InícioCoberturas27ª Festival do Japão chega em seu melhor formato | Cobertura Geral

27ª Festival do Japão chega em seu melhor formato | Cobertura Geral

Maior evento de cultura japonesa fora do Japão reuniu milhares de visitantes, atrações inéditas e experiências que reforçam a importância da cultura nipo-brasileira para novas gerações.

Poucos eventos conseguem reunir tradição, memória, gastronomia, cultura pop, negócios e diferentes gerações em um mesmo espaço de forma tão natural quanto o Festival do Japão. Durante três dias, a 27ª edição do evento transformou o São Paulo Expo em um grande ponto de encontro entre Brasil e Japão, mostrando que sua importância vai muito além de uma programação cultural.

O JWave acompanhou toda a programação e, para quem visitou o Festival pela primeira vez, a impressão foi praticamente a mesma durante os três dias: corredores movimentados, apresentações acontecendo simultaneamente, um tour gastronômico e com milhares de pessoas vindas de diferentes partes o Brasil. Mas bastavam alguns minutos caminhando pelos pavilhões para perceber que o evento representa muito mais do que um grande encontro de admiradores da cultura japonesa.

Ao longo de quase três décadas, o Festival consolidou-se como um dos principais instrumentos de preservação da história da imigração japonesa no Brasil. Mais do que apresentar tradições ao público, ele ajuda a manter vivas as associações das 47 províncias japonesas, responsáveis por preservar costumes, culinária, manifestações artísticas e parte importante da identidade da comunidade nikkei. Essa missão continua sendo o grande diferencial do evento.

Mais que um festival, um patrimônio da comunidade nikkei

Giuliano Peccilli

Criado em 1998 pelo Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil), o Festival do Japão nasceu com um objetivo bastante claro de aproximar o público brasileiro das tradições japonesas e fortalecer as associações de províncias espalhadas pelo país.

Desde então, o evento cresceu junto com a própria comunidade. Depois das primeiras edições realizadas na Marquise do Ibirapuera e na Assembleia Legislativa de São Paulo, encontrou no atual São Paulo Expo espaço suficiente para se transformar em uma das maiores celebrações da cultura japonesa realizadas fora do Japão.

Ao contrário do que muitos imaginam, porém, o Festival nunca foi pensado apenas como entretenimento.

Cada prato vendido, oficina realizada, apresentação artística ou demonstração cultural ajuda diretamente associações que há décadas trabalham para preservar a memória dos primeiros imigrantes japoneses. Em muitos casos, o Festival representa uma das principais fontes de arrecadação dessas entidades, garantindo recursos para que continuem promovendo atividades culturais ao longo de todo o ano.

Essa característica faz com que a experiência seja diferente da maioria dos grandes eventos realizados em São Paulo. O visitante não encontra apenas uma feira ou atrações, mas uma verdadeira vitrine da cultura japonesa construída coletivamente por centenas de voluntários.

Talvez esse seja justamente o aspecto menos percebido por quem visita o Festival pela primeira vez. Enquanto milhares de pessoas percorrem os corredores do São Paulo Expo, centenas de voluntários trabalham nos bastidores preparando pratos típicos, organizando apresentações, orientando visitantes e mantendo viva uma tradição construída ao longo de gerações pela própria comunidade nikkei.

Kizuna: os laços que unem gerações

Em 2026, o Festival adotou como tema “Kizuna – Laços que Unem”, conceito japonês que representa os vínculos construídos entre pessoas, famílias e comunidades.

Mais do que uma identidade visual, o conceito esteve presente em praticamente todos os ambientes.

Famílias inteiras caminharam lado a lado pelos pavilhões. Avós apresentaram aos netos receitas típicas que marcaram suas histórias. Jovens vestidos como personagens de anime dividiram espaço com praticantes de artes tradicionais, enquanto visitantes sem qualquer descendência japonesa descobriram pela primeira vez aspectos da cultura do país.

É justamente essa convivência que torna o Festival uma experiência única.

Durante os três dias, foi possível observar públicos bastante diferentes compartilhando os mesmos espaços. Descendentes de japoneses, estudantes da língua, famílias, turistas, fãs de animes e visitantes curiosos circularam pelos corredores em busca de experiências distintas, mas conectados por um mesmo interesse: conhecer um pouco mais da cultura japonesa.

As caravanas organizadas por associações de diversas regiões do Brasil também reforçaram esse espírito de integração, ampliando o intercâmbio entre comunidades nikkeis e fortalecendo o papel do Festival como um dos principais pontos de encontro da cultura japonesa no país.

A gastronomia continua sendo o coração do Festival

Giuliano Peccilli

Se existe um espaço capaz de reunir praticamente todos os visitantes, ele continua sendo a área gastronômica.

