Tem filme brasileiro chegando a festival grande pedindo licença. Privadas de Suas Vidas não é um deles. O novo longa dirigido por Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner estreou no Festival Internacional de Cinema de Rotterdam já deixando claro o terreno: humor ácido, gore escancarado e zero interesse em agradar todo mundo.
Selecionado para a Mostra Harbour, espaço tradicionalmente aberto a obras que flertam com o risco, o filme saiu da primeira exibição com críticas empolgadas e um consenso curioso: é tão absurdo quanto preciso no que se propõe.

Escatologia com método
A premissa parece saída de uma piada de mau gosto, mas o filme insiste em levá-la a sério. Malu, vivida por Martha Nowill, é uma mãe atravessada por luto, conflitos familiares e dificuldades financeiras. O filho, Gênesis, interpretado por Benjamín, é uma pessoa não binária com quem a relação é tudo menos simples.
Quando Malu aceita organizar uma festa de revelação de gênero para a vizinha, a narrativa já está pronta para o desconforto. O detalhe é que uma maldição transforma os banheiros do prédio em armas letais. Sim, privadas literalmente assassinas. O que poderia virar só choque vira comentário social filtrado por humor grotesco.
Crítica comprou a loucura
Sarah Musnicky, do portal In Between Drafts, resumiu bem o espírito do filme ao dizer que, “para um filme de privadas, Privadas de Suas Vidas entrega mais do que promete”, associando a descarga impossível do trauma à ideia de que certos problemas sempre voltam à superfície. Já Max Borg, do The Film Verdict, foi direto ao ponto: é “engraçado, insano e nojento o suficiente” para virar presença constante em festivais e sessões da meia-noite.
O elogio mais curioso vem no final da crítica: a dupla de diretores consegue misturar comentário social com humor deliberadamente juvenil e ainda “resgatar o adjetivo ‘merdástico’ com orgulho”. Difícil discordar depois de ver.
Atuação sem medo do ridículo
Parte do impacto vem das atuações. Martha Nowill e Benjamín foram destacados pela crítica do Bloody Disgusting pela entrega física e pela disposição de ocupar lugares narrativos desconfortáveis. Nowill, especialmente, não tenta proteger a personagem de situações humilhantes ou grotescas — o filme ganha força justamente aí.
O elenco ainda reúne nomes bem conhecidos do cinema brasileiro como Otávio Muller, Maria Gladys, Chandelly Braz, Marco Pigossi, Regina Braga e Olivia Torres.
RT Features no modo “não pedir desculpas”
Produzido pela RT Features, o filme reforça uma fase da produtora que parece cada vez menos interessada em rótulos de prestígio e mais aberta a projetos que tensionam linguagem e mercado. Não é um “filme de festival” no sentido comportado da expressão — é um filme que usa o festival como palco para provocar.
Inspirado no gore clássico e contaminado pelo clima político recente, Privadas de Suas Vidas usa fezes, canos estourados e banheiros como metáfora. Não é sutil, nem quer ser. É cinema que ri enquanto cutuca ferida aberta.
Se o circuito internacional continuar reagindo como Rotterdam reagiu, dá para apostar que esse filme ainda vai entupir muita sessão por aí. E, pelo visto, essa sempre foi a ideia.

