Para celebrar meio século de existência, o Grupo Corpo estreia Piracema, seu novo balé, no palco do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com apresentações de 13 a 24 de agosto. A programação da noite também inclui o retorno de Parabelo (1997), clássico do repertório da companhia.
Com uma carreira marcada pela reinvenção constante e uma identidade coreográfica brasileira até o osso, o Corpo escolheu como metáfora de sua trajetória a piracema, o fenômeno em que os peixes nadam contra a corrente para gerar nova vida. É esse o espírito que move o novo trabalho.
“Piracema”: o instinto de seguir criando
A ideia da piracema surge como símbolo de resistência e criação, um tema que casa perfeitamente com o momento do grupo. Mas Piracema, o balé, não é só metáfora. É também experimentação.
Pela primeira vez, Rodrigo Pederneiras divide a criação com Cassi Abranches, agora coreógrafa residente. A proposta foi ousada desde o início: a companhia foi dividida em dois grupos de 11 bailarinos, cada coreógrafo criou sua parte isoladamente e só depois as duas versões foram fundidas. O resultado é um trabalho híbrido e pulsante. “Nossas duas visões se completam”, resume Rodrigo. Cassi, por sua vez, trouxe seu olhar internacional e uma energia renovada à linguagem do grupo.
A trilha, composta por Clarice Assad, reflete essa transição em três movimentos: do tribal natural ao sinfônico clássico e, por fim, ao eletrônico urbano. A música guia a coreografia por camadas de tempo, espaço e transformação.
Cenário de escamas e corpos em transição
O cenário de Piracema foi criado por Paulo Pederneiras a partir de um material pouco convencional: 82 mil tampas de latas de sardinha. Dispostas em rede, elas formam uma superfície que remete aos cardumes metálicos que se movem em uníssono, uma imagem poderosa e ao mesmo tempo delicada.
Paulo também assina a iluminação, em parceria com Gabriel Pederneiras, criando atmosferas que ora evocam a fluidez da água, ora o impacto do corpo em deslocamento.
Nos figurinos, a estreia da dupla Alva (Susana Bastos e Marcelo Alvarenga) traz outro nível de experimentação. Usando malhas justas, cores terrosas e detalhes metálicos, os trajes apagam a distinção de gênero e acentuam a fisicalidade dos movimentos. Ombros e quadris são levemente destacados, reforçando o impacto visual sem tirar a leveza do conjunto.
De volta ao sertão
Na mesma noite, o Grupo Corpo remonta Parabelo, peça de 1997 que traduz a força do sertão em dança. Considerada por Rodrigo Pederneiras como sua obra “mais brasileira e regional”, a coreografia parte de cantos de trabalho e devoção, passa pelo baião e desemboca em ritmos sincopados de pura energia corporal.
A trilha sonora de Tom Zé e Zé Miguel Wisnik é uma aula de brasilidade e também uma base sólida para a movimentação expressiva, cheia de molejo e jogo de pés.
O cenário assinado por Fernando Velloso e Paulo Pederneiras expõe dois grandes painéis com ex-votos de igrejas interioranas, reforçando o universo popular e religioso que a obra evoca. Já os figurinos de Freusa Zechmeister percorrem um arco visual: começam velados por tule negro e, na reta final, explodem em cor, como se o próprio corpo dançante ganhasse nova vida.
Ficha Técnica
Piracema (2024)
Duração: 37 min
Coreografia: Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches
Música: Clarice Assad
Cenografia: Paulo Pederneiras
Figurinos: Marcelo Alvarenga e Susana Bastos (Alva Design)
Iluminação: Paulo Pederneiras e Gabriel Pederneiras
Parabelo (1997)
Duração: 42 min
Coreografia: Rodrigo Pederneiras
Música: Tom Zé e Zé Miguel Wisnik
Cenografia: Fernando Velloso e Paulo Pederneiras
Figurino: Freusa Zechmeister
Iluminação: Paulo Pederneiras
Serviço
Grupo Corpo: Piracema + Parabelo
De 13 a 24 de agosto
Quartas a sábados às 20h | Domingos às 16h
Teatro Sérgio Cardoso – R. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo
Ingressos: R$ 39,80 a R$ 240,00 (Sympla)
Classificação: livre
Informações: (11) 3882-8080
Um palco com história
O Teatro Sérgio Cardoso é um dos últimos grandes teatros de rua da cidade de São Paulo. Com mais de 40 anos de história, segue sendo um ponto de encontro entre tradição e experimentação. Localizado no Bixiga, bairro boêmio e berço de manifestações culturais, o espaço abriga salas de espetáculo, ensaio, transmissão e abriga até 827 pessoas em sua sala principal, a Nydia Licia.
