A 14ª edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba chegou ao fim revelando o impacto do cinema autoral brasileiro contemporâneo. O destaque absoluto ficou com Cais, da diretora baiana Safira Moreira, que conquistou os principais prêmios do festival: Melhor Filme (Prêmio Olhar), Prêmio da Crítica (Abraccine) e escolha do público. A obra parte do luto da diretora após a morte da mãe para construir um ensaio poético sobre tempo, paisagem e ancestralidade, em uma travessia pelos rios Paraguaçu (BA) e Alegre (MA).
Outro grande vencedor foi Apenas Coisas Boas, de Daniel Nolasco (Goiás), que arrebatou os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Som e Melhor Direção de Arte. Ambientado no interior goiano dos anos 1980, o longa é um drama rural LGBTQ+ sobre desejo, repressão e silêncio, consolidando Nolasco como uma das vozes mais singulares do cinema queer brasileiro.
Mulheres protagonistas e trajetórias invisibilizadas

Também premiado, Explode São Paulo, Gil, de Maria Clara Escobar, levou Melhor Direção e Melhor Atuação (Gildeane Leonina). A obra narra a história de uma faxineira que, aos 50 anos, busca retomar o sonho de cantar. Outro título que provocou forte repercussão foi Aurora, de João Vieira Torres, que recebeu Melhor Fotografia ao retratar a memória de uma curandeira baiana — sua avó — como símbolo de resistência e herança afro-brasileira.
Diversidade de narrativas nos curtas e nas fronteiras

Nos curtas-metragens, o Prêmio Olhar foi para Fronteriza, de Rosa Caldeira e Nay Mendl, que acompanha uma jovem trans em busca de identidade e reconexão na fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. Americana, de Agarb Braga, ficou com o Prêmio Especial do Júri ao abordar os conflitos de cinco amigas em uma delegacia do interior.
A crítica também destacou Ontem Lembrei de Minha Mãe, de Leandro Alonso (Foz do Iguaçu), enquanto o público e o Canal Brasil escolheram Girassóis, de Jessica Linhares e Miguel Chaves — um retrato agridoce sobre envelhecimento e trabalho no subúrbio carioca.
Internacional e Novos Olhares

Na Mostra Competitiva Internacional, A Árvore da Autenticidade, de Sammy Baloji (Bélgica/Congo), venceu como Melhor Filme ao explorar o passado colonial e as mudanças climáticas na floresta do Congo. Já o Prêmio Especial do Júri foi para Ariel, de Lois Patiño (Espanha/Portugal), um labirinto de metalinguagem e referências shakespearianas.
A Mostra Novos Olhares premiou Voz Zov Vzo, de Yhuri Cruz (RJ), um filme de estreia que revisita a ditadura militar sob a ótica da população negra, reinventando a linguagem cinematográfica com um viés histórico e político.
Premiações paralelas e incentivo ao audiovisual brasileiro

O Prêmio AVEC-PR homenageou o cineasta Cyro Matoso, com a escolha do curta Interior, Dia (Sapopema), de Luciano Carneiro e Paulo Abrão, e menção honrosa para Entre Sinais e Marés (Maringá). Já o inédito Prêmio Cardume de Curtas foi entregue ao comovente Seco, de Stefano Volp, sobre um ex-militar viúvo em busca de reencontrar suas lágrimas.
O Canal Like premiou o produtor de Cais com R$50 mil em mídia para divulgação. Enquanto isso, o Prêmio Canal Brasil de Curtas, que garante exibição na programação do canal e premiação de R$15 mil, também ficou com Girassóis.
Mostra online gratuita segue até julho
Parte dos curtas premiados e selecionados da Mostra Competitiva Brasileira podem ser assistidos gratuitamente na plataforma Itaú Cultural Play até 7 de julho. Títulos como A Nave que Nunca Pousa, Mais Um Dia, Maira Porongyta – O Aviso do Céu e Seco ampliam o alcance de vozes plurais e provocadoras, reafirmando o papel do festival como vitrine e laboratório do cinema brasileiro contemporâneo.
Olhar de Cinema 2025 reafirma sua identidade

Com mais de 90 filmes nacionais e internacionais e curadoria afinada com o tempo presente, o 14º Olhar de Cinema reforça seu compromisso com a diversidade estética e política das imagens em movimento. Com produções de Bahia, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu e além, o festival mostra que o cinema brasileiro continua pulsando — múltiplo, desafiador e profundamente sensível ao país que retrata.


