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Crítica | Um novo momento para Peter Parker em Homem-Aranha: Um Novo Dia

Quarto filme de Tom Holland aposta na fase adulta do personagem, mostrando um Homem-Aranha diferente no MCU

Quando o encontro dos três Aranhas em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa aconteceu, muito se duvidava de como seguir em frente dali. Com a Saga do Multiverso e o próprio Aranhaverso chegando à reta final, um novo filme que ajudasse a encerrar essa fase da Marvel era questão de tempo. Enquanto Homem-Aranha: Um Novo Dia, nos quadrinhos, serviu para balançar as estruturas ao colocar o Doutor Octopus no corpo do Homem-Aranha, aqui o nome representa um novo momento do herói: um salto de quatro anos no tempo, sem amigos, sem seu grande amor e vivendo praticamente 24 horas por dia como o “Miranha”.

Nos bastidores também houve mudanças. Sai Jon Watts, diretor responsável pela primeira trilogia com Tom Holland, que acostumou o público a ver o herói sempre ao lado de um mentor, e entra Destin Daniel Cretton, de Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (que talvez fosse, até então, o melhor filme da Marvel Studios nesta fase, algo que Homem-Aranha: Um Novo Dia consegue elevar ainda mais). Algumas peças, porém, continuam as mesmas e o roteiro segue assinado por Chris McKenna e Erik Sommers, algo importante para fazer a transição dessa nova fase do personagem.

Indo mais longe do que qualquer filme anterior do Homem-Aranha, este quarto capítulo parte diretamente das consequências de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa. Temos um Peter Parker (Tom Holland) cuja existência foi apagada da memória de todos por causa do feitiço do Doutor Estranho, incluindo seu melhor amigo e seu grande amor.

A história

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Morando sozinho, treinando como dava e usando inteligência artificial para aprimorar seu traje e suas teias, Peter Parker acompanha pelas redes sociais como seguem as vidas de Ned (Jacob Batalon) e MJ (Zendaya).

Vivendo praticamente como um herói em tempo integral, o Homem-Aranha recebe a chave da cidade de Nova York, mas continua morando em um apartamento simples, costurando o próprio uniforme e criando laços com outros heróis urbanos. É aí que nasce uma amizade inesperada com o Justiceiro (Jon Bernthal) (Sim, o mesmo personagem das séries da Netflix e do Disney+) mostrando um Homem-Aranha muito mais integrado à cidade do que nas produções anteriores.

Vale um adendo: nos quadrinhos, o personagem sempre foi assim. Não é à toa que recebeu o apelido de “Amigo da Vizinhança”. Pela primeira vez nos cinemas, o Homem-Aranha consegue mostrar esse lado mais conectado com sua cidade, deixando de ser pupilo de alguém para atuar em pé de igualdade com outros heróis.

Se Peter Parker perdeu seus amigos, o Homem-Aranha encontrou vários novos aliados. Um deles é a detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas), da Polícia de Nova York. Investigando diferentes casos e salvando o dia, os dois constroem uma relação que lembra a parceria entre Batman e o comissário Gordon. Mais do que isso, ela sabe que existe apenas um garoto por trás da máscara e se preocupa com sua saúde física e mental.

É justamente nesse contraste que o filme trabalha bem o isolamento de Peter. Enquanto acompanha Ned e MJ comemorando a vida nova e o fim da faculdade, ele acaba aparecendo de surpresa em uma festa dos dois e descobre da pior forma possível que aquela MJ, sem qualquer lembrança dele, seguiu em frente e está vivendo outro relacionamento.

Tudo muda quando o Homem-Aranha passa a investigar uma sequência de crimes envolvendo pessoas que simplesmente não se lembram do que aconteceu. Aos poucos, ele percebe que existe alguém capaz de trocar de corpo com outras pessoas, mas ainda sem entender quem está por trás disso.

Ao pedir ajuda aos Novos Vingadores, Peter acaba encontrando a Viúva Negra (Florence Pugh), que deixa claro que aquele caso é pequeno demais para mobilizar a equipe e que cabe ao próprio “Miranha” resolver a situação.

Exausto e próximo de um burnout, Peter passa a perder o controle sobre sua mutação. O cansaço faz com que seu lado aranha tente assumir o comando do corpo, levando-o a procurar Bruce Banner (Mark Ruffalo), agora professor em Nova York e usuário de um dispositivo que o ajuda a manter o Hulk sob controle.

Enquanto tenta descobrir quem é a misteriosa inimiga, Peter começa a sofrer mudanças físicas inesperadas. Além de acordar preso em teias no topo de seu prédio, ele passa a desenvolver teias orgânicas, em uma clara referência ao Homem-Aranha vivido por Tobey Maguire.

Uma vilã ou futura heroína?

E é justamente aqui que entramos na área de spoilers, porque o grande mistério guardado até então era justamente quem era essa vilã. Aqui temos a confirmação de que ela não só é uma mutante, como também a futura X-Men Jean Grey (Sadie Sink).

Peter não só descobre quem ela é, como consegue capturá-la e levá-la para o Departamento de Controle de Danos. Porém, será que ela realmente é tão má assim?

Veredito

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A chegada de Destin Daniel Cretton ao novo filme trouxe um estilo de ação totalmente diferente para o Homem-Aranha. Mais pé no chão e deixando de lado os trajes altamente tecnológicos, esta nova versão do herói parece mais preparada do que nunca, mostrando claramente sua evolução ao longo do MCU.

Entregando uma história densa e repleta de participações, Homem-Aranha: Um Novo Dia entrega não só a melhor história da versão de Tom Holland, como finalmente abraça sua essência nos quadrinhos.

