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RAMUNE leva o Rakugo ao Brasil | Em turnê inédita, artista fala sobre o desafio de ser mulher em um meio tradicionalmente masculino

Com um leque e uma almofada, a artista RAMUNE conseguiu o que poucos imaginavam possível: arrancar risadas e emocionar plateias brasileiras com o Rakugo, uma arte teatral japonesa com mais de 400 anos. A turnê inédita, realizada pela Fundação Japão em São Paulo como parte das comemorações dos 130 anos de amizade entre Brasil e Japão, levou a artista a quatro cidades brasileiras, onde apresentou histórias cômicas e dramáticas e tudo com simplicidade cênica e domínio de múltiplos idiomas.

Única nipo-brasileira atuante profissionalmente no Rakugo no Japão, RAMUNE é sansei, descendente de terceira geração, e fez história ao apresentar em português, japonês e inglês. A artista é um exemplo de como tradição e adaptação podem coexistir e encantar. Em entrevista, ela compartilha como foi pisar pela primeira vez nos palcos brasileiros com sua arte, revela bastidores da turnê e fala sobre os desafios e conquistas de ser mulher nesse universo predominantemente masculino.

A recepção calorosa do público brasileiro, segundo RAMUNE, foi um dos pontos mais marcantes. Ela destaca a emoção de se apresentar em português e a conexão imediata com a plateia. A turnê, que teve apresentações gratuitas, não só apresentou o Rakugo a novos públicos, como também abriu espaço para debates sobre identidade, cultura e gênero dentro das artes tradicionais japonesas.

Além da experiência no Brasil, RAMUNE falou sobre sua trajetória, a relação com a língua portuguesa — que aprendeu ainda na infância e o desafio de conquistar espaço no Japão em uma arte marcada por hierarquias rígidas. “O Rakugo é feito, tradicionalmente, por homens. Mas estou aqui para mostrar que a voz feminina também tem espaço para contar histórias”, afirma.

RAMUNE Fundação Japão

O que mais te marcou dessa experiência com a turnê inédita de Rakugo no Brasil, sendo que é o país com a maior comunidade japonesa fora do Japão?

RAMUNE – Esta foi minha primeira turnê de Rakugo no Brasil, e vivi muitos momentos marcantes que ficarão para sempre na minha memória. O que mais me impressionou foi a energia contagiante dos brasileiros, tão animados e vibrantes, que, mesmo no palco, sentia como se  estivesse recebendo força do público. Foi um prazer imenso apresentar o Rakugo diante de pessoas tão entusiasmadas. As reações foram incríveis: bastava uma interação para que a resposta viesse de forma uníssona e calorosa, como um grande “Oooh!”.

Também me tocou profundamente perceber o quanto o povo brasileiro se interessa pela cultura japonesa — animes, culinária, música, artes tradicionais. Isso me encheu de orgulho por ser uma artista de rakugo formada no Japão. O Brasil abriga a maior comunidade nikkei fora do Japão e pude realmente sentir isso em cada local por onde passei: muitos descendentes de japoneses, muitos rostos asiáticos.

Mas, o que mais me surpreendeu foi perceber como a composição cultural muda de região para região – em lugares mais quentes, mais frios, ou em grandes centros como São Paulo –, cada lugar tem sua identidade, seus sabores, seus traços próprios. Apesar das diferenças, me chamou atenção como o ambiente e o jeito de ser da comunidade nikkei no Japão e no Brasil têm muito em comum.

Qual a importância do Rakugo, como arte verbal tradicional japonesa, para manter vivos os contos antigos do país?

RAMUNE – Quanto à importância de transmitir o Rakugo nos dias de hoje, muita gente o associa apenas ao riso, a histórias engraçadas, mas suas origens estão no budismo. Ouvir o Rakugo pode enriquecer o espírito e trazer leveza ao cotidiano. As histórias tratam de aspectos fundamentais da experiência humana: erros, sentimentos, aprendizados.

