Antes de chegar oficialmente aos cinemas, A MISS começa a se apresentar ao público com uma cena exclusiva. O trecho, divulgado nesta semana, funciona menos como vitrine promocional e mais como uma chave de leitura do filme dirigido por Daniel Porto, que estreia no Brasil em 26 de fevereiro após circular por festivais europeus.
Confira a cena
A cena não economiza desconforto. De um lado, Iêda, personagem de Helga Nemetik, ex miss que carrega o passado como régua moral. Do outro, Martha, vivida por Maitê Padilha, filha que não cabe nas expectativas da mãe e tampouco no molde que tentam empurrar sobre ela. O embate gira em torno de corpo, comportamento e, claro, da imposição de participar do concurso Miss Grajaú, anunciado não como convite, mas como decreto.
É nesse atrito que o filme deixa claro a que veio. A MISS usa humor, às vezes ácido, para falar de gênero, sexualidade e pertencimento sem recorrer a discursos explicativos. A cena divulgada apresenta os conflitos centrais com economia de informação e boa dose de ironia, algo que dialoga mais com o cinema de personagens do que com a cartilha das “boas intenções”.
Sobre o elenco
O elenco principal, que ainda conta com Pedro David e Alexandre Lino, demonstra um entrosamento que não parece acidental. Porto preparou os atores pessoalmente, e isso se reflete na dinâmica familiar que soa menos encenada e mais incômoda, no melhor sentido. A família aqui não é metáfora, é campo de batalha.
Em entrevistas recentes, o diretor evita tratar o filme como uma história individual. Para ele, o centro está na dificuldade de aceitar o outro dentro do espaço mais íntimo possível. O projeto, aliás, levou quase uma década para sair do papel. Nasceu como peça de teatro em 2016, foi recusado em sucessivos editais e acabou encontrando no cinema um caminho inesperado. Segundo o próprio Porto, alguns planos darem errado foi exatamente o que permitiu que A MISS existisse.
Antes da estreia comercial, o longa passou por festivais como o Actrum International Film Festival, na Espanha, o OMOVIES, na Itália, e integra a programação do Queergestreift Film Festival Konstanz, na Alemanha. A trajetória internacional ajuda a contextualizar o filme, mas não o distancia da realidade brasileira que ele retrata com precisão desconfortável.
Pôster

Produzido por Alexandre Lino, Daniel Porto e Angélica Coutinho, A MISS chega aos cinemas com distribuição da Olhar Filmes, reforçando a aposta da empresa em obras independentes e narrativas LGBTQIAPN+ que fogem do lugar comum.
Mais do que falar sobre concursos de beleza, o filme questiona quem decide o que é sucesso, quem pode sonhar e, principalmente, quem paga o preço quando esses sonhos são impostos. A cena inédita não entrega respostas, mas deixa claro que o conflito está longe de ser simples. E isso, para um primeiro contato, já diz bastante.


