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Flores Astrais leva conceitos de game design para a construção de um romance

E se a estrutura de um jogo pudesse servir de base para construir um romance? Essa é a proposta de Marcelo Nery em Flores Astrais, livro publicado pela Editora Mondru que combina horror gótico, mistério e construção de mundos a conceitos vindos do game design.

A história acompanha Tiago Amaral Grandi, que retorna à fazenda de café da família após a morte do pai, em 1980. O casarão onde ele encontra segredos, traumas e acontecimentos sobrenaturais não funciona apenas como cenário. Arquitetura, objetos e símbolos ajudam a formar uma espécie de sistema que o leitor precisa compreender ao longo da narrativa.

Um romance pensado como experiência

Formado em Ciência da Computação pela PUC Minas, com mestrado e doutorado pela UFMG e parte da formação na Technische Universiteit Delft, na Holanda, Nery passou 16 anos no ensino universitário e participou da criação e coordenação do curso de Jogos Digitais da PUC Minas.

Atualmente, atua na ARVORE Immersive Experiences como coordenador de game design e sênior game designer, trabalhando com projetos de realidade virtual e aumentada. Ao longo da carreira, também teve contato com jogos de tabuleiro.

Essa experiência influencia diretamente sua maneira de pensar a literatura. Para o autor, apesar das diferenças entre as mídias, jogos e livros podem ser encarados como sistemas que conduzem o público por uma experiência.

Um dos conceitos utilizados em Flores Astrais é o flow, estado de imersão associado pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi à concentração profunda. Na construção do romance, a ideia aparece na preocupação em manter a coerência das regras internas daquele universo para que o leitor permaneça envolvido com a história.

Outro elemento é o círculo mágico, conceito do universo dos jogos que delimita o espaço onde determinadas regras passam a funcionar. No livro, o casarão mineiro assume justamente esse papel.

O casarão também conta a história

A arquitetura da propriedade participa da narrativa e influencia a maneira como os acontecimentos são percebidos. O átrio central, onde cresce a belladonna, funciona como um dos pontos de tensão do romance.

Objetos e símbolos também retornam ao longo da história, adquirindo novos significados conforme diferentes informações são reveladas. A estrutura alterna presente e passado e diferentes vozes narrativas, fazendo com que o leitor reúna as peças gradualmente.

O resultado aproxima a leitura de uma investigação, na qual acontecimentos aparentemente desconectados passam a fazer sentido conforme a narrativa avança.

Um gótico com identidade brasileira

Embora Flores Astrais dialogue com elementos tradicionais do gótico, Marcelo Nery desloca essa linguagem para o interior de Minas Gerais.

Os castelos são substituídos por casarões de café, enquanto o cenário incorpora elementos brasileiros, como a poeira vermelha e os urubus. O sobrenatural também se conecta a questões históricas e sociais, incluindo herança colonial, escravidão, ditadura, intolerância religiosa e preconceito sexual.

A combinação transforma a ambientação em parte fundamental da narrativa, unindo horror, memória familiar e construção de mundo.

Flores Astrais é o primeiro romance de Marcelo Nery e foi publicado pela Editora Mondru em 2025. A obra conta ainda com prefácio da escritora Jarid Arraes, que destaca o sobrenatural como uma das ferramentas utilizadas pelo autor para construir a narrativa.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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