Com uma proposta que costura o texto original de Henrik Ibsen às urgências sociais do presente, o espetáculo Uma Casa de Boneca está em cartaz na Casaurora, espaço cultural independente no bairro do Sumaré, em São Paulo. Com direção de Georgette Fadel e Livia Camargo — que também assina a adaptação —, a montagem resgata o impacto do drama escrito em 1879 e o amplifica ao inserir temas como raça, classe e gênero de forma visceral e contemporânea.
A encenação acontece dentro de uma casa real, na qual os espectadores transitam entre os cômodos, acompanhando os personagens bem de perto. Com isso, a obra ganha uma nova camada de intimidade: o público não apenas assiste, mas se torna quase cúmplice, testemunha silenciosa de segredos, tensões e rupturas. A montagem segue em temporada gratuita até 27 de julho, com sessões às sextas, sábados e domingos, além de duas apresentações extras às 17h nos dias 19 e 26 de julho.
Uma nova Nora, um novo olhar
Nesta versão, a trajetória de Nora Helmer, vivida por Livia Camargo, é atravessada não apenas pelas estruturas do patriarcado, mas também pelos recortes sociais de sua posição de mulher branca diante de outros corpos em cena. Cristina (Paula Aviles), mulher racializada; Krogstad (Edson Duavy), homem negro; e Torvald (Gustavo Vaz), representante do privilégio branco e masculino, compõem um mosaico em que a crítica de Ibsen se atualiza, ganhando potência no embate entre privilégios e silenciamentos.
“Encenar essa peça dentro de uma casa real aprofunda a experiência do público. A casa tem seus próprios sons, sua própria vida. Isso mexe com a percepção de quem assiste”, comenta Georgette Fadel. A movimentação entre os ambientes reforça o sentimento de desconforto: os espectadores se veem próximos demais das dores dos personagens.
Já para Livia Camargo, começar o processo pela dramaturgia foi essencial: “O texto de Ibsen ainda é atual. Mulheres seguem presas em relações abusivas, destruídas emocionalmente. O gesto de Nora, ao bater a porta, ainda é um grito de libertação, mas hoje esse gesto precisa incluir a mulher racializada, periférica, mãe solo. Quando ela percebe que só ela pode mudar a própria vida, isso é profundamente revolucionário.”
O texto, a casa e o mundo
A nova montagem parte do gesto de Nora para iluminar outras formas de resistência. A encenação convida o público a enxergar as sutilezas por trás das estruturas que sustentam desigualdades. “Essa família que se protege, esse homem que se blinda… o texto já sugere tudo isso”, afirma Fadel. A adaptação não apenas atualiza o texto, mas permite que ele seja escutado com novos ouvidos, num espaço onde a casa já não é abrigo — mas prisão.
O elenco também conta com Kleber di Lazzare (Dr. Hank) e Fernando Zuben (piano), além de uma equipe artística que inclui nomes como Laerte Késsimos (vídeo ao vivo e design gráfico), Débora Veneziani (movimento), Paula Aviles (direção de arte) e Duda Gomes (som).
Sinopse
Na casa dos Helmer, tudo parece perfeito: o marido acaba de ser promovido e a família se prepara para um Natal promissor. Mas Nora guarda um segredo: anos antes, contraiu um empréstimo sem o consentimento do marido para salvá-lo, falsificando a assinatura do pai. Quando Krogstad ameaça revelar tudo, Nora vê sua posição e liberdade ameaçadas. Com a chegada da amiga Cristina, começa a enxergar as paredes de sua vida doméstica como grades invisíveis. À medida que segredos vêm à tona, a personagem compreende que a única saída é bater a porta — não por rebeldia, mas por sobrevivência.
Além das apresentações, o projeto promove ensaios abertos com bate-papo e leituras públicas de textos clássicos, ampliando o debate e aproximando público e processo criativo.
Serviço
Uma Casa de Boneca
Casaurora — Rua Plínio de Morais, 401, Sumaré, São Paulo – SP
De 20 de junho a 27 de julho de 2025
Sextas às 20h | Sábados às 20h30 | Domingos às 19h
Sessões vespertinas: 19 e 26 de julho, sábados, às 17h
Entrada gratuita | Capacidade: 60 lugares | Duração: 120 min | Classificação: 16 anos


