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Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte cancela 6ª edição por falta de patrocínio

A Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte não será realizada em 2026. A organização anunciou nesta quinta-feira (13) o cancelamento da sexta edição do festival, que estava prevista para outubro, após meses de tentativas de captação de recursos.

O projeto havia sido aprovado na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte e também na Lei Rouanet, mas a aprovação não foi suficiente para garantir a realização do evento. Sem conseguir patrocinadores dentro do prazo necessário, a equipe decidiu interromper a edição deste ano.

Criada em 2021, a Semana se consolidou como um dos espaços dedicados à circulação e discussão do cinema negro brasileiro e internacional em Belo Horizonte. Ao longo de cinco edições, o festival exibiu quase 300 filmes e reuniu mais de 30 mil pessoas em sessões, debates e atividades formativas.

“A interrupção acontece depois de cinco edições que consolidaram a Semana de Cinema Negro no calendário cultural de Belo Horizonte e no circuito do cinema negro brasileiro e internacional”, afirma Layla Braz, idealizadora do festival.

Segundo ela, a iniciativa se tornou um espaço de circulação de filmes e profissionais, formação e encontros entre realizadores, pesquisadores, estudantes, críticos e público.

Festival já havia recebido cerca de 300 inscrições

O impacto do cancelamento também atingiu diretamente a programação que estava sendo preparada para 2026.

Uma das principais ações seria a mostra Cine Escrituras Pretas, voltada a obras de realizadores negros brasileiros. A chamada recebeu cerca de 300 inscrições, mas o processo de curadoria sequer chegou a começar diante da falta de recursos para a realização do evento.

A SemanaLab, iniciativa ligada ao festival que promove cursos e atividades para profissionais do audiovisual de Belo Horizonte e região metropolitana, também não conseguiu recursos para realizar sua terceira edição neste ano.

Nas cinco edições anteriores, a Semana manteve sua programação gratuita e ocupou espaços como o Cine Humberto Mauro e o Cine Santa Tereza. O festival também promoveu atividades voltadas para crianças e estudantes, além de ações de acessibilidade, debates e encontros com profissionais brasileiros e estrangeiros.

Entre os convidados que passaram pelo evento estão a arquivista de cinema Annabelle Aventurin, responsável pela conservação e distribuição dos arquivos do cineasta mauritano Med Hondo, e o cineasta norte-americano Charles Burnett, homenageado com um Oscar Honorário.

O problema está na captação

Para Layla Braz, o caso expõe uma dificuldade que vai além da própria Semana: ser aprovado em uma lei de incentivo não significa que o projeto terá os recursos necessários para acontecer.

Segundo a organização, o festival conseguiu autorização para captar recursos tanto pela legislação municipal quanto pela Lei Rouanet. O desafio foi encontrar empresas e pessoas físicas dispostas a efetivamente patrocinar a iniciativa.

Na avaliação de Layla, o aumento da quantidade de projetos aprovados na lei municipal não foi acompanhado por uma expansão proporcional do limite anual de renúncia fiscal.

“Se temos 12 meses para captar, o ideal seria que esse valor também ficasse disponível durante os 12 meses”, afirma.

A realizadora também aponta dificuldades para projetos realizados fora do eixo Rio-São Paulo conseguirem atrair grandes patrocinadores por meio da Lei Rouanet.

“Os patrocinadores só estão atrás de eventos de grande porte, que eles sabem que vão dar um retorno muito grande para eles em publicidade”, afirma.

Financiamento de iniciativas de cinema negro preocupa profissionais

A pesquisadora, curadora e professora Tatiana Carvalho Costa, presidente da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), considera que a interrupção da Semana precisa ser observada dentro de um cenário mais amplo.

Para ela, a redução do interesse institucional por iniciativas relacionadas à diversidade também tem atingido eventos dedicados aos cinemas negros.

“A Semana de Cinema Negro é um lugar muito rico e fértil de circulação de filmes, circulação de pessoas, encontros e discussões extremamente qualificadas sobre as perspectivas do cinema brasileiro”, afirma.

Tatiana destaca ainda que a Semana faz parte de uma rede de eventos dedicados aos cinemas negros e que o debate sobre financiamento dessas iniciativas tem sido recorrente entre profissionais do setor.

Na avaliação da pesquisadora, a retração de investimentos pode comprometer não apenas os festivais, mas também a circulação de filmes, a geração de trabalho no setor audiovisual e a criação de espaços para discussão e reconhecimento da produção negra.

Ela cita ainda mudanças ocorridas no cenário internacional após o aumento de compromissos corporativos relacionados à equidade racial a partir de 2020. Segundo Tatiana, parte desses investimentos posteriormente perdeu força, movimento que também teria reflexos no Brasil e na América Latina.

Festival movimenta uma cadeia além das sessões

A interrupção também representa uma perda para profissionais que dependem da realização de eventos culturais para trabalhar.

Segundo estudo da Oxford Economics, encomendado pela Motion Picture Association, a indústria audiovisual brasileira sustentou 608.970 empregos em 2024 e contribuiu com R$ 70,2 bilhões para o PIB naquele ano. O levantamento considera impactos diretos, indiretos e induzidos da atividade.

No caso da Semana de Cinema Negro, a estrutura envolve não apenas exibição de filmes, mas também curadoria, produção, formação, comunicação, acessibilidade e participação de profissionais convidados.

A cineasta Asaph Agatha Luccas, que participou da edição de 2025 com o filme VBP, destaca justamente a dimensão do encontro proporcionado pelo festival.

“Foi uma das experiências mais especiais em festivais na minha carreira”, afirma. Segundo ela, a Semana criou um ambiente de troca entre realizadores, curadores e um público majoritariamente negro.

Cancelamento repercute entre cineastas

O anúncio provocou manifestações de profissionais do audiovisual nas redes sociais.

O diretor Gabriel Martins, da Filmes de Plástico, reagiu ao cancelamento incentivando a organização a buscar alternativas para manter o festival.

Outros cineastas também destacaram a importância da Semana para a circulação e o encontro de profissionais negros.

Para Layla Braz, entretanto, a decisão pelo cancelamento ocorreu porque já não havia tempo hábil para organizar uma nova edição com a estrutura necessária.

A interrupção de 2026 também pode fazer com que o festival precise passar novamente pelo processo de aprovação nos mecanismos de incentivo para tentar viabilizar uma edição em 2027.

Apesar do cenário, a organização afirma que pretende continuar buscando alternativas para retomar o evento.

“Não vamos desistir de buscar possibilidades para a realização do festival. Seguimos no desejo de realizar um evento que traga dignidade para os profissionais envolvidos, novos olhares e acolhimento para realizadores e o público”, afirma Layla.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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