Durante os três dias, filas se formaram diante dos estandes das associações de províncias. Para muitos frequentadores, experimentar pratos regionais já se tornou um ritual que se repete a cada edição.

Em 2026, o Festival reuniu 44 das 47 províncias japonesas, cada uma apresentando receitas preparadas pelas próprias associações. Diferentemente de festivais gastronômicos tradicionais, os pratos não são produzidos por restaurantes comerciais, mas por voluntários que preservam receitas transmitidas entre gerações.

Giuliano Peccilli

Essa talvez seja uma das maiores riquezas do Festival.

Cada estande representa uma pequena parte do Japão, carregando histórias familiares, ingredientes característicos de determinada região e tradições que atravessaram o oceano junto com os primeiros imigrantes.

Entre os destaques estiveram especialidades como o Karê Pan de Saitama, o Katsuo no Tataki de Kochi, o Okonomiyaki de Wakayama e a tradicional versão preparada ao estilo de Hiroshima, mostrando a riqueza gastronômica existente entre as diferentes províncias japonesas.

Outro diferencial desta edição foi a segunda versão do aplicativo oficial da área gastronômica, que permitiu aos visitantes consultar fotos, ingredientes, descrições dos pratos e informações voltadas à acessibilidade alimentar antes mesmo de enfrentar as filas.

A gastronomia continua exercendo um papel fundamental na manutenção das associações de províncias, que encontram no Festival uma importante fonte de recursos para preservar suas atividades culturais durante todo o ano.

Cultura tradicional segue dividindo espaço com novas gerações

Giuliano Peccilli

Outro aspecto que chama atenção ao longo do Festival é a forma como diferentes manifestações culturais convivem naturalmente.

Enquanto o Palco Principal reuniu apresentações musicais, grupos de taiko, danças folclóricas e artistas convidados, outros espaços ofereceram experiências bastante diferentes entre si, permitindo que cada visitante construísse seu próprio roteiro.

Poucos metros adiante, oficinas de furoshiki, origami, shodô, sumi-ê, mizuhiki, mangá e outras expressões artísticas aproximaram crianças e adultos de técnicas tradicionais japonesas que continuam despertando curiosidade mesmo entre quem nunca teve contato com essa cultura. Nesta edição, a programação ganhou novidades como a técnica de gravura em madeira Mokuhanga e uma área dedicada aos jogos tradicionais japoneses, ampliando ainda mais as possibilidades de interação do público.

Giuliano Peccilli

Essa convivência entre tradição e contemporaneidade sempre foi uma das características mais marcantes do Festival do Japão.

Não existe um roteiro obrigatório.

Em poucos minutos, o visitante podia assistir a uma apresentação de taiko, participar de uma oficina artística, conhecer um espaço dedicado à ancestralidade ou simplesmente caminhar pelos corredores observando manifestações culturais que dificilmente seriam encontradas reunidas em outro lugar do país.

Cultura pop amplia o alcance do Festival sem perder suas raízes

Giuliano Peccilli

Ao mesmo tempo em que preserva tradições centenárias, o Festival do Japão continua ampliando seu diálogo com novos públicos.

Essa aproximação ficou evidente no AkibaSpace, espaço dedicado à cultura pop japonesa que, mais uma vez, figurou entre os ambientes mais movimentados da programação.

Inspirado em Akihabara, bairro de Tóquio conhecido mundialmente por sua forte ligação com animes, mangás, games e tecnologia, o espaço reuniu atrações capazes de aproximar visitantes mais jovens da cultura japonesa.

Giuliano Peccilli

Um dos principais destaques desta edição foi a exposição oficial em comemoração aos 40 anos de Cavaleiros do Zodíaco, que trouxe ao Brasil reproduções oficiais das ilustrações de Masami Kurumada, além da presença da cantora Yumi Matsuzawa, intérprete de músicas marcantes da franquia. A programação também contou com concursos de cosplay, apresentações musicais, palestras e diversas atividades voltadas ao universo otaku.

Essa integração entre tradição e cultura pop demonstra como o Festival vem acompanhando a evolução do próprio público. Muitos visitantes chegam atraídos pelos animes e acabam descobrindo aspectos da imigração japonesa, da culinária regional e das manifestações culturais que fazem parte da história do evento.

Giuliano Peccilli

Essa ponte entre gerações também aparece no FJTAON, projeto criado durante a pandemia e que hoje se consolidou como um dos espaços mais modernos do Festival. O ambiente reuniu artistas independentes, influenciadores, criadores de conteúdo, karaokê, ativações interativas e um Artist Alley que cresce a cada edição, mostrando como a cultura japonesa continua inspirando novas formas de expressão artística.

