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Crítica | O desconforto e melancólico ‘Dormir de Olhos Abertos’

Você já passou férias ou trabalhou em um lugar totalmente diferente do que está acostumado? É com esse ‘desconforto’ que conhecemos a visão de estrangeiros vivendo em Recife no novo filme da diretora Nele Wohlatz.

Explorando uma comunidade chinesa na cidade, o novo filme chega aos cinemas brasileiros pela Sessão Vitrine Petrobras e traz duas histórias curiosas que se misturam entre passado e presente.

Primeiro, acompanhamos o presente com a chegada de Kai (Liao Kai Ro), uma jovem de Taiwan, que acaba de chegar à cidade para curtir as férias. Vestindo-se levemente diferente dos habitantes locais, ela logo percebe que, para se misturar ao ‘cenário’, precisará se vestir como eles e viver uma experiência diferente da cidade.

Kai – Divulgação

Kai acaba conhecendo Fu Ang (Wang Shin-Hong), um vendedor de guarda-chuvas que, sendo chinês como ela, não apenas vende um guarda-chuva, mas também empresta um alicate para que ela conserte o barulhento ar-condicionado de seu quarto.

No dia seguinte, Kai vai devolver o alicate e descobre que Fu Ang fechou a loja, encontrando outra pessoa organizando o local. Ela se depara com uma caixa cheia de cartões postais impressos na China, mas com cenários de Recife. Pedindo para comprá-la, acaba ganhando a caixa e descobre que os cartões postais contam a história de Xiaoxin (Chen Xiao Xin), que veio viver com os tios no Brasil.

É aqui que a segunda história do filme se inicia, com Xiaoxin, que morava na Argentina e foi para o Brasil, enquanto seus pais e irmãos mais novos retornaram à China. Trabalhando com roupas, Xiaoxin morava junto de outros familiares em uma situação quase insalubre.

Já vimos o incômodo de Kai no Brasil, com uma população que, de forma caricatural, a chamava de japonesa. Com Xiaoxin, percebemos como a barreira do idioma também dá um tom caricatural aos personagens.

Nas conversas sobre as roupas que vendiam, não faltam comentários sobre como os brasileiros “cheiram” e que a comida poderia ser a culpada. Era um dos motivos que incomodava vender roupas para brasileiros que gostam de trocar peças, deixando seus odores nelas.

Vale uma curiosidade: devido a uma variação genética, povos asiáticos realmente exalam menos odor e, portanto, não “cheiram” a suor como os brasileiros. Mesmo que o filme não explique, essa peculiaridade rende algumas risadas com os personagens culpando a comida brasileira.

Voltando à história, Kai lê sobre o cotidiano de Xiaoxin, que vai se desenvolvendo em uma amizade frágil com vizinhos, marcada por mal-entendidos devido ao idioma.

Kai tenta visitar um shopping e se perde no ônibus, mostrando a dificuldade de se locomover no Brasil. Enquanto os dias passam, Fu Ang queima seu estoque de guarda-chuvas e reencontra Kai na praia. É aqui que Kai revela que leu a história de Xiaoxin e tenta encontrar respostas para as lacunas deixadas para trás.

Opinião

Dormir de Olhos Abertos entrega muito mais do que uma narrativa crua sobre a vida de imigrantes no país. Camadas sobre visto ilegal, precariedade no trabalho e a fuga da China moderna para um país que vive do passado são apenas algumas das pinceladas que a história oferece.

Há momentos que vão além da realidade nua e crua, como Kai falando espanhol e temendo perder o idioma. Conversar em espanhol com um argentino em Recife evidencia que o filme não se limita a problemas, mas também traz requinte quando a história permite.

No entanto, é nos diálogos entre personagens de origem chinesa que percebemos pequenos detalhes que enriquecem a narrativa de Dormir de Olhos Abertos. Em falas discretas, o filme revela uma construção cuidadosa e delicada.

Morar em outro país, enfrentando tantos desafios, traz a exaustão de viver contra a maré. Sem descanso, sempre desconfiados, o filme mostra o preconceito velado que causa agonia, mas precisa ser enfrentado para seguir trabalhando e vivendo dia após dia.

Após uma hora e meia de filme, percebemos que os personagens ainda não encontraram seu lugar ao sol. É justamente por isso que eles vivem cada dia no limite, tentando se adaptar.

Dormir de Olhos Abertos oferece uma visão sensível da vida de estrangeiros no Brasil, mostrando que viver em um país estranho nunca é fácil. E, para sobreviver mais um dia, eles precisam manter os olhos abertos e atentos, em busca de direção ou de um lugar para chamar de casa.

Nota: 4 (de 5)

Dormir de Olhos Abertos

Direção: Nele Wohlatz
Produção: Emilie Lesclaux, Kleber Mendonça Filho, Justine O., Roger Huang, Violeta Bava, Rosa Martínez Rivero, Meike Martens, Nele Wohlatz
Roteiro: Nele Wohlatz, Pío Longo
Direção de Fotografia: Roman Kasseroller
Direção de Arte: Diogo Hayashi
Figurino: Rita Azevedo
Produção Executiva: Dora Amorim, Maurício Macedo
Gerência de Produção: Mariana Jacob
Montagem: Yann-shan Tsai, Ana Godoy
Som Direto: Javier Farina
Direção de Som: Mercedes Tennina, Tu Duu-Chih
Mixagem de Som: Sebastián González, Tu Duu-Chih
Correção de Cor: Hung Wen Kai
Supervisão de Efeitos Visuais (VFX): Tu Wei Ting
Ano e países de produção: Brasil, Argentina, Taiwan e Alemanha, 2024
Duração: 97 min

Agradecimentos a Vitrine Filmes, Sessão Vitrine Petrobras e a Sinny pelo convite deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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