O Repórter Eco, programa ambiental mais longevo da televisão brasileira, inicia uma nova fase na TV Cultura. No ar desde 1992, a atração passa a ter uma hora de duração, ganha novos colaboradores especializados em meio ambiente e reformula sua linguagem para aproximar os grandes desafios ambientais da realidade cotidiana.
A nova etapa foi apresentada durante uma coletiva de imprensa realizada na sede da emissora, em São Paulo. Participaram do encontro Maria Angela de Jesus, presidente da Fundação Padre Anchieta, Beth Carmona, vice-presidente de Produção e Programação da TV Cultura, Alexandre Matos, responsável pela nova fase editorial do Repórter Eco, e Cleicí Patauá, nova apresentadora do programa.
A nova temporada estreia em 16 de agosto, domingo, às 18h, na TV Cultura, com horário alternativo às segundas-feiras, às 20h.
De boletim da Rio-92 a uma hora de programação

A nova fase preserva a história construída pelo Repórter Eco ao longo de 34 anos.
Durante a coletiva, Beth Carmona relembrou que o programa nasceu em 1992, no contexto da Rio-92, inicialmente como um boletim criado para acompanhar um evento que mobilizou o Brasil e ganhou repercussão internacional.
Com o passar dos anos, a atração cresceu dentro da programação da TV Cultura. O que começou como boletim passou por diferentes formatos, primeiro com 15 minutos, depois meia hora, até chegar agora a uma hora de duração.

Para Maria Angela de Jesus, a expansão representa o encontro entre o legado do programa e uma realidade ambiental que mudou profundamente desde sua criação.
Quando o Repórter Eco começou, a sustentabilidade era frequentemente tratada como uma questão relacionada ao futuro. Hoje, esse futuro já está presente.
A presidente da Fundação Padre Anchieta destacou os impactos cada vez mais perceptíveis da crise climática e o papel da televisão pública em colocar o assunto no centro da discussão.
“O nosso legado é o que nos leva para o futuro.”
Para Maria Angela, a questão ambiental ultrapassa fronteiras e não pode ser entendida apenas como um problema de uma cidade ou de um país.
“O Repórter Eco construiu sua história e chega aos seus 34 anos com esse reconhecimento, com essa força, com essa credibilidade”, afirmou.
A proposta agora é preservar essa identidade e, ao mesmo tempo, encontrar novas formas de abordar os impactos ambientais.
Mais tempo para ouvir
A mudança de duração vem acompanhada de uma atualização editorial.
Beth Carmona explicou que transformar o programa de meia hora em uma hora não significa simplesmente dobrar o tempo de exibição. A ideia é criar espaço para aprofundar reportagens, ampliar entrevistas e ouvir mais pessoas.
Comunidades, cientistas, pesquisadores, especialistas e diferentes setores da sociedade passam a ter maior presença na atração.
“Ouvir mais as comunidades, ouvir mais as experiências, ouvir mais os cientistas, ouvir mais o setor, ouvir mais o dia a dia e a preocupação que está na cabeça de cada um e na vida de cada um”, explicou.
A pauta ambiental também já aparece de maneira transversal em diferentes atrações da TV Cultura, e o Repórter Eco passa a ocupar novamente um papel central nessa estratégia.
A crise climática chegou ao cotidiano