Mais do que entretenimento, um espaço de aprendizado

Giuliano Peccilli

Quem percorreu o Festival percebeu rapidamente que ele também funciona como um grande centro de difusão cultural.

O Mini Auditório ofereceu uma programação voltada ao intercâmbio entre Brasil e Japão, reunindo palestras sobre educação, empreendedorismo, literatura, gastronomia, turismo, idioma e oportunidades de estudo.

Na mesma proposta, a Alameda Literária retornou em sua terceira edição reunindo escritores, quadrinistas, editoras independentes e artistas que discutiram identidade, ancestralidade e representatividade asiático-brasileira.

Já a Expo Japan ampliou a presença do setor empresarial dentro do Festival, reunindo empresas japonesas interessadas em fortalecer relações comerciais com o mercado brasileiro e aproximando o público de produtos e tendências vindos diretamente do Japão.

Kizuna ganha significado além do tema da edição

Se o conceito de Kizuna apareceu na identidade visual do Festival, ele também pôde ser percebido em experiências espalhadas pelos pavilhões.

O recém-criado Espaço Kizuna foi talvez o exemplo mais evidente dessa proposta. Utilizando bancos de dados históricos, registros da imigração e recursos digitais, o ambiente convidou descendentes de japoneses a pesquisarem suas origens, enquanto visitantes sem ascendência puderam conhecer melhor as 47 províncias japonesas.

O mesmo espírito apareceu no Takkyu Volley, modalidade inclusiva criada no Japão que reúne pessoas com e sem deficiência na mesma equipe, reforçando valores como cooperação, respeito e convivência.

Nas apresentações de artes marciais, a tradição também foi além do aspecto esportivo. Demonstrações de judô, karatê, kendô, iaidô, naginata e outras modalidades apresentaram ao público princípios ligados à disciplina, honra, perseverança e respeito, valores que acompanham essas práticas há séculos e permanecem vivos dentro da cultura japonesa.

Um Festival pensado para todas as idades

Giuliano Peccilli

Outra característica que continua diferenciando o Festival do Japão é sua capacidade de reunir diferentes gerações em uma mesma programação.

Enquanto crianças participaram de oficinas culturais e atividades lúdicas inspiradas na tradição japonesa, pais e avós encontraram espaços voltados ao descanso, ao bem-estar e à convivência.

A Área da Criança, criada há mais de duas décadas, manteve sua proposta de aproximar os pequenos da cultura japonesa por meio de brincadeiras, oficinas e atividades educativas. Neste ano, um dos destaques foi a introdução dos dōyō, tradicionais canções infantis japonesas acompanhadas por instrumentos como koto e sanshin.

Já o Espaço Longevidade reforçou um dos valores mais presentes na cultura japonesa: o respeito aos idosos. Com atividades voltadas ao envelhecimento ativo, apresentações culturais, serviços gratuitos e demonstrações de novas tecnologias para reabilitação, o ambiente ampliou a proposta de acolhimento que acompanha o Festival há anos.

Outro aspecto que também merece destaque foi o fortalecimento das ações de sustentabilidade. A organização implantou um sistema de coleta seletiva distribuído por todo o evento, acompanhado por equipes de orientação e materiais educativos, buscando reciclar integralmente os resíduos gerados durante os três dias de programação.

Uma edição que reafirma a identidade do Festival

Giuliano Peccilli

Mesmo após quase três décadas de história, o Festival do Japão continua encontrando maneiras de se renovar sem abrir mão de sua essência.

Ao longo dos três dias de cobertura realizados pela JWave, ficou evidente que o evento permanece fiel ao propósito que motivou sua criação: preservar a cultura japonesa, fortalecer as associações de províncias e aproximar diferentes gerações por meio de experiências que vão muito além do entretenimento.

É justamente essa combinação entre tradição e renovação que faz do Festival uma experiência única. Em poucos passos, o visitante atravessa séculos de história, conhece costumes preservados pela comunidade nikkei, experimenta sabores vindos de diferentes regiões do Japão e descobre como essas tradições continuam encontrando espaço entre crianças, jovens e adultos.

Mais do que uma celebração da cultura japonesa, a 27ª edição reafirmou o papel do Festival como um espaço de preservação da memória da imigração, fortalecimento das associações de províncias e aproximação entre diferentes gerações.

Ao reunir gastronomia, manifestações tradicionais, cultura pop, experiências interativas e milhares de visitantes durante três dias de programação, o Festival mostrou que tradição e renovação podem caminhar lado a lado. Em um momento em que o intercâmbio cultural ganha cada vez mais importância, o evento segue como um dos principais elos entre Brasil e Japão e um exemplo de como preservar o passado também significa construir o futuro.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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