O cinema brasileiro vive um momento de maior exposição internacional — e o próximo passo é transformar esse interesse em produção conjunta com outros países.
Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) mostram que os pedidos de Reconhecimento Provisório de Coprodução Internacional passaram de 56, em 2023, para 140, em 2025. O crescimento acompanha uma fase de maior presença do audiovisual brasileiro em festivais e mercados estrangeiros, impulsionada também pelo reconhecimento de Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional.
A movimentação chegou com força à China em 2026. Durante o Festival Internacional de Cinema de Xangai, o Brasil levou uma delegação de 80 profissionais do audiovisual, a maior participação brasileira já registrada no evento.
O grupo participou do mercado do festival por meio da Plataforma Brasil de Audiovisual, criada para aproximar produtoras, distribuidoras e outros representantes do setor de investidores e empresas estrangeiras.
China entra no radar do audiovisual brasileiro
A presença brasileira em Xangai inicialmente reuniria 16 empresas. O número acabou chegando a 22 representantes, ampliando a participação do país nas negociações realizadas durante o mercado.
A escolha da China não acontece por acaso. O país se consolidou como um dos maiores mercados cinematográficos do mundo e já possui acordos específicos com o Brasil para produção audiovisual.
Em 2017, os dois países assinaram um Acordo de Coprodução de Filmes. Seis anos depois, em 2023, a parceria foi ampliada para a televisão.
Um dos projetos apresentados em Xangai foi A Herança de Narcisa, representado no festival pela diretora Clarissa Appelt e pela atriz Paolla Oliveira.
A estratégia é relativamente simples: em vez de pensar apenas na venda de um filme pronto para outro território, produtores brasileiros passam a buscar parceiros estrangeiros ainda durante o desenvolvimento e a produção.
Isso pode significar acesso a financiamento, estrutura de produção, profissionais e, principalmente, novos mercados para as obras.
Brasil ainda olha principalmente para a América Latina
Apesar do interesse crescente por mercados como o chinês, a maior parte das coproduções brasileiras continua concentrada em países latino-americanos.
Segundo o levantamento Panorama Coproduções Internacionais Brasil 2015-2024, a Argentina é o principal parceiro do Brasil nesse período. O Acordo Latino-Americano aparece como o instrumento jurídico mais utilizado para viabilizar essas produções, representando 32% dos reconhecimentos de coprodução.
Entre 2023 e 2025, a Ancine registrou 124 obras realizadas em coprodução internacional.
O cenário mostra que a internacionalização não depende apenas de levar filmes brasileiros para festivais estrangeiros. Existe também uma tentativa de colocar o país dentro das próprias cadeias internacionais de produção.
Animação é uma das apostas
Um exemplo conhecido dessa estratégia é Irmão do Jorel, do Copa Studio, produzido em parceria com a Cartoon Network. A animação estreou em 2014 e se tornou a série latino-americana mais longeva do canal.
O gênero também apresenta uma vantagem comercial: depois de adaptadas e dubladas, as animações podem circular por diferentes territórios com menos barreiras linguísticas e culturais.
Para produtoras brasileiras, esse tipo de parceria pode representar uma forma de alcançar públicos que dificilmente seriam atingidos apenas pela distribuição tradicional.
O crescimento das coproduções também ocorre em um momento em que o audiovisual brasileiro ganhou maior visibilidade fora do país. O desafio agora é fazer com que esse reconhecimento resulte em projetos capazes de circular internacionalmente desde sua concepção.
A participação brasileira em Xangai é um dos sinais dessa mudança: mais do que apresentar filmes nacionais ao exterior, o mercado começa a ser usado para encontrar quem possa ajudar a produzir os próximos.


