A Netflix estreia no dia 2 de janeiro Depois do Terremoto (After the Quake), filme dirigido por Tsuyoshi Inoue que leva para as telas um dos livros mais emblemáticos de Haruki Murakami. Para quem acompanha cinema japonês, literatura contemporânea e narrativas existenciais, o lançamento chama atenção por reunir um autor central da ficção moderna japonesa, um elenco sólido e uma abordagem visual cuidadosa, sem pressa ou concessões.
Baseado na coletânea de contos Kami no Kodomotachi wa Mina Odoru, publicada por Murakami em 2000, o filme conecta histórias ambientadas em diferentes momentos do Japão recente, sempre com o impacto dos terremotos funcionando como pano de fundo emocional. Não é um drama de catástrofe. O foco está nas marcas invisíveis deixadas pelos abalos, na forma como elas atravessam pessoas comuns, presas entre o silêncio, a memória e a sensação persistente de deslocamento.
Quatro tempos, um mesmo vazio

A narrativa se passa nos anos de 1995, 2011, 2020 e 2025. Em cada período, surgem personagens distintos, ligados mais por sentimentos e estados de espírito do que por acontecimentos diretos. Em 1995, Komura, interpretado por Masaki Okada, segue até Kushiro após o desaparecimento repentino da esposa, enquanto relatos estranhos, como a aparição de um suposto OVNI, surgem como reflexos de um mundo que perdeu o eixo.
Em 2011, a jovem Junko, vivida por Yui Narumi, passa a olhar para si mesma a partir de conversas inesperadas com um homem cuja obsessão são fogueiras acesas em terrenos vazios. Já em 2020, o centro da história é Yoshiya, personagem de Daichi Watanabe, criado por uma mãe profundamente religiosa e marcado pela ausência do pai, uma lacuna que atravessa sua formação.
Em 2025, o filme assume de vez o tom murakamiano. Katagiri, interpretado por Koichi Sato, trabalha como vigia, mora em um mangá café e convive com figuras simbólicas como Kaeru-kun, o sapo gigante que retorna para salvar a humanidade, dublado por Non. É nesse ponto que o cotidiano e o absurdo passam a coexistir sem explicações, como costuma acontecer no universo de Murakami.
Elenco que atravessa gerações

Um dos pontos fortes de Depois do Terremoto está no elenco. Masaki Okada entrega uma atuação contida e precisa, reforçando sua relação com adaptações de Murakami, já que esteve em Drive My Car. Koichi Sato, nome consagrado do cinema japonês, dá peso e melancolia a Katagiri, personagem que sintetiza bem a solidão urbana e o esgotamento silencioso do Japão contemporâneo.
Ryo Nishikido surge como Kushiro em 2025, acrescentando uma presença discreta, mas emocionalmente significativa. Nomes como Ai Hashimoto, Erika Karata e Shinichi Tsutsumi completam o elenco de apoio, ajudando a construir um conjunto que dialoga diretamente com quem acompanha o cinema japonês fora dos circuitos mais óbvios.
Ficha técnica

Título: Depois do Terremoto
Título original: After the Quake
Título em japonês: アフター・ザ・クエイク
Direção: Tsuyoshi Inoue
Roteiro: Haruki Murakami (obra original), Takamasa Oe
Produção: Teruhisa Yamamoto, Kei Kurube
Direção de fotografia: Yasutaka Watanabe
Elenco principal:
Masaki Okada, Yui Narumi, Daichi Watanabe, Koichi Sato, Ryo Nishikido, Ai Hashimoto, Erika Karata, Shinichi Tsutsumi, Non
Duração: 132 minutos
Ano: 2025
País: Japão
Idioma: Japonês
Distribuição: Bitters End
Baseado na obra: Kami no Kodomotachi wa Mina Odoru, de Haruki Murakami
Estreia no Brasil: 2 de janeiro, pela Netflix
Haruki Murakami no centro da adaptação
Mais do que inspirado em sua obra, Depois do Terremoto carrega Murakami no próprio DNA. A adaptação preserva temas recorrentes do autor, como alienação, espiritualidade difusa, personagens à deriva e o impacto silencioso de grandes tragédias na vida cotidiana. Para quem já leu Norwegian Wood, Burning ou Tony Takitani, o filme funciona quase como uma extensão natural desse universo, agora traduzido em imagens.
Elementos simbólicos como Mimizu-kun e Kaeru-kun reforçam essa identidade literária sem parecer deslocados. O roteiro de Takamasa Oe respeita o ritmo contemplativo do material original, escolha que pode não agradar a todos, mas que conversa diretamente com quem busca um cinema japonês mais introspectivo e sensorial.
A chegada de Depois do Terremoto ao catálogo da Netflix Brasil amplia o acesso a uma obra que fala diretamente com leitores de Murakami e fãs de cinema japonês autoral. É um filme que pede tempo, atenção e envolvimento emocional, daqueles que continuam ecoando mesmo depois que os créditos sobem.
E você, já conhece Murakami ou vai mergulhar nesse universo primeiro pelo cinema?

