O estúdio brasileiro ARVORE volta ao South by Southwest com um projeto que mistura realidade virtual e inteligência artificial de um jeito bem pouco comum. A novidade se chama Fabula Rasa: Dead Man Talking e faz parte da competição oficial de experiências XR do evento, que acontece entre 12 e 18 de março em Austin, nos Estados Unidos.
A proposta é simples de entender e difícil de executar: colocar o jogador no centro de uma história que muda conforme ele conversa com personagens controlados por IA. Nada de diálogos pré gravados ou árvores de escolha tradicionais. Aqui a conversa é aberta, improvisada e pode mudar completamente o rumo da história.
Uma história que responde ao jogador
Em Fabula Rasa, o jogador começa em uma situação nada confortável. Preso em uma gaiola e acusado de crimes misteriosos, ele está prestes a ser jogado para um monstro que vive em um poço na cidade.
A única saída é convencer os moradores da vila e, eventualmente, o rei de que você merece continuar vivo.
A diferença está no funcionamento dos personagens. Cada NPC é controlado por modelos de linguagem que escutam, interpretam e respondem ao jogador em tempo real. Eles têm personalidade própria, histórico e motivações definidos pelos roteiristas do estúdio. A IA entra como uma espécie de motor de improvisação que dá vida a esses perfis.
O resultado é uma experiência de cerca de meia hora em que cada sessão segue por caminhos diferentes. No final, existem apenas dois destinos possíveis: sobreviver ou morrer. O que muda é a trajetória até esse julgamento final.
IA como ferramenta de narrativa
A equipe da ARVORE deixa claro que a IA aqui não aparece como substituta de criadores. Ela funciona mais como uma extensão das ideias dos roteiristas e designers narrativos.
A estrutura do jogo mantém regras claras para garantir coerência no mundo e nos personagens. O motor do jogo controla o ambiente físico e as reações do cenário, enquanto os modelos de linguagem cuidam das respostas e improvisos dos personagens.
A inspiração vem até do teatro de improviso. A IA fornece a mente dos personagens, o motor do jogo controla seus corpos, e o jogador vira o elemento imprevisível que move a história.
Depois de um Emmy, um experimento mais ousado
O novo projeto chega alguns anos depois de The Line, experiência em realidade virtual da ARVORE que venceu o Primetime Emmy Award em 2020 e o Leão de Veneza em 2019.
Se aquele trabalho apostava em uma narrativa mais contemplativa, Fabula Rasa segue pelo caminho oposto. A ideia agora é experimentar com histórias imprevisíveis, moldadas por conversas com personagens digitais.
Dirigido por Luiza Justus e Marcelo Marcati, o projeto também brinca com tropos clássicos de fantasia. Vila medieval, julgamento injusto, criatura no poço. Tudo parece familiar, mas a história só ganha forma quando o jogador abre a boca e começa a negociar seu destino.
No fundo, é quase um RPG improvisado onde os NPCs finalmente respondem como gente de verdade. Para quem acompanha o avanço da VR e da IA narrativa, experiências assim parecem pequenos vislumbres de um tipo de storytelling que ainda está nascendo.

