“Volveréis”, novo longa de Jonás Trueba, chega aos cinemas brasileiros depois de conquistar o prêmio Label Europa Cinemas na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2024. A produção hispano-francesa de 114 minutos parte de uma proposta curiosa: transformar o fim de um relacionamento em ritual público, híbrido entre humor melancólico e um olhar íntimo sobre como editamos no cinema e na vida, as nossas próprias histórias.
Filmado com o estilo observacional típico do diretor, o longa transita entre o cotidiano madrilenho e o laboratório emocional de um casal que insiste em se despedir como se celebrasse um grande marco. A obra mantém o tom afetivo que atravessa a filmografia de Trueba, sempre interessado na fronteira entre ficção e memória.
Separar, anunciar, repetir

Ale, diretora de cinema, e Alex, ator, decidem colocar fim em seus quinze anos de relação. Inspirados em uma piada dita pelo pai de Ale, resolvem anunciar uma festa de separação para amigos e familiares, como se isso ajudasse a compreender, ou sustentar a própria decisão.
A narrativa aposta na repetição como estratégia dramática. O casal repete o anúncio inúmeras vezes, e são as reações dos outros que mudam, criando um jogo cômico de desgaste, hesitação e desconforto. O filme nunca revela a razão concreta da separação, algo proposital para manter seu tom etéreo. Sem filhos, sem brigas emblemáticas, sem gatilhos óbvios, Trueba recusa o melodrama e aproxima “Volveréis” de comédias românticas clássicas que vivem de sutilezas.
Humor triste, montagem como narrativa e o filme dentro do filme
Trueba comenta que o filme nasceu de um momento de ruptura pessoal e profissional, o que acabou influenciando seu desejo de explorar uma comédia de tom particular — divertida, mas atravessada por uma tristeza discreta. O diretor reconhece referências diretas, sobretudo a ideia de repetição vista em “Feitiço do Tempo”, mas adaptada para outro eixo: aqui, quem muda não é o mundo, mas as reações ao redor.
A montagem assume papel central. Pequenos truques visuais surgem como experimentos que revelam uma camada metalinguística: Ale, a personagem, está montando o mesmo filme que o público assiste. A proposta, nascida como brincadeira, vira thread narrativa sobre como cinema e vida se embaralham. O longa sugere que viver é editar mal nossas emoções, e que a ficção às vezes permite reconstruir o que a realidade não organiza.
Um final anunciado que se desfaz a cada cena
Ao contrário de outros filmes do diretor, que costumam trabalhar com personagens indecisos, “Volveréis” começa com um objetivo claro: o casal quer se separar. Mas, à medida que a história avança, as certezas se desfazem. Vídeos reais de Vito Sanz, mais jovem, inseridos na narrativa, ampliam a intimidade entre os personagens e revelam o quanto eles registraram um ao outro. O filme se abre, ganha generosidade emocional e transforma o rompimento em um processo de descoberta sobre o que realmente permanece.
Elenco, equipe e o DNA Trueba
Elenco: Itsaso Arana, Vito Sanz e Fernando Trueba
Roteiro: Jonás Trueba, Itsaso Arana e Vito Sanz
Fotografia: Santiago Racaj
Montagem: Marta Velasco
Som: Álvaro Silva Wuth, Pablo Rivas Leyva e Raquel Martín
Produção: Los Ilusos Films, Javier Lafuente e Jonás Trueba
Coprodução: Les Films du Worso, Sylvie Pialat e Alejandro Arenas Azorín
Jonás Trueba, nascido em Madrid em 1981, construiu carreira marcada por filmes que refletem juventude, encontros e desencontros. De sua estreia com “Todas las Canciones Hablan de Mí” aos prêmios de “Quién lo Impide”, o diretor mantém coerência estética ao retratar personagens que vivem em suspensão emocional.
Presença em festivais
“Volveréis” circulou por importantes festivais internacionais, incluindo:
- Quinzaine des Réalisateurs 2024
- 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
- 68º Festival de Cinema de Londres
- 39º Festival de Mar del Plata
- 62º Festival Internacional de Cinema de Viena
Pôster

Uma história de separação que fala de outros recomeços
Com sua mistura de humor discreto, melancolia e experimentação formal, “Volveréis” conversa com quem já tentou decifrar o fim de uma história de amor e descobriu que nem sempre há motivos claros. No universo de Trueba, filmar é uma tentativa de compreender o que escapa. E talvez seja por isso que o longa funciona tão bem: ele convida o público a revisitar seus próprios cortes, recuos e decisões inacabadas.

