Estreando no Brasil, A História do Som pode ser analisado por duas óticas diferentes. De um lado, temos um romance de época entre Lionel Worthing, vivido por Paul Mescal, e David White, interpretado por Josh O’Connor. De outro, acompanhamos um retrato de como diversas canções folk foram preservadas do esquecimento em um período de transformação cultural nos Estados Unidos.
Adaptado por Ben Shattuck a partir de seus próprios contos, o longa dirigido por Oliver Hermanus naturalmente destaca o relacionamento entre seus protagonistas, muito por conta do material de divulgação que evoca o casal como centro da narrativa. Ainda assim, embora o romance seja o elemento mais evidente, o filme também constrói uma história sobre memória cultural e sobre a preservação de vozes que poderiam desaparecer com o tempo.
A partir desse encontro entre música e sentimento, o filme acompanha uma amizade que se transforma em flerte e, posteriormente, em um amor profundo. Conforme a relação entre Lionel e David se desenvolve, os dois passam a viajar pelos Estados Unidos registrando músicas folk de diferentes regiões, em um momento em que essas tradições estavam desaparecendo lentamente.
Enquanto acompanhamos o crescimento do relacionamento entre os protagonistas, também vemos surgir a importância desse trabalho de registro, que transforma a jornada dos dois em algo maior do que apenas uma história de amor. Assim, o filme constrói duas narrativas paralelas que se complementam: a do casal que se descobre ao longo da viagem e a da tentativa de preservar parte da memória musical de um país.
Pensando nisso, meu foco aqui está no romance. Por isso, estarei olhando com mais atenção para o caminho percorrido pelos dois personagens do que para a dimensão histórica das músicas registradas ao longo da história.
O flerte que nasceu da música

Em 1917, Lionel Worthing escuta uma canção de seu passado sendo tocada ao piano por um jovem chamado David White. Intrigado ao reconhecer a melodia, Lionel pergunta de onde ele conhece aquela música. David explica que a ouviu uma vez e nunca mais esqueceu, graças à sua impressionante memória musical. A curiosidade de Lionel logo se transforma em fascínio, e os dois passam a madrugada conversando em um bar enquanto David compartilha diferentes canções que conheceu durante suas viagens pelos Estados Unidos.
Esse encontro inicial evolui naturalmente. Lionel acompanha David até sua casa, e o que começa como uma amizade se transforma em um flerte que culmina em uma noite de amor. O relacionamento entre os dois surge com uma espontaneidade que o filme trata com grande sensibilidade, mostrando dois homens que simplesmente se reconhecem um no outro sem a necessidade de justificativas ou conflitos explícitos naquele momento.
Mas o contexto histórico em que vivem logo interfere nesse encontro. A Primeira Guerra Mundial está em andamento, e enquanto Lionel precisa permanecer para cuidar de sua família, David é convocado para o combate. A separação se torna inevitável, e cada um segue um caminho diferente durante esse período turbulento.
Enquanto David está na guerra, Lionel enfrenta a perda do pai e passa a assumir cada vez mais responsabilidades ao cuidar de sua mãe. Já em 1919, com o fim do conflito, David retorna aos Estados Unidos e está trabalhando no Maine. Ele envia uma carta convidando Lionel para acompanhá-lo em uma viagem que sempre imaginaram fazer juntos.

Mesmo hesitando em deixar a mãe sozinha, Lionel decide aceitar o convite. Durante os tempos de estudo, os dois já haviam conversado sobre a ideia de viajar pelo país registrando músicas tradicionais em cilindros de cera, e agora finalmente colocam esse plano em prática. Ao longo da jornada, os dois percorrem diferentes regiões enquanto registram vozes e canções que faziam parte da tradição oral americana.
Ao mesmo tempo em que preservam essas músicas, o relacionamento entre Lionel e David se intensifica. A viagem transforma o vínculo entre os dois em algo ainda mais profundo, mas também revela certos limites que David parece impor à relação. Mesmo com a sinceridade do sentimento que compartilham, ele evita qualquer possibilidade de Lionel trabalhar na universidade com a qual está envolvido, como se mantivesse uma distância invisível entre suas vidas.
Com o passar do tempo, os caminhos dos dois acabam se separando. Lionel segue para Roma, onde passa a integrar um coral, e posteriormente se estabelece em Oxford como maestro. Durante esse período, ele inicia um relacionamento com Clarissa e chega a conhecer os pais dela, dando a impressão de que finalmente conseguiu seguir em frente após nunca mais receber respostas das cartas que enviou a David.
No entanto, o passado volta a interferir em sua vida quando sua mãe adoece. Lionel precisa abandonar a vida que construiu na Inglaterra para retornar aos Estados Unidos. Clarissa chega a se oferecer para acompanhá-lo, mas o relacionamento termina abruptamente por parte dele.
Algum tempo depois, Lionel decide finalmente ir ao Maine para procurar David. Ao chegar lá, descobre que aquele trabalho de registrar músicas nunca fez oficialmente parte das atividades dele. Mas a revelação mais dolorosa vem logo em seguida: David está morto.
Lionel conhece Belle, a viúva de David, que revela conhecer seu nome por causa das cartas que ele enviava. Ela devolve todas as correspondências e explica que David tirou a própria vida após retornar da guerra, possivelmente marcado pelos traumas do conflito. Belle também comenta que nunca encontrou os cilindros de gravação feitos durante as viagens, mas promete que, caso algum dia eles apareçam, fará questão de enviá-los para Lionel.
Sem respostas definitivas, Lionel decide visitar os lugares que foram importantes para David. Ao revisitar essas paisagens e memórias, ele tenta compreender melhor a vida que o homem que amou viveu longe dele e, ao mesmo tempo, lidar com um passado que permaneceu aberto durante tantos anos.
As respostas
Décadas se passam e já estamos no início dos anos 1980. Lionel se tornou um etnomusicólogo respeitado e construiu uma carreira dedicada justamente ao estudo e à preservação da música tradicional. Um dia, ao retornar para casa, ele encontra uma caixa acompanhada de um bilhete.
Um morador encontrou objetos que pertenciam a David e decidiu enviá-los para Lionel depois de reconhecer seu nome. Dentro da caixa estão os cilindros de cera gravados durante as viagens que os dois fizeram juntos. Entre essas gravações, Lionel encontra uma mensagem direcionada a ele.
Depois de tantos anos, ele finalmente escuta novamente a voz de David. No cilindro, David pede desculpas e agradece pelos momentos que viveram juntos. Em seguida, canta Silver Dagger, a mesma canção que havia marcado o primeiro encontro entre os dois muitos anos antes. A música fecha o ciclo da história, transformando aquela lembrança inicial também em uma despedida.
Opinião

