diálogo dos dois fazendo as pazes meio que remete à situação dele com Miaka e é aí que ele decide lutar sem se importar com o que irá acontecer.

Além disso, na segunda fase, ao recuperar um fragmento de memória, Hotohori comenta com Taka que se lembra de quando Tamahome curou Miaka de um grave veneno apenas com seu amor. Na verdade, Tamahome estava enfeitiçado por um veneno ministrado por Yui quando ele esteve em Kuto como refém e acabou se esquecendo de Miaka. Ele luta com Hotohori e fica à beira da morte, e então o efeito é revertido quando a garota o força a se lembrar de tudo o que passaram juntos.

Quem curou quem, Hotohori sama?

Com relação aos volumes, a partir do volume 22 a Conrad passa a utilizar o pisa brite, o que deixou muita gente aborrecida. Além disso, creio que por conta da quantidade de páginas para fechar cada volume, muitos capítulos foram interrompidos na metade ou quase no término, o que prejudicava o clímax de cada volume. No volume 15, a última página da história foi impressa na contra-capa!

Final do volume 15 brasileiro

Já as capas, bem diferentes da versão original, eram um espetáculo à parte… mas a do volume 7 ilustrava um senhor spoiler para quem estava apenas começando a ler a obra, pois trazia Tamahome vestindo armadura de guerra e Miaka toda estropiada, com o símbolo de Suzaku na testa, o que acontece apenas no final da primeira fase.

Alguém pediu um spoiler?

As capas dos volumes 8 e 21 também eram idênticas, o que obrigou a editora na época a usar o recurso da “luva”, para que os leitores tivessem certeza que estavam adquirindo um volume novo.

Encontre os sete erros

Mesmo com todos esses detalhes, a sessão de cartas era algo muito bacana de se ler e que esperávamos com fervor. Cassius Medauar (atual editor JBC) e Sidney Gusman (atual editor da MSP) respondiam as cartas de forma muito divertida e criativa, nos fazendo sentir mais próximos do mangá. Depois deles, outros editores assumiram a função sem perder o bom humor e a paciência que beirava o infinito.

Continuações

Muitos anos depois, Watase-sensei escolheu contar a história da primeira garota que entrou no Shijin Tenchisho, a vibrante e intrépida Takiko Osugi. Ela tinha problemas com o pai por ele ter abandonado a esposa tuberculosa e não dar atenção à família.

Ao entrar no mundo do livro após uma briga feia com o pai, Takiko vai parar no congelante país de Hokkan, onde conhece Rimudo (ou Limudo, em algumas romanizações), um bandido temido por ter matado mil pessoas e conhecido por todos como Fuuzanki Rimudo (Demônio do Vento Rimudo).

A princípio, Takiko acha que Rimudo é uma garota, mas quando seu poder está desativado ela volta à sua forma original, um belo rapaz. Seu nome seishi é Uruki, representado pelo kanji 女 (onna – mulher), que aparece em seu peito. Mais tarde, descobre-se que ele é o príncipe herdeiro de Hokkan, além dele se apaixonar por Takiko, que retribui seus sentimentos apesar das circunstâncias.

Devo dizer que a história é muito superior à primeira, com uma protagonista que não hesita nem estando descalça no meio de uma nevasca e um mocinho que vira mocinha em uma clara homenagem ao clássico Ranma 1/2. Os seishis são apaixonantes e obstinados e é claro que Watase-sensei vai partir seu coração matando os personagens mais populares… Mas devo dizer que, mesmo sabendo o final por conta do primeiro Fushigi Yuugi, você não vai se arrepender de ler a obra e vai se emocionar, afinal, a verdade nem sempre é o que parece.

Há rumores de que, a partir de agosto, será serializado mais um prequel de Fushigi Yuugi, intitulado “Byakko Hen” e continuação direta do one shot “Fushigi Yuugi – Byakko Ibun”, publicado em 2015 e ainda não transformado em tanko.

Opinião

Apesar dos pesares, a editora Conrad teve seu mérito não apenas de ser a primeira a lançar mangás no Brasil com leitura no sentido oriental, como também dar a cara a tapa ao lançar um título sem o apoio do anime passando na televisão ao mesmo tempo, ou seja, praticamente desconhecido da grande maioria dos brasileiros.

Fushigi Yuugi é uma história fantástica e envolvente, que merecia uma republicação em um formato durável, com direito a uma revisão apurada em muitos aspectos. Isso possibilitaria não só uma versão mais fiel ao original que agradaria aos fãs, como também traria leitores novos e, quem sabe, a versão em português do prequel de Genbu?
Em uma época na qual vários mangás consagrados estão ganhando republicações dignas de respeito, nada impede que, um dia, esta obra tão incrível de Watase-sensei ganhe as bancas novamente. Além de Fushigi, ela tem obras incríveis como o polêmico Sakuragari, o triste Ayashi no Ceres e mesmo o injustiçado Arata Kangatari, um dos títulos da Panini que está atualmente na geladeira da editora. Não sei qual o problema do Brasil com a obra desta autora, mas tenho esperança que um dia isso mude.

Agradecimentos especiais ao Giuliano Peccilli, que me emprestou sua coleção brasileira de Fushigi Yuugi e à Karen Kazumi, que me esclareceu uma duvidazinha na adaptação do termo “Shijin Tenchisho”.

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