Adaptar Street Fighter para os cinemas nunca foi uma tarefa simples. Desde sua estreia nos fliperamas em 1987, a franquia da Capcom conquistou gerações de jogadores, mas vamos combinar que foi especialmente com Street Fighter II, lançado em 1991, que o jogo caiu no gosto de todo mundo, principalmente dos brasileiros. E a nova adaptação para os cinemas vem mostrar que dá para ser fiel aos jogos originais.
Em quase 40 anos de franquia, o sucesso também chegou às telonas em outras adaptações, especialmente a de 1994, com Jean-Claude Van Damme e Raul Julia. Desde então, outras produções surgiram, mas nenhuma conseguiu alcançar o mesmo reconhecimento.
Desta vez, a direção ficou nas mãos de Kitao Sakurai, conhecido por seu trabalho em Twisted Metal. Todo o exagero e a caricatura dos jogos originais vieram na bagagem de uma adaptação que mistura artes marciais, comédia e uma boa dose de nostalgia.
Reunindo um elenco de estrelas como Noah Centineo, Andrew Koji, Jason Momoa e Callina Liang, entre tantos outros, a produção aposta em nomes conhecidos e condizentes com o público atual. Depois de tantos meses acompanhando as mudanças da Paramount, o novo filme também chega para mostrar o papel da empresa no mercado, ao lado de Pânico 7, Todo Mundo em Pânico 6 e outros títulos que chegaram ao longo de 2026.
Com o suporte da própria Capcom para trazer fidelidade à obra, Street Fighter chega aos cinemas muito mais próximo dos jogos do que qualquer outra adaptação anterior. Isso significa trazer as coisas boas (e também as ruins) que a franquia acumulou ao longo de todos esses anos.
E, antes de falar do filme, temos que ser francos: Street Fighter, por mais icônico que seja, sempre foi uma franquia com uma cronologia complicada de entender. Com jogos numerados que se passam em diferentes momentos da história e um elenco enorme de personagens, levar tudo isso para os cinemas significa enfrentar o desafio de encontrar uma narrativa única em meio a tantas jornadas individuais.
A trama

A história começa em 1987, quando Ryu (Andrew Koji) derrota Sagat ao despertar o Satsui no Hadou durante o World Warrior Tournament, atraindo o interesse de Akuma (Roman Reigns). O confronto desencadeia acontecimentos que afastam o lutador de seu irmão adotivo, Ken Masters (Noah Centineo). Vale aqui uma observação: nos jogos, isso seria equivalente ao final do primeiro Street Fighter, embora Akuma ainda não existisse no título original, assim como o conceito de Satsui no Hadou.
Toda a abertura do filme é feita em animê, mostrando como Ryu venceu o torneio ao sucumbir às trevas. Para simplificar, seria algo semelhante ao lado sombrio da Força em Star Wars, representado pelo Satsui no Hadou em Street Fighter. Esse poder desperta a atenção de Akuma, também conhecido como Gouki, e obriga Ryu a se afastar das lutas em busca de recuperar o controle sobre suas escolhas.
Seis anos depois, os dois acabam envolvidos em uma nova competição organizada por M. Bison (David Dastmalchian), enquanto Chun-Li (Callina Liang) investiga as atividades criminosas da organização Shadaloo.
Nesse novo momento, Ryu, considerado o melhor lutador do mundo, está desaparecido, enquanto Ken se tornou um garoto-propaganda de grandes marcas em 1993. Estrelando campanhas de empresas como Duracell e MTV, o personagem é apresentado como um astro em decadência, que sucumbiu a uma fama vazia e sem sentido.
Enquanto isso, M. Bison tenta ampliar seus poderes e dominar o Psycho Crusher, procurando grandes lutadores ao redor do mundo. Retomar o torneio que deu fama a Ryu seria a solução para encontrá-lo e reunir outros combatentes igualmente poderosos.
Ken aceita participar do torneio a convite de Chun-Li, na esperança de reencontrar Ryu, além de rever rostos conhecidos como Guile e Dhalsim. Enquanto isso, Ryu pede ajuda a E. Honda para entrar na competição, enfrentando o lutador em um confronto que pode lhe garantir uma vaga.
Será que Ryu conseguirá controlar sua energia neste novo torneio?
Entre acertos e erros, temos muitas referências aos fliperamas