Durante a pandemia, o teatro teve papel decisivo na manutenção das atividades culturais em São Paulo, adaptando-se rapidamente às exigências sanitárias. Hoje, segue firme como ponto de convergência das artes cênicas no estado.
Se a piracema é o instinto de seguir apesar da correnteza, o Grupo Corpo reafirma sua razão de existir justamente ao continuar nadando. Sempre em direção à arte.



Ao amanhecer, o cardume desperta no leito largo do rio, não por um comando único, mas por uma pulsação invisível que atravessa centenas de corpos.
Nenhum peixe conhece o mapa inteiro da jornada da Piracema, mas cada um carrega fragmentos de informação — padrões de corrente, variações na temperatura, lembranças químicas do caminho. É a inteligência distribuída no seu estado mais puro: cada unidade pequena contribui para o comportamento emergente do todo.
À medida que avançam contra a corrente, não há um “líder” que dite a rota final. O grupo se auto-organiza, respondendo em tempo real às mudanças do ambiente: um redemoinho inesperado desloca alguns para a margem, e a perturbação se propaga como uma onda, reorganizando a formação. Este rearranjo constante é um exemplo vivo de co-evolução entre o sistema (o cardume) e o seu meio (o rio).
O rio não é apenas um canal — ele é um ambiente com múltiplas dimensões interligadas:
Físicas: fluxo, obstáculos, profundidade.
Químicas: oxigênio dissolvido, pH, sinais químicos deixados por outros peixes.
Biológicas: predadores, parasitas, competidores.
Climáticas: chuvas, insolação, vento.
Cada dimensão interfere nas demais. Um aumento repentino da temperatura da água não apenas muda o metabolismo dos peixes, mas também altera a solubilidade do oxigênio, o comportamento dos predadores e a posição das zonas de corrente — gerando causalidades múltiplas e interativas.
O cardume não “decide” subir o rio como um plano linear; ele se mantém num ambiente habilitador construído pela própria dinâmica coletiva: proximidade suficiente para proteção, espaçamento para reduzir o arrasto, comunicação sensorial constante. É este espaço — fluido e adaptativo — que permite a exploração de “possibilidades” no caminho, como atalhos por canais secundários ou pausas em remansos estratégicos.
Os desafios surgem como problemas aparentemente intransponíveis: uma barragem, um predador maior, uma queda d’água. Não há solução única, mas sim uma sequência de microestratégias coordenadas: alguns sobem por canais estreitos, outros esperam correntes mais brandas, outros ainda testam passagens improvisadas pelas margens alagadas. Essas soluções parciais, articuladas no tempo e no espaço, mantêm o sistema funcional.
Ao fim da jornada, a chegada às áreas de reprodução não é apenas a conclusão de um trajeto, mas a expressão plena de um sistema complexo em equilíbrio dinâmico: nenhuma entidade controlou o todo, mas todas contribuíram para que o comportamento desejável emergisse — a renovação da vida, garantida pela cooperação adaptativa.
O cardume na Piracema não se guia pela imposição de um roteiro fixo, mas pela criação e manutenção de condições que favoreçam a capacidade de responder criativamente ao inesperado. Podemos imaginar que, assim como o cardume na Piracema, a coreografia “Piracema” do Grupo Corpo também é um organismo vivo — um sistema que evolui não pelo controle absoluto de um único criador, mas pela interação contínua entre coreógrafo, bailarinos, música, espaço e público.