Sabemos que a versão de Tom Holland era, até então, a menos ligada aos quadrinhos, principalmente por tantos reboots em um curto espaço de tempo e pela escolha da Marvel e da Sony de evitar repetições. Isso deixou o Tio Ben completamente de fora da história, assim como a frase que se tornou sinônimo do personagem. Como consequência, surgiram soluções criativas para preencher esse vazio, trazendo heróis como Homem de Ferro, Nick Fury e Doutor Estranho para o papel de mentores.

Aqui, porém, sua relação com o Justiceiro é completamente diferente. Não existe uma dinâmica de mestre e aprendiz, mas sim de dois heróis que trabalham lado a lado. É justamente essa relação que sempre existiu nos quadrinhos e que fazia falta nas adaptações para o cinema.

Por mais que a justificativa para tirar os Novos Vingadores de cena seja conveniente, a interação entre a Viúva Negra e o Homem-Aranha (com Peter apenas de cueca e máscara) transmite uma mistura curiosa de tensão, respeito e bom humor.

E por mais que a Jean Grey aqui esteja mais próxima de uma Carrie, a Estranha, seu poder de saltar de corpo em corpo mostra todo o potencial que ela tem para roubar a cena no futuro dos X-Men. Na verdade, sempre soubemos do perigo que ela representa quando lembramos da Fênix dominando sua mente, mas muitas vezes esquecemos que, antes de Xavier aparecer e ajudá-la a controlar seus poderes, Jean já era extremamente perigosa justamente por não conseguir lidar com eles. Nesse ponto, o filme é certeiro tanto na visão quanto na construção da personagem.

Agora falando de Peter Parker, é aqui que o personagem finalmente chega ao ponto em que sempre esteve nos quadrinhos. Morando sozinho, vivendo no caos e respirando Nova York o tempo todo, esse Peter está muito próximo do que se espera da versão clássica do herói. E a mutação que seu corpo sofre também encontra uma justificativa interessante: o desgaste físico e emocional causado pela exaustão e pelo burnout. Foi uma decisão muito mais acertada do que simplesmente transformá-lo em um monstro, como aconteceu em algumas histórias dos quadrinhos.

A participação de Bruce Banner (Mark Ruffalo), por outro lado, acaba decepcionando. Depois de todo o alarde envolvendo um possível Hulk Cinza, o personagem aparece como professor e depois volta a se transformar no Hulk apenas quando Jean assume o controle de seu corpo, rendendo uma ótima sequência de ação. Fora isso, Bruce pouco brilha, deixando praticamente todos os holofotes para o Justiceiro.

E é justamente do Justiceiro que precisamos falar. Existe aquele eterno sentimento de amor e ódio por ver o Homem-Aranha sempre atrapalhando sua “diversão” durante a caça aos criminosos. Ainda assim, quando o Miranha aparece gravemente machucado no fim do filme, Frank Castle revela um lado mais humano e protetor que torna impossível não gostar da dinâmica entre os dois.

Mas eu sei que você deve estar se perguntando sobre Ned e MJ. Sim, o filme trabalha o retorno gradual da memória dos dois, mas deixa claro que saber quem Peter Parker é não significa que tudo volte ao normal da noite para o dia. Existe um caminho para reconstruir essa amizade, algo que pode ser desenvolvido nos próximos filmes. E, sinceramente, mesmo que isso nunca seja explorado, também funciona. Afinal, algumas amizades permanecem para sempre, mas isso não significa que as pessoas continuem caminhando lado a lado.

Por fim, não dá para deixar de falar das cenas de ação. Além de extremamente bem coreografadas, Destin Daniel Cretton entrega um dos melhores usos do 3D que vi nos cinemas nos últimos anos. A sensação de acompanhar o Homem-Aranha saltando entre os prédios e lutando pelas ruas de Nova York faz parecer que estamos em um brinquedo de parque de diversões. Foi, sem dúvida, uma das maiores surpresas do filme.

Também é possível perceber fortes influências dos jogos mais recentes do personagem, principalmente pela forma como a câmera acompanha seus movimentos durante os balanços pela cidade. Com a Copa do Mundo recém-encerrada, a sensação lembra bastante as câmeras utilizadas por árbitros durante as partidas, colocando o espectador praticamente em primeira pessoa em algumas sequências de ação. É um recurso simples, mas extremamente eficiente para aumentar a sensação de velocidade e imersão, mostrando que o Homem-Aranha ainda tem muito a entregar no cinema.

Mas você deve estar se perguntando… E Vingadores: Doutor Estranho? A cena pós-créditos sugere um Homem-Aranha no espaço. Seja lá o que isso signifique, é o máximo de conexão que o filme estabelece com a próxima aventura do “Miranha”.

No fim das contas, Homem-Aranha: Um Novo Dia é o filme mais maduro do personagem no MCU e mostra que ainda existe muito a explorar nesta versão do herói. Tom Holland consegue afastar qualquer receio de um novo remake do Homem-Aranha.

Ficha técnica

Nota: 5 (de 5)

Título: Homem-Aranha: Um Novo Dia

Direção: Destin Daniel Cretton

Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers

Produção: Kevin Feige, Amy Pascal, Avi Arad e Rachel O’Connor

Elenco: Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Florence Pugh, Tramell Tillman, Marisa Tomei e Mark Ruffalo

Música: Michael Giacchino

Fotografia: Brett Pawlak

Montagem: Nat Sanders e Gina Sansom

Produção: Columbia Pictures, Marvel Studios e Pascal Pictures

Distribuição: Sony Pictures Releasing

Duração: 145 minutos

País: Estados Unidos

Estreia: 29 de julho de 2026 (Brasil)

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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