Crítica | Desimpedidas, viagem entre amigas se transforma num pesadelo em Garotas Só Querem Vingança

Primeiro longa de Izabel Pakzad aposta em excessos e violência para discutir amizade, misoginia e vulnerabilidade

Com um título como Garotas Só Querem Vingança (Find Your Friends), pode até parecer que estamos diante de uma comédia besteirol, mas não se engane. Com festas regadas a drogas, decisões controversas e traumas do passado, o filme acompanha jovens mulheres descobrindo da pior maneira possível que não são bem-vindas naquele lugar.

Escrito e dirigido por Izabel Pakzad, o longa acompanha um grupo de amigas aproveitando um dos últimos momentos juntas antes de encarar de vez a vida adulta. Elas alugam um chalé no deserto da Califórnia e se jogam em festas para viver um fim de semana sem grandes preocupações.

É assim que conhecemos Amber (Helena Howard), Lavinia (Bella Thorne), Zosia (Zión Moreno), Lola (Chloe Cherry) e Maddy (Sophia Ali). Entre festas, encontros casuais e conversas sobre as besteiras que fizeram até ali, o filme estabelece a cumplicidade entre as cinco.

Amber ganha maior destaque por carregar as consequências de um relacionamento traumático e reencontrar o ex durante a viagem. Em um jogo de ciúmes e decisões impulsivas, tenta se envolver com outros homens, mas demonstra desconforto ao ser tocada, situação que acaba provocando brigas e a expulsão do grupo de uma festa.

De volta ao chalé, as amigas percebem que Amber não está bem. Isso não impede que, no calor do momento, uma delas decida sair sozinha e simplesmente desapareça.

A partir daí, fica cada vez mais evidente que elas não são bem-vindas naquela região. Um carro passa a persegui-las pelas estradas e, agora sem uma das amigas, o grupo começa a perceber que existe algo muito mais perigoso acontecendo ao seu redor.

Opinião

Garotas Só Querem Vingança começa caótico, mas curiosamente encontra um de seus melhores momentos na simplicidade da conversa entre as cinco amigas. Dentro do carro, compartilhando histórias sobre coisas que deram errado na hora H, elas arrancam algumas risadas e estabelecem uma amizade e uma cumplicidade fundamentais para o restante do filme.

O problema é que Izabel Pakzad exagera no tom. O longa tenta reproduzir visual e narrativamente os efeitos das drogas, do álcool e das escolhas impulsivas das personagens, criando uma experiência propositalmente desorientadora. Só que esse recurso é usado tantas vezes que o caos deixa de contribuir para a narrativa e começa a atrapalhar sua compreensão.

Amber é quem mais sofre com isso. Como protagonista, ela carrega boa parte dos temas que o filme pretende discutir, principalmente misoginia, trauma e vulnerabilidade. O que começa como um fim de semana de curtição aos poucos se transforma em um caminho sem volta, no qual as aventuras daquelas jovens se misturam aos fantasmas do passado.

Há uma cena particularmente interessante em que Amber enxerga os homens com quem ficou no começo do filme perseguindo-a. É um dos momentos em que Garotas Só Querem Vingança consegue transformar o trauma da personagem em imagem, reforçando que ela ainda não conseguiu superar completamente o relacionamento anterior e tem dificuldades para se envolver novamente com alguém.

Os diálogos entre Amber e Lavinia também ajudam a sustentar o filme. A relação entre as duas ressalta a amizade e a necessidade de Amber deixar o passado para trás. Essa cumplicidade está entre os pontos altos da produção, embora o excesso de drogas, álcool e delírios prejudique o desenvolvimento das personagens e a própria compreensão da história.

Quando finalmente revela suas cartas, Garotas Só Querem Vingança segue por um caminho relativamente simples: moradores da região não gostam daqueles “jovens ricos e bêbados da cidade grande”. É basicamente isso que transforma as garotas em alvos de homens dispostos a persegui-las e fazê-las desaparecer.

Irregular em sua história e propositalmente desagradável em sua narrativa, o filme começa então a abraçar o gore e encontra na violência a justificativa para a vingança anunciada pelo título brasileiro. Sem muito pudor, as garotas atacam um carro com spray de pimenta, sequestram um dos perseguidores e chegam a arrancar o “dito-cujo” de um deles, deixando claro que também não estão para brincadeira.

Porém, Garotas Só Querem Vingança termina com o gosto amargo de um terror que levanta temas interessantes sem conseguir desenvolvê-los com a mesma força. A amizade entre as protagonistas e os traumas de Amber oferecem caminhos que poderiam render algo mais consistente, mas acabam soterrados pelo excesso de estímulos, drogas, violência e mudanças de tom.

Em seu primeiro longa, Izabel Pakzad claramente não está interessada em seguir os caminhos convencionais do gênero. O problema é que, ao tentar tornar a experiência desconfortável a qualquer custo, Garotas Só Querem Vingança muitas vezes parece mais preocupado em ser desagradável do que em transformar esse incômodo em algo realmente significativo.

Ficha técnica

Nota: 3 (de 5)

Título: Garotas Só Querem Vingança
Título original: Find Your Friends
Direção: Izabel Pakzad
Roteiro: Izabel Pakzad
Elenco: Helena Howard, Bella Thorne, Zión Moreno, Chloe Cherry e Sophia Ali
Fotografia: Tim Curtin
Montagem: Maxime Pozzi-Garcia
Música: Ben Frost
Distribuição: Shudder
Gênero: Terror, suspense
Duração: 93 minutos
Países: Estados Unidos e Itália
Idioma: Inglês
Ano: 2025

Agradecimentos a Filmelier+ pela produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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