A Cinemateca Brasileira abre espaço no dia 27 de fevereiro para um recorte pouco lembrado da história cultural do país: a relação direta de Menotti del Picchia com o cinema. Não é homenagem protocolar nem sessão para cumprir agenda. A ideia aqui é olhar para filmes raros, contextos políticos incômodos e escolhas artísticas que dizem muito sobre o Brasil dos anos 1920 e 1930.
A sessão faz parte do programa Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, que mensalmente tira da prateleira obras esquecidas ou recém restauradas, sempre com conversa depois. Desta vez, o foco é Menotti não como poeta ou articulador do modernismo, mas como alguém que realmente colocou a mão na massa do cinema.
Menotti além da Semana de 22
Enquanto parte do grupo modernista flertava com o cinema só no discurso ou na literatura, Menotti resolveu fazer filme. Produziu, escreveu argumento, supervisionou e pensou o cinema como negócio. Entre 1922 e 1931, se envolveu em projetos de gêneros variados, de documentários institucionais a épicos patrióticos, sempre atento a quem estava pagando a conta.
Essa faceta ganha forma na programação com três obras. O curta Menotti, dirigido por Elie Politi, volta à tela em cópia digital inédita, feita a partir de um raro material em 16mm. O filme estava fora de circulação há décadas e foi resgatado especialmente para a sessão.
Também entram em cena trechos de Piracicaba, produção encomendada para exaltar a cidade do interior paulista durante as comemorações do centenário da Independência. Restaurado em 2025, o filme ajuda a entender o tipo de cinema institucional que circulava com apoio direto do poder público.
Cinema, política e oportunismo
O programa fecha com Alvorada de Glória, longa de 1931 dirigido por Victor del Picchia, com argumento e supervisão de Menotti. É um filme sonoro sem falas, daqueles do período de transição, com trilha e efeitos reproduzidos por discos. Mais do que a trama, o que chama atenção aqui é o contexto.
A história se passa durante a Revolta de 1924, quando São Paulo virou campo de batalha entre tenentes rebeldes e tropas governistas. O enredo é confuso e politicamente conveniente, mas o filme carrega imagens reais da revolta, filmadas anos antes e reaproveitadas. Isso transforma Alvorada de Glória num documento histórico involuntário.
Menotti, que tinha laços fortes com o grupo político derrotado em 1930, usou o filme como forma de se reposicionar. Funcionou. O novo regime comprou a ideia e reconheceu o tal “sentido patriótico” da obra. Cinema também é isso: narrativa, bastidor e sobrevivência.
Debate para quem gosta de cinema e de história
Depois da sessão, rola conversa com Eduardo Morettin, Elie Politi e Miguel de Almeida, mediada por Carlos Augusto Calil. O debate tem interpretação em Libras e transmissão ao vivo no YouTube da Cinemateca, o que amplia bem o alcance da discussão.
Os ingressos são gratuitos, distribuídos uma hora antes da sessão. Para quem curte cinema brasileiro, arquivos, bastidores históricos e aquela zona cinzenta entre arte e poder, é daquelas noites que entregam mais do que prometem.
A sessão acontece na Cinemateca Brasileira, na Vila Mariana, em São Paulo, e integra uma programação que vem, aos poucos, recolocando o passado do nosso cinema em circulação, sem dourar a pílula e sem medo das contradições.