Street Fighter segue o caminho de evitar longas explicações, apresentando conceitos e elementos de sua mitologia conforme os personagens surgem na tela. Se, por um lado, muitos são fiéis às suas versões originais, não podemos dizer o mesmo da caricatura em que Guile se transformou, além da falta de desenvolvimento de personagens como Dhalsim e o próprio Zangief.
A chegada de Blanka ao filme acaba sendo uma das representações mais fiéis até então, mostrando seu jeito inocente e até bobo em cena. Trazendo inclusive o nome Jimmy, o personagem interpretado por Jason Momoa tem uma participação pontual e revela uma faceta inusitada do ator, conhecido por papéis mais “brucutus”, como Aquaman e, mais recentemente, Lobo.
Mas é inevitável não comparar o M. Bison de David Dastmalchian com a versão interpretada por Raul Julia em 1994. Com uma atuação bem aquém do esperado e pouco interessante, o novo M. Bison não consegue transmitir o peso que o vilão exige, o que enfraquece bastante a história. E olha que o personagem ainda homenageia o filme de 1994 com sua fala icônica dirigida a Chun-Li.
Quem rouba a atenção são Andrew Koji e Noah Centineo. Koji apresenta um Ryu sereno, que acaba sendo forçado a retornar ao caminho das lutas, enquanto Centineo aposta em uma interpretação mais descontraída de Ken, agora em decadência, mas ainda tentando provar seu valor como lutador.
Além deles, Callina Liang interpreta uma Chun-Li que busca vingança pela morte do pai. Sua personagem tem certo carisma em cena e funciona como ponte entre boa parte dos outros personagens da história. Isso não impede uma piada sobre suas coxas, característica que ganhou ainda mais notoriedade entre os fãs, especialmente a partir de Street Fighter IV, reforçando mais uma das referências da produção.
Semelhante a filmes como Sonic e Super Mario, Street Fighter prefere se inspirar em toda a sua mitologia para construir uma história própria nos cinemas. Assim, a participação do locutor Don Sauvage (Eric André), de Street Fighter V, o desenvolvimento da amizade entre Ken e Dan Hibiki (Andrew Schulz), além de Juli (Rayna Vallandingham), de Street Fighter Alpha 3, e até mesmo Joe (Alexander Volkanovski), do Street Fighter original de 1987, são alguns dos elementos que funcionam como verdadeiros presentes aos fãs, mas que podem passar despercebidos pelo público menos familiarizado com os jogos.
Mesmo assim, nomes como o rapper 50 Cent, no papel de Balrog, chamam a atenção, mas não recebem tempo suficiente para desenvolver seus personagens, contribuindo para transformar o filme em um grande desfile de participações especiais.
Por fim, não podemos deixar de citar Joe “Roman Reigns” Anoa’i, que dá vida a Akuma. Sua presença na abertura em animê, quando o personagem surge após Ryu ser corrompido, ajuda a estabelecer uma das principais ameaças da história. É uma participação que chama a atenção, mesmo com o espaço limitado que recebe na narrativa.
Muita pancadaria para pouca história

Com muitos personagens e uma cronologia confusa, Street Fighter chega aos cinemas em uma nova adaptação muito mais fiel aos jogos, numa clara declaração de amor aos fãs. Com coreografias que reproduzem golpes icônicos e poderes apresentados sem muitas explicações, o filme tem carisma de sobra, mas também sofre com a falta de uma história mais consistente.
Optando por focar na relação entre Ryu e Ken, a produção toma certas liberdades, mas entrega um resultado superior às adaptações anteriores da franquia nos cinemas. Talvez fique atrás apenas de Street Fighter: Legacy e Street Fighter: Assassin’s Fist, que continuam entre as melhores adaptações da série, embora tenham sido produzidas para a internet e voltadas diretamente ao público gamer.
Quanto à escolha de ambientar a história em 1993, a ideia é divertida, mas o filme não aproveita tanto esse contexto. A época acaba funcionando principalmente como uma oportunidade de incluir músicas e situações características dos anos 1990.
No fim das contas, o filme toma algumas liberdades e aposta, às vezes, em um humor duvidoso, mas entrega uma produção digna para os fãs, o que não necessariamente se traduz em um bom filme. Apoiado no conhecimento prévio do público sobre a franquia, Street Fighter funciona como uma homenagem divertida, mas depende demais dos jogadores para sustentar sua narrativa e justificar sua continuidade nos cinemas.
E, como bom fã da série, espero que a saga continue. Mas também espero que uma eventual sequência aprenda com o que funcionou e, principalmente, com o que não funcionou por aqui.
Ficha técnica

Nota: 4 (de 5)
Direção: Kitao Sakurai
Roteiro: T. J. Fixman e Kitao Sakurai
Elenco: Andrew Koji, Noah Centineo, Callina Liang, Jason Momoa e David Dastmalchian
Gênero: Ação
Duração: 120 minutos
Distribuição: Paramount Pictures


