2025 é um ano especial para o cinema nacional. Obras fundamentais da cinematografia brasileira estão sendo restauradas em 4K e retornando às salas de cinema com força total. Mais do que relançamentos, são reencontros históricos com filmes que marcaram gerações, enfrentaram censura e redefiniram a linguagem cinematográfica no país.
Em cartaz com exibições especiais em diversas cidades, títulos como Iracema – Uma Transa Amazônica (1975), A Mulher de Todos (1967) e São Paulo Sociedade Anônima (1965) chegam com cópias digitais restauradas, debates com realizadores e uma nova chance para o público se reconectar com a força crítica e estética do cinema brasileiro dos anos 60 e 70.
A Mulher de Todos

Ícone absoluto do Cinema Marginal, A Mulher de Todos (1967), de Rogério Sganzerla, foi digitalizado em 4K a partir de materiais preservados pela Cinemateca Brasileira. O trabalho, realizado pela Mercúrio Produções com coordenação de Débora Butruce, teve apoio da Lei Paulo Gustavo.
Estrelado por Helena Ignez em uma performance intensa e provocadora, o filme acompanha Ângela Carne e Osso, mulher à frente do seu tempo que desafia normas sociais e o moralismo da época. A nova cópia estreou em fevereiro na Cinemateca Brasileira, com a presença de Ignez e Butruce em um debate emocionante sobre o legado do longa.
Desde então, o filme passou por diversas cidades, incluindo Belo Horizonte, Porto Alegre e Ouro Preto, integrando mostras comemorativas e reafirmando seu status de obra essencial da contracultura cinematográfica brasileira.
Iracema – Uma Transa Amazônica

Censurado no Brasil durante a ditadura militar, o filme Iracema – Uma Transa Amazônica (1975), dirigido por Jorge Bodanzky e Orlando Senna, está de volta em uma versão restaurada na Alemanha, com distribuição da Gullane+.
O longa foi exibido com destaque na Berlinale 2025 e chega aos cinemas brasileiros a partir de 24 de julho. A restauração, coordenada por Alice de Andrade, teve apoio de instituições como CTAV, Cinemateca Brasileira, IMS e PUC-Rio.
Misturando ficção e documentário, a trama segue Iracema (Edna de Cássia), uma adolescente que é cooptada pela prostituição e viaja pela Transamazônica com Tião Brasil Grande, um caminhoneiro que representa o Brasil “do progresso”. A relação entre eles escancara a brutalidade do regime militar e a destruição ambiental da região amazônica. Um filme duro, necessário e cada vez mais atual.
Trailer
São Paulo Sociedade Anônima

Dirigido por Luiz Sergio Person, São Paulo Sociedade Anônima (1965) é outro grande título restaurado em 4K que será exibido ainda este ano no Brasil. A cópia teve sua estreia mundial no festival Il Cinema Ritrovato, na Itália, e contou com a colaboração da Cinemateca Brasileira, da Cineteca di Bologna e da Lauper Films.
O filme acompanha a rotina de Carlos (Walmor Chagas), um trabalhador alienado em meio à expansão industrial da capital paulista nos anos 60. Com participação de nomes como Eva Wilma e Darlene Glória, a obra mistura crítica social com um retrato existencial da metrópole em transformação.
Person cria uma narrativa potente sobre o vazio da modernidade, o isolamento nas grandes cidades e a mecanização das relações humanas. Em tempos de crise urbana e novas formas de esgotamento emocional, a obra ressoa como nunca.
Um novo olhar para o passado
A volta desses filmes aos cinemas em 2025 não é apenas uma celebração técnica. É um gesto político e afetivo que reforça a importância da preservação da memória audiovisual brasileira. Num momento em que a cultura enfrenta ameaças recorrentes, ver esses clássicos ganharem vida em altíssima definição é também uma forma de resistência.
Para quem nunca viu no cinema ou quer revisitar em toda sua glória, essa é a chance de redescobrir filmes que continuam dizendo muito sobre o Brasil de ontem e de hoje.