À frente da nova fase editorial está Alexandre Matos. Durante a coletiva, ele explicou que uma das principais preocupações da equipe é combater o distanciamento entre a população urbana e a natureza. Para o jornalista, existe uma espécie de ruptura afetiva com a natureza.
A maior parte da população brasileira vive em cidades, mas muitas vezes não percebe como seu cotidiano está conectado aos processos naturais.
O novo Repórter Eco pretende recuperar essa conexão com temas como calor extremo, chuva, enchentes, água, árvores, concreto, alimentação e consumo passam a ser abordados a partir da realidade das cidades.
A intenção é mostrar que a emergência climática não é uma questão distante, restrita a cientistas ou governos.
Ela está relacionada à rua que alaga, à casa que fica mais quente, à falta de árvores, à qualidade da água e às condições de vida de diferentes comunidades.
Ciência aplicada à vida real
Um dos exemplos apresentados por Alexandre foi uma reportagem realizada com pesquisadores da Escola Politécnica da USP sobre pisos permeáveis.
A solução permite que a água da chuva seja absorvida pelo solo e pode ajudar a reduzir alagamentos. Mas a própria experiência também mostra que nenhuma tecnologia resolve sozinha um problema urbano.
Com o tempo, folhas, lixo e outros resíduos podem obstruir os espaços de infiltração.
A reportagem, portanto, pretende discutir tanto o potencial quanto os limites da solução.
O mesmo olhar será aplicado a temas como telhados verdes, arborização urbana e adaptação das cidades aos eventos climáticos extremos.
Um dos conteúdos apresentados durante a coletiva aborda o caso de Luiz Cassiano, morador do Parque Narandiba, no Rio de Janeiro.
Sua casa, com telhado de amianto, chegava a registrar temperaturas extremamente elevadas. A implantação de um telhado verde ajudou a reduzir o calor e acabou estimulando uma iniciativa comunitária.
Para Alexandre, histórias como essa mostram que falar de infraestrutura verde também significa discutir justiça ambiental e racismo ambiental.
Da denúncia às soluções
A nova temporada não abandona o diagnóstico dos problemas ambientais, mas pretende dedicar mais espaço a quem está buscando soluções.
Um dos exemplos é o coco do babaçu, em que se utiliza diferentes partes da planta para produzir alimentos, óleos, essências e outros produtos sem derrubar a floresta.
A reportagem apresenta o conceito de bioeconomia a partir da experiência de uma comunidade que transforma conhecimento tradicional em atividade econômica sem destruir seu território.
A proposta também aparece em histórias de pesquisadores, empreendedores e moradores que desenvolvem iniciativas de preservação e adaptação em diferentes regiões do país.
É um deslocamento importante na linguagem do programa: mostrar a gravidade da crise, mas também apresentar experiências que podem apontar caminhos para o futuro.
Novos olhares para o meio ambiente

A nova temporada contará ainda com conteúdos produzidos por especialistas convidados.
Entre os novos colaboradores estão o botânico Ricardo Cardim, a divulgadora científica Kananda Eller e a oceanógrafa Katharina Grisotti.
A presença dos três amplia o espectro de assuntos abordados pelo programa, passando por botânica, divulgação científica e oceanografia, além das reportagens produzidas pela equipe do Repórter Eco.
Durante a coletiva, a equipe também apresentou a ideia de uma rede de especialistas e colaboradores que poderá levar diferentes conhecimentos para dentro da atração.
A intenção é construir um mosaico de olhares sobre os problemas ambientais brasileiros, sem limitar a discussão a um único campo de conhecimento.
Ciência e saberes tradicionais

Outro eixo importante da reformulação é a aproximação entre ciência e saberes ancestrais.
Durante a coletiva, Cleicí Patauá relatou uma experiência na Amazônia envolvendo pesquisadores brasileiros e estrangeiros que trabalham com o mapeamento do DNA da floresta.
Ela esteve com lideranças quilombolas e acompanhou o cotidiano dessas comunidades, incluindo formas de manejo da terra e produção de alimentos.
A experiência também trouxe uma discussão sobre a própria relação entre ciência e comunidades tradicionais.
Durante muito tempo, pesquisadores acessaram conhecimentos existentes nesses territórios sem necessariamente estabelecer uma relação de troca com as comunidades.
A nova proposta do Repórter Eco pretende dar visibilidade a esses conhecimentos e mostrar como ciência, experiência comunitária e saberes ancestrais podem contribuir conjuntamente para enfrentar desafios ambientais.
Oceanos, biodiversidade e vida selvagem
A ampliação da equipe também permitirá aprofundar assuntos relacionados a diferentes ecossistemas.
Entre os temas previstos estão oceanos, biodiversidade, manguezais, arborização urbana e animais silvestres.
A oceanógrafa Katharina Grisotti levará ao programa conteúdos relacionados ao ambiente marinho, uma área considerada fundamental para compreender os ciclos naturais do planeta.
Durante a coletiva, a equipe destacou que os oceanos cobrem aproximadamente 70% da superfície terrestre, mas ainda recebem uma atenção menor do que sua importância para a vida no planeta.
O programa também contará com conteúdos relacionados ao trabalho do Instituto Vida Livre, que atua no resgate e recuperação de animais silvestres afetados pela expansão das cidades.
Cleicí Patauá estreia na televisão
A principal novidade da reformulação é Cleicí Patauá, advogada indígena e especialista em ESG, com atuação em justiça climática, governança territorial e fortalecimento de comunidades tradicionais, que fará sua estreia na televisão como apresentadora.
Filha de lideranças indígenas, Cleicí viveu até os 11 anos às margens do rio Unini, no Amazonas.
Sua relação com a floresta é parte fundamental da visão que pretende levar para o programa.
Durante a coletiva, ela falou sobre a chamada cosmovisão da floresta, na qual rios, animais, árvores e pessoas fazem parte de um mesmo sistema.
Ao citar o pensamento do escritor e filósofo Ailton Krenak, Cleicí destacou a ideia de que, se existe um futuro a ser imaginado, esse futuro também pode ser ancestral.
“O grande diferencial de nós, povos da floresta, é esse: a gente se enxerga como parte e não como algo superior.”
A nova apresentadora pretende levar para o Repórter Eco histórias de cientistas, empreendedores, comunidades indígenas, comunidades quilombolas e outros povos tradicionais que já desenvolvem soluções em seus territórios.
Da floresta para a cidade

