InícioFilmesCom diretores de oito países, Mundo Invisível estreia na FILMICCA

Com diretores de oito países, Mundo Invisível estreia na FILMICCA

Lançado originalmente em 2011, Mundo Invisível estreia nesta sexta-feira (09) no catálogo da FILMICCA, trazendo um projeto raro no cinema contemporâneo. Idealizado por Leon Cakoff e Renata de Almeida, o longa reúne onze histórias dirigidas por cineastas de oito países, formando um mosaico de olhares sobre personagens, espaços e experiências frequentemente ignorados ou apagados no cotidiano.

O filme nasce como uma obra coletiva e plural, tanto em linguagem quanto em geografia. Participam do projeto diretores do Brasil, Portugal, Itália, Grécia, Canadá, Alemanha, Polônia e Argentina, em episódios que atravessam o urbano, o espiritual, o político e o sensorial sem buscar uma unidade formal rígida. A invisibilidade aqui não é apenas social, mas também simbólica, afetiva e perceptiva.

Um mosaico de estilos e deslocamentos

Entre os destaques está Manoel de Oliveira, que em Do Visível ao Invisível observa a mediação tecnológica como obstáculo à presença real, construindo um encontro filtrado por telas e celulares. Já Theo Angelopoulos, em Céu Inferior, desce ao subsolo do centro de São Paulo para acompanhar um pastor evangélico que prega diante da indiferença urbana, revelando uma espiritualidade que existe à margem do olhar coletivo.

A cidade também surge como espaço de choque cultural em Tekoha, de Marco Bechis, no qual indígenas Guarani-Kaiowá atravessam o Parque Trianon como se caminhassem por uma floresta ancestral. O contraste entre corpos, território e olhares evidencia o apagamento histórico desses povos em pleno centro da metrópole.

Ver, lembrar, desaparecer

A percepção do mundo é colocada em questão por Wim Wenders em Ver ou Não Ver, episódio que acompanha crianças com visão reduzida em tratamento e propõe uma reflexão direta sobre acessibilidade, imagem e o próprio ato de enxergar. Em outra chave, Atom Egoyan revisita a memória do genocídio armênio em Yerevan – O Visível, conectando história coletiva e busca íntima.

O tom mais experimental aparece em Gato Colorido, de Guy Maddin, que usa o lirismo e o absurdo para observar a vida que insiste em existir nos espaços da morte. Já Laís Bodanzky, em O Ser Transparente, desloca a discussão para dentro do próprio cinema ao investigar o apagamento do ator em favor do personagem.

Ao longo dos episódios, assinados ainda por nomes como Maria de Medeiros, Jerzy Stuhr e Beto Brant, o filme constrói um retrato fragmentado, mas coerente, de um mundo onde ver não significa necessariamente perceber.

Circulação e legado

Mundo Invisível teve sua primeira exibição completa na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em sua 36ª edição, retornando em versão finalizada na 42ª Mostra, em 2012. Desde então, o projeto se consolidou como uma experiência singular de encontro entre estilos autorais, sem hierarquia entre episódios ou nacionalidades.

A chegada do filme à FILMICCA reforça o perfil curatorial da plataforma, que aposta em obras que dialogam com memória, política e linguagem cinematográfica, longe do circuito mais óbvio do streaming.

Outras estreias da semana na FILMICCA

Além de Mundo Invisível, a plataforma também estreia nesta sexta-feira títulos como O Amor é Estranho, de Ira Sachs, um retrato delicado sobre afeto e envelhecimento; Praia Formosa, de Julia de Simone, que conecta passado e presente no Rio de Janeiro; e A Hora da Libertação Chegou, de Heiny Srour, registro histórico de uma luta anti-imperialista no Oriente Médio.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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