Crítica | Terror psicológico, Outra Mamãe exagera a mão

Jessica Chastain enfrenta uma entidade sobrenatural em um filme que começa com uma proposta interessante, mas perde força conforme a história avança.

Lançado nos cinemas em outubro, em pleno mês do Halloween, Outra Mamãe aposta no mistério de uma entidade sobrenatural que assume a aparência da mãe de uma criança. Sem revelar muito sobre suas origens ou intenções, o filme desperta a curiosidade do público com uma premissa que parece ter todos os ingredientes para um bom terror psicológico.

Baseado no livro Incidents Around the House, de Josh Malerman, Outra Mamãe acompanha Isabela (Arabella Olivia Clark), uma menina de sete anos que começa a receber visitas de uma entidade misteriosa com a aparência de sua mãe, Ursula (Jessica Chastain). Enquanto os pais enfrentam uma crise no casamento, a criatura tenta conquistar a confiança da criança para assumir o controle de sua vida.

Diferentemente dos monstros tradicionais do cinema de terror, a criatura de Outra Mamãe prefere manipular suas vítimas, confundindo realidade e fantasia enquanto espera o momento certo para agir. É justamente nessa relação com a criança que o filme encontra seus momentos mais interessantes.

Dirigido por Rob Savage, que já havia explorado o terror sobrenatural em O Bicho-Papão (2023), o longa apresenta algumas ideias que remetem ao cinema de horror dos anos 1980. Referências como Uma Noite Alucinante (1987) e Akira (1988), entre as influências cinematográficas do diretor, ajudam a compreender sua aproximação com o grotesco e o sobrenatural, embora nem tudo funcione em Outra Mamãe.

A história

Em um dia aparentemente normal na família Martin, Ursula (Jessica Chastain) sai para trabalhar enquanto Russell (Jay Duplass) permanece em casa, sem grandes perspectivas. É nesse ambiente que Isabela começa a interagir com alguém que, inicialmente, parece ser apenas uma amiga imaginária.

Chamada de Outra Mamãe, a entidade tem a aparência de Ursula, mas apresenta movimentos estranhos e inicialmente permanece escondida no armário do quarto da menina. A situação muda quando a criatura aparece na cozinha, tenta preparar um macarrão e quase provoca um incêndio, despertando Russell, que presencia a cena e foge da casa com a filha.

Dias depois, durante a comemoração do aniversário de casamento dos pais, Isabela está sob os cuidados do babá Kelvin (Sean Kaufman), quando a Outra Mamãe reaparece e leva a menina para brincar em uma espécie de realidade paralela, onde a casa está completamente vazia. A experiência termina com Isabela caindo do lustre da sala, surpreendendo os convidados da festa.

Cada vez mais convencidos da existência da criatura, Ursula e Russell aceitam o convite de Frank, amigo da família, para passar alguns dias em sua casa. Entretanto, a mudança de ambiente acaba revelando outros problemas, especialmente quando Isabela encontra as lentes de contato da mãe na sala de Frank, levantando suspeitas de um relacionamento extraconjugal.

Enquanto Russell parece evitar confrontar a situação, Isabela demonstra seu incômodo com a presença de Frank na vida dos pais. Ao revelar para a Outra Mamãe que gostaria de vê-lo afastado da família, a menina acaba desencadeando uma nova tragédia, obrigando todos a fugir novamente.

Mas será que existe alguma maneira de escapar dessa criatura?

Opinião

Outra Mamãe acerta, e muito, ao apresentar uma história de suspense pelo olhar de uma criança. Essa escolha faz com que situações aparentemente óbvias para os adultos ganhem caminhos inesperados, explorando a inocência de Isabela diante de acontecimentos que ela ainda não consegue compreender.

A criatura também vai revelando suas diferentes facetas a cada aparição, deixando claro que seu principal objetivo é conquistar o coração da menina. A pureza e a vulnerabilidade de Isabela fazem dela o alvo ideal, enquanto os problemas dos adultos acabam facilitando a aproximação da entidade.

Com ares que lembram o cinema de terror dos anos 1980, especialmente A Hora do Pesadelo, a mistura entre fantasia e realidade remete aos ataques de Freddy Krueger, em que as vítimas nem sempre conseguem distinguir o que é real daquilo que está acontecendo em outro mundo.

Mas o foco continua sendo Isabela e a maneira como os adultos precisam enfrentar seus próprios problemas para protegê-la. Afinal, para vencer o mal, talvez seja necessário partir o coração de uma criança. É justamente nesse conflito que o filme acerta o tom e demonstra seu maior potencial.

O problema é que Outra Mamãe nem sempre consegue equilibrar suas ideias. Os exageros visuais e algumas situações envolvendo a criatura acabam enfraquecendo o suspense construído inicialmente, fazendo com que a história perca parte de sua força conforme avança.

Ainda assim, o longa apresenta discussões que vão além do olhar infantil, especialmente sobre a maternidade de Ursula e seu relacionamento com Russell. São conflitos que mostram como as decisões dos adultos podem afetar uma criança, mesmo quando ela não compreende completamente o que acontece ao seu redor.

Entregando um terror irregular, mas que incomoda o suficiente, Outra Mamãe é uma boa surpresa de 2026. Produzido por James Wan e distribuído pela Universal Pictures, o filme encontra seus melhores momentos quando deixa os sustos de lado e explora os conflitos de uma família que já estava em crise antes mesmo da chegada da criatura.

Ficha Técnica

Nota: 3,5 (de 5)

Título original: Other Mommy

País: Irlanda / Estados Unidos

Gênero: Terror sobrenatural

Direção: Rob Savage

Produção: James Wan

Baseado em: Incidents Around the House, de Josh Malerman

Elenco: Jessica Chastain, Jay Duplass, Arabella Olivia Clark, Sean Kaufman e Dichen Lachman

Produtoras: Atomic Monster e Blumhouse Distribuição: Universal Pictures

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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