Para Cleicí, essa visão precisa chegar também às cidades e ela destacou que tudo o que acontece na floresta chega, de alguma maneira, aos centros urbanos. Ao mesmo tempo, decisões tomadas nas cidades produzem impactos sobre a floresta e sobre as comunidades que vivem nela.
Por isso, o programa pretende falar de água, comida, ar, produção, consumo, economia e cultura, relacionando esses temas às mudanças climáticas.
A apresentadora também destacou a necessidade de discutir como as cidades podem se preparar para enchentes, secas, ondas de calor e outros eventos extremos.
“Falar de meio ambiente e falar de crise climática é, antes de qualquer coisa, falar de pessoas”, afirmou.
A proposta é levar ao público não apenas o alerta sobre a gravidade da situação, mas também histórias capazes de produzir esperança e mostrar possibilidades concretas de transformação.
Hélio da Silva leva suas árvores para a TV Cultura

O encerramento da coletiva teve um momento simbólico.
O aposentado Hélio da Silva, conhecido pelo trabalho de recuperação ambiental na Zona Leste de São Paulo, participou do encontro e plantou uma árvore de Jequitibá-rosa no jardim da Fundação Padre Anchieta, sede da TV Cultura.
Hélio começou seu trabalho de plantio em 2003 e já ultrapassou a marca de 41 mil árvores plantadas, principalmente na região do Parque Linear Tiquatira.
Seu trabalho ajudou a transformar uma área degradada em um corredor verde urbano, com grande diversidade de espécies.
A experiência de Hélio também fará parte do Repórter Eco.
Sua participação sintetiza uma das ideias centrais apresentadas durante a coletiva: a transformação ambiental também pode começar por iniciativas individuais que, com o tempo, ganham dimensão comunitária.
A árvore plantada por Hélio ficará no jardim da TV Cultura, ao lado de espécies como pau-brasil, quaresmeira, ipê-amarelo e seringueira, além de árvores frutíferas.
O gesto estabelece uma ligação simbólica entre a história e o futuro do programa.
O Repórter Eco nasceu em 1992, quando muitas das discussões ambientais que hoje fazem parte do cotidiano ainda eram apresentadas como desafios para as próximas décadas.
Em 2026, a emergência climática já está nas cidades, nas florestas e na rotina da população.
A nova fase pretende manter a tradição de informar, mas ampliar a pergunta: além de mostrar o problema, quais soluções já estão sendo construídas?
Quando estreia o novo Repórter Eco

A nova fase do Repórter Eco estreia em 16 de agosto, domingo, às 18h, na TV Cultura.
O programa terá uma hora de duração e contará ainda com horário alternativo às segundas-feiras, às 20h.
Com Cleicí Patauá na apresentação e novos colaboradores como Ricardo Cardim, Kananda Eller e Katharina Grisotti, a atração busca aproximar ciência, saberes tradicionais, cidades e natureza, mantendo o compromisso construído ao longo de 34 anos.
Mais do que atualizar o formato, a proposta é colocar o público diante de uma questão que deixou de pertencer ao futuro: Como viver e construir soluções em um planeta que já está mudando?

