Belo Horizonte acaba de ganhar um reforço importante para seu circuito cultural com a inauguração do Cine Graciano, nova sala de cinema independente da associação Filme de Rua. O espaço abre oficialmente no dia 27 de novembro, na Rua Itapecerica, 468, no histórico bairro Lagoinha, trazendo para o centro do debate audiovisual produções que dialogam com direitos humanos, periferias urbanas e a vida nas ruas.
A estreia reúne dois curtas de Lincoln Péricles, um dos nomes mais potentes do cinema brasileiro contemporâneo, além da presença dos realizadores e de convidados ligados à cultura afro-brasileira. A entrada é gratuita.
Filme de Rua
A abertura do Cine Graciano representa um marco para a associação Filme de Rua, que há uma década trabalha com jovens que viveram ou vivem nas ruas de BH. O coletivo surgiu de rodas de conversa iniciadas em 2010 e, em 2015, consolidou-se como grupo dedicado a ver e fazer cinema a partir dessas experiências — sempre com métodos colaborativos e com forte dimensão social.
A trajetória inclui curtas premiados (“Filme de Rua”, “Maloca”, “Chuá de Maloqueiro”), experimentações de linguagem, dois longas em finalização e uma primeira sala no Edifício Sulamérica, que se tornou ponto cultural antes de encerrar as atividades em 2023. Agora, a iniciativa renasce com o Cine Graciano, ampliando a rede de proteção, expressão e circulação da arte independente em BH.
Lagoinha
Escolhida como casa do novo cinema, a Lagoinha é um dos bairros mais simbólicos da capital. Conhecido como Pequena África de BH, o território foi fundamental na formação cultural negra da cidade, com vida boêmia, samba e memória de resistência. A construção da Rodoviária e do Complexo da Lagoinha fragmentou parte dessa história, mas iniciativas como o movimento Viva Lagoinha fortalecem a retomada comunitária.
Ao se instalar ali, o Cine Graciano se conecta a essa memória, às contradições urbanas do bairro e aos desafios atuais de convivência com a população em situação de rua, reforçando o cinema como espaço de diálogo e cuidado.
Quem foi Hugo Graciano
O nome da sala homenageia Hugo Graciano, jovem que fez parte da Filme de Rua desde o início e faleceu em 2024, aos 26 anos. Artista, mobilizador e referência afetiva dentro do coletivo, Hugo viveu a infância e adolescência nas ruas antes de se tornar peça central nas atividades do grupo. O Cine Graciano celebra sua história e seu impacto sobre quem passou por ele.
Sessão de estreia
A primeira sessão, no dia 27, às 19h, apresenta dois curtas:
- Filme sem Querer — Dirigido por Lincoln Péricles, o filme mistura ficção e realidade para acompanhar um coletivo de cinema de quebrada às voltas com uma proposta de encomenda que coloca em conflito sobrevivência financeira e coerência política.
- Roubar um Plano — De Lincoln Péricles e André Novais, mostra um dia na vida de dois personagens que, ao decidir não trabalhar, caminham pelo Capão enquanto uma equipe de cinema rouba planos pelas ruas.
Os diretores participam de uma roda de conversa após a sessão, junto a convidados ligados à cultura afro-brasileira, como Rainha Belinha e lideranças religiosas da cidade.
Segunda sessão
No dia 2 de dezembro, o Cine Graciano recebe “Minha África Imaginária”, documentário de Tatiana Carvalho que constrói uma narrativa em primeira pessoa sobre memórias, afetos e experimentações de mulheres negras. O filme parte da História africana, mistura ensaio e testemunho e investiga caminhos de resistência e reconstrução subjetiva.
Tatiana é cineasta, pesquisadora e presidente da APAN, com trajetória marcada por curadorias, júris e participação em festivais internacionais.
Serviço
Abertura do Cine Graciano
27 de novembro, quinta, 19h
Exibição de Roubar um Plano e Filme sem Querer + conversa com realizadores
Sessão especial
2 de dezembro, terça, 19h
Exibição de Minha África Imaginária
Endereço: Rua Itapecerica, 468, Lagoinha
Entrada gratuita
Informações: instagram.com/filmederua

