Se você tem mais de 40 anos, talvez se lembre de quando os eventos de animê eram, acima de tudo, um ponto de encontro entre amigos. Antes dos grandes anúncios e atrações internacionais, muita coisa acontecia nos corredores, nas salas temáticas organizadas por fã-clubes e nas conversas que atravessavam o fim de semana inteiro.
Realizado nos dias 18 e 19 de abril, em São Caetano do Sul, o UP!ABC 2026 traz um pouco dessa sensação. Em vez de apostar apenas em atrações grandiosas, o evento parece encontrar sua maior força na relação construída com o próprio público ao longo dos anos.
Foi minha primeira vez no UP!ABC e uma das coisas que mais chamaram a atenção foi justamente esse clima de familiaridade. Pelos corredores, era comum ver reencontros, grupos que claramente frequentam o evento há bastante tempo e visitantes que pareciam à vontade naquele espaço. Mais do que participar, muita gente dá a impressão de fazer parte da história do evento.

Ao mesmo tempo, o crescimento do público também traz alguns desafios. Em determinados momentos do dia, os corredores ficaram bastante cheios e circular pelo espaço exigiu um pouco mais de paciência. As filas na entrada e alguns pontos de maior movimento mostram que talvez seja o momento de pensar em adaptações para as próximas edições.
Ainda assim, esses fatores não definem a experiência.
A diversidade de atrações ajuda bastante a criar um ambiente acolhedor. Estandes comerciais dividem espaço com artistas independentes, áreas de games e, principalmente, os fã-clubes. Muitos deles vão além da exposição e promovem atividades, compartilham curiosidades e recebem o público com entusiasmo. É o tipo de dedicação que só existe quando há paixão pelo que está sendo apresentado.


Os cosplayers também fazem parte dessa atmosfera. Havia desde produções elaboradas até fantasias mais simples, mas o que mais se destacava era a disposição das pessoas em interagir, tirar fotos e aproveitar o evento sem pressão ou competitividade exagerada.
Outro ponto positivo foi a preocupação com acessibilidade e mobilidade. O transporte oferecido a partir da estação facilita bastante a chegada para quem utiliza transporte público, enquanto o suporte voltado às pessoas com deficiência demonstra um cuidado importante com diferentes perfis de visitantes.
Até a praça de alimentação acaba funcionando como uma extensão da experiência. Com opções variadas, ela se transforma em mais um espaço para descansar, conversar e encontrar amigos antes de seguir para a próxima atividade.

Ao longo do dia, era comum ver pessoas tirando fotos nos jardins, grupos jogando juntos e visitantes simplesmente aproveitando o ambiente sem a correria típica de eventos maiores. Em muitos momentos, o UP!ABC lembrava que esse tipo de encontro também pode ser sobre convivência e interesses compartilhados.
Claro que o futuro traz desafios. Se o público continuar crescendo no mesmo ritmo, questões como espaço e circulação precisarão ser discutidas. Mas existe algo ali que vale a pena preservar.
Saí da minha primeira visita com a impressão de ter conhecido um evento bastante sincero. Com pontos que ainda podem evoluir, mas que mantém uma característica cada vez mais difícil de encontrar: a sensação de que as pessoas estão ali porque realmente gostam daquele universo e querem compartilhá-lo com os outros.

No fim das contas, talvez essa seja a principal identidade do UP!ABC. Mais do que a programação em si, é a comunidade que faz o evento acontecer.

