A solidão metropolitana, o estranhamento cotidiano e o terror que nasce dos vínculos mais banais são os pilares de Hell Is Other People (O inferno são as pessoas na Rakuten Viki), novo J-Drama que chega ao catálogo da Rakuten Viki. Estrelado por Rintaro Hachimura, o título japonês reinterpreta o webtoon sul-coreano Strangers from Hell, de Kim Yong-ki, com um olhar mais contido, mas não menos angustiante.
Um novo começo que vira descida ao abismo

O protagonista Yu deixa sua cidade natal em busca de uma nova vida em Tóquio. Esperançoso, decide visitar a namorada sem aviso e propõe morarem juntos. Mas o que poderia ser um recomeço vira uma ruptura. Rejeitado e sem ter onde dormir, Yu encontra abrigo no Eden — uma casa compartilhada visivelmente negligenciada.
Ali, conhece moradores que beiram o grotesco. O mais enigmático é Kirishima, vivido por Shuntaro Yanagi, cujos silêncios são tão inquietantes quanto suas poucas palavras. Quando um dos inquilinos desaparece sem explicações, o que parecia apenas um ambiente desconfortável se transforma em algo mais sinistro. Yu passa a desconfiar de todos à sua volta, e a linha entre realidade e paranoia se dilui.
Entre o grotesco e o cotidiano
Diferente da adaptação sul-coreana de 2019 — Hell is Other People, com Im Si-wan e Lee Dong-wook — que apostava na tensão visual e na violência gráfica, a versão japonesa prefere sugerir. O horror psicológico emerge da rotina, do olhar cruzado no corredor, do silêncio pesado das refeições compartilhadas. Não há alívios cômicos ou respiros dramáticos. Tudo é sufocante — propositalmente.
A direção trabalha com enquadramentos fechados e iluminação opressiva, reforçando o clima claustrofóbico. A estética é minimalista, mas eficiente, e lembra o cinema de Kiyoshi Kurosawa, onde o mal está sempre à espreita, mas raramente se mostra por completo.
Elenco e atmosfera
Além de Hachimura e Yanagi, completam o elenco Okada Yui (Megumi), Miura Kento, Aoki Sayaka e Okura Takato. Todos desempenham papéis que orbitam a normalidade aparente, sempre prestes a revelar algo mais obscuro. Cada um dos personagens parece carregar um segredo, e o roteiro se dedica a explorar a tensão que se acumula nos pequenos gestos.
A série também revisita o conceito existencialista de que “o inferno são os outros”, frase cunhada por Jean-Paul Sartre na peça Entre Quatro Paredes, e reinterpretada aqui sob a ótica do isolamento urbano. Nesse microcosmo opressivo, as interações humanas tornam-se armadilhas.
Para quem é este drama?
O inferno são as pessoas não é para quem busca leveza ou conforto. Ele é feito para espectadores que apreciam a tensão construída lentamente, que encontram fascínio nos detalhes que revelam o abismo interior dos personagens. É um exercício de incômodo, onde o desconforto não é acidente — é método.
Rakuten Viki entrega, com essa estreia, uma obra que dialoga com o terror psicológico japonês clássico, mas adaptado ao tempo presente, onde o medo se esconde nos vizinhos, no silêncio e na impossibilidade de confiar.

