Agosto é marcado pelo Dia Nacional do Documentário Brasileiro, celebrado no dia 7, e a data serve como oportunidade para revisitar produções que usam o cinema como ferramenta de memória e reflexão sobre o país.
Para marcar o período, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) selecionou dez documentários brasileiros que atravessam temas como racismo, ancestralidade, identidade, pertencimento, religiosidade e resistência.
A seleção reúne filmes produzidos entre 1988 e 2025 e apresenta diferentes maneiras de olhar para a experiência da população negra brasileira. Há trabalhos dedicados à representação na televisão, às consequências da escravidão, às tradições quilombolas e às manifestações culturais que ajudaram a construir diferentes identidades do país.
1. Abolição (1988)
Dirigido por Zózimo Bulbul, Abolição investiga as consequências da abolição da escravidão no Brasil a partir de depoimentos de intelectuais, artistas e ativistas.
O documentário questiona o significado da liberdade conquistada em 1888 e relaciona o passado escravocrata às desigualdades e ao racismo que permanecem presentes na sociedade brasileira.
2. Ôrí (1989)
Em Ôrí, Raquel Gerber acompanha a historiadora e militante Beatriz Nascimento e sua relação com os movimentos negros brasileiros entre 1977 e 1988.
A obra percorre temas como quilombos, identidade e ancestralidade, estabelecendo também conexões entre as experiências negras no Brasil e no continente africano.
3. A Negação do Brasil (2000)
Joel Zito Araújo volta seu olhar para a televisão brasileira em A Negação do Brasil, documentário que analisa a representação da população negra nas telenovelas produzidas entre 1963 e 1997.
A produção investiga personagens e estereótipos construídos pela teledramaturgia e mostra como a televisão ajudou a reproduzir determinadas visões sobre a população negra.
4. Cavalo (2020)
Dirigido por Rafhael Barbosa e Werner Salles, Cavalo acompanha sete jovens dançarinos envolvidos em um processo de descoberta de suas próprias ancestralidades.
O filme aproxima corpo, memória, espiritualidade e identidade, utilizando a dança como uma das formas de investigar a relação dos personagens com suas origens.
5. Memórias Afro-Atlânticas (2020)
Em Memórias Afro-Atlânticas, Gabriela Barreto parte das pesquisas realizadas pelo linguista Lorenzo Turner em terreiros de candomblé da Bahia.
A investigação recupera conexões culturais e históricas entre Brasil e África, observando como a religiosidade também funciona como espaço de preservação de memória e ancestralidade.
6. Escasso (2022)
Dirigido por Clara Anastácia e Gabriela Gaia Meirelles, Escasso utiliza elementos do mockumentary para abordar questões como moradia, desigualdade social e ocupação dos espaços urbanos.
A protagonista Rose é uma passeadora de pets que busca realizar o sonho da casa própria. A partir dessa trajetória, o filme constrói uma abordagem que combina humor e crítica social.
7. Ginga Reggae: na Jamaica Brasileira (2023)
Naýra Albuquerque investiga a relação entre o Maranhão e o reggae em Ginga Reggae: na Jamaica Brasileira.
A produção acompanha a trajetória de Célia Sampaio e utiliza música, dança e cultura regueira para apresentar uma manifestação cultural que se tornou uma das expressões mais marcantes da identidade maranhense e da resistência negra.
8. João de Una Tem um Boi (2024)
Em João de Una Tem um Boi, Pablo Monteiro acompanha a tradição do Bumba Meu Boi na zona rural de São Luís, no Maranhão.
O documentário observa os rituais, a fé e os saberes transmitidos entre gerações por meio do Boi Estrela, mostrando como uma manifestação popular também funciona como mecanismo de preservação cultural.
9. Aqui Não Entra Luz (2025)
A memória familiar é o ponto de partida de Karoline Maia em Aqui Não Entra Luz.
A cineasta utiliza sua própria história para investigar como a arquitetura brasileira preserva marcas da escravidão e da segregação social, aproximando espaço físico e memória histórica.
10. Vozes e Vãos (2025)
Dirigido por Edileuza Penha de Souza e Edymara Diniz, Vozes e Vãos acompanha jovens quilombolas de Goiás envolvidos na preservação e reinvenção de tradições.
O filme coloca em primeiro plano os saberes ancestrais e a identidade cultural quilombola, mostrando como essas tradições continuam sendo reconstruídas pelas novas gerações.
Uma história contada por diferentes gerações
Embora os dez filmes tenham abordagens bastante diferentes, a seleção evidencia uma característica importante do documentário: sua capacidade de preservar histórias que poderiam desaparecer ou permanecer à margem das narrativas mais conhecidas sobre o Brasil.
Do cinema de Zózimo Bulbul e Raquel Gerber às produções mais recentes, os filmes percorrem décadas de transformações sociais e culturais. Em comum, encontram personagens, comunidades e manifestações que ajudam a compreender como memória, identidade e resistência estão relacionadas.
Para o público interessado em cinema brasileiro, a seleção também funciona como uma porta de entrada para produções que nem sempre encontram espaço no circuito comercial.
A lista foi indicada pela Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), entidade criada em 2016 para ampliar a participação de profissionais negros no audiovisual brasileiro e promover ações relacionadas à diversidade e ao enfrentamento do racismo.