É praticamente impossível falar de A História do Som sem revelar detalhes importantes da trama, já que o impacto emocional do filme está diretamente ligado à trajetória que acompanhamos ao longo das décadas. O romance entre Lionel e David é apresentado com uma naturalidade rara para histórias ambientadas naquele período, mostrando um sentimento sincero que surge entre duas pessoas que se reconhecem uma na outra em um momento inesperado.
Ao mesmo tempo, o filme constrói uma reflexão interessante sobre como certas relações permanecem presentes mesmo quando a vida segue por caminhos diferentes. David tenta construir uma vida ao lado de Belle, enquanto Lionel busca seguir em frente com Clarissa. No entanto, ambos parecem carregar as marcas de um relacionamento que nunca deixou de existir completamente em suas memórias.
A despedida tardia de David revela que o sentimento entre os dois sempre esteve presente, mesmo que ele nunca tenha conseguido viver esse amor de forma plena. Casado com a irmã de um amigo falecido e preso a circunstâncias que não permitiam escolhas fáceis, David acabou afastando Lionel de sua vida. Isso levanta uma dúvida inevitável sobre o que realmente levou ao seu suicídio, já que o filme menciona os traumas da guerra, mas também sugere a possibilidade de uma vida marcada por frustrações e sentimentos que nunca puderam ser plenamente assumidos.
No fim, a música se torna o elemento que atravessa toda essa história. Por mais que essas canções tenham importância histórica, o desconhecimento do público sobre elas faz com que o romance naturalmente se sobressaia. As músicas registradas pelos dois preservam memórias que sobreviveram ao tempo, e Silver Dagger ganha um novo significado ao marcar tanto o início quanto o fim do relacionamento entre Lionel e David. O que começou como um simples encontro provocado por uma melodia acaba se transformando em uma lembrança eterna guardada dentro de uma gravação.
Mesmo que inicialmente o filme pareça dividir sua narrativa entre o romance e a preservação da música folk, essas duas visões da mesma história acabam se misturando. O som não apenas registra a história cultural de um país, mas também guarda ecos de um amor que atravessou décadas sem nunca desaparecer completamente.
Mescal e O’Connor entregam interpretações sensíveis que tornam essa trajetória ainda mais tocante. A química entre os dois sustenta a força emocional do filme e faz com que o desfecho da história seja acompanhado com os olhos marejados.
A História do Som pode não ser um filme pensado para agradar todos os públicos, mas certamente é uma obra que convida o espectador a refletir sobre memória, amor e sobre as marcas que algumas pessoas deixam em nossas vidas mesmo muito tempo depois de terem partido.
Ficha técnica

Nota: 5 (de 5)
A História do Som
Direção: Oliver Hermanus
Roteiro: Ben Shattuck
Baseado no conto: “The History of Sound”, de Ben Shattuck
Elenco: Paul Mescal, Josh O’Connor, Chris Cooper
Produção: Sara Murphy, Andrew Kortschak, Lisa Ciuffetti, Thérèsa Ryan-Van Graan, Oliver Hermanus, Zhang Xin
Fotografia: Alexander Dynan
Montagem: Chris Wyatt
Produtoras: Closer Media, Film4, Tango Entertainment, Storm City Films, End Cue, Fat City
Distribuição: Imagem Filmes
Estreia: 26 de fevereiro
Agradecimentos a Imagem Filmes pela produção deste conteúdo