Compartilhar isso com humor, de forma acessível, é uma maneira poderosa de tocar o outro. E acredito que preservar e transmitir essas mensagens de forma divertida é algo de imenso valor.

Como você se encantou pelo Rakugo?

RAMUNE – Me encantei pelo Rakugo ao assistir a uma apresentação do meu mestre, Rabuhei. Mesmo sozinho no palco ele criava seu universo próprio com personagens cativantes, sentimentos palpáveis, sabores, sensações de frio ou calor — tudo apenas com palavras. Era como uma mágica.

Me encantei tanto pela sua arte quanto por sua personalidade: ele é alguém que valoriza mais os outros do que a si mesmo. Foi essa combinação — a magia do Rakugo e a empatia do mestre — que me fez desejar seguir esse caminho.

Qual a expectativa para as próximas apresentações por aqui? Planeja voltar ao Brasil para futuras turnês?

RAMUNE – Desejo muito retornar um dia ao Brasil e conhecer também outras cidades. Nesta turnê de duas semanas, realizei quatro apresentações — em Porto Alegre, Salvador, São Paulo e Mogi das Cruzes — além de encontros com o público. Foram dias intensos e preciosos.

Mesmo em apenas quatro cidades, senti nitidamente as diferenças culturais, de personalidade e de ambiente. Isso despertou ainda mais vontade de explorar o Brasil, estudar suas culturas, adaptar o Rakugo a cada lugar e compartilhá-lo de forma viva e personalizada.

Além do Rakugo, também desejo explorar outras formas de atuação com a voz, como dubladora. Talvez até como atriz. Tenho vontade de me desafiar em diferentes direções.

Como foram as quatro apresentações em questão de receptividade do público e contato com os fãs?

RAMUNE – Muitas pessoas já tinham interesse por Rakugo, mas diziam nunca ter conseguido compreender com clareza, já que não havia apresentações em português. Comentários como “finalmente consegui entender” ou “foi muito divertido” foram emocionantes [de ouvir]. Embora existam muitas apresentações em japonês ou inglês, escutar “foi incrível poder ouvir em português” me tocou profundamente.

As reações foram maravilhosas. Subi ao palco para fazer as pessoas sorrirem, mas fui eu quem recebi os sorrisos e a energia. Mesmo quem nunca tinha ouvido falar de Rakugo disse ter adorado, que queria ver de novo, e até perguntou quando eu voltaria ao Brasil. Fui acolhida com tanto carinho que só posso agradecer.

Conte-nos sobre a presença feminina no universo do Rakugo. Quais foram os desafios enfrentados e quais são suas expectativas?

RAMUNE – No início da minha carreira, muitas vezes ouvi comentários de que era estranho para uma mulher apresentar o Rakugo — diziam que ouvir uma voz feminina nesse contexto, causava estranhamento. Por outro lado, também ouvi que, justamente por ser mulher, meu Rakugo proporcionava um toque especial.

Eu interpreto personagens tanto masculinos como femininos, e passei a refletir: Por que só homens deveriam apresentar o Rakugo?

No Japão, os homens ainda dominam a sociedade como um todo — e no mundo do Rakugo não é exceção. É um universo com predominância masculina. Ainda somos poucas, mas o número de mulheres Rakugokas vem crescendo. Por ser mulher, por ser nikkei, enfrentei momentos difíceis.

Mesmo assim, acredito que é muito significativo ver mulheres conquistando esse espaço e levando alegria a tantas pessoas. Quero me tornar uma artista capaz de tocar o coração de cada vez mais gente. Foco muito além disso, quero continuar buscando aquilo que somente eu, na minha essência, posso realizar. 

A presença de RAMUNE no Brasil foi viabilizada pela Fundação Japão, que desde 1975 atua no país com foco na difusão cultural e educacional da cultura japonesa. Em 2025, a instituição reforça sua missão de aproximar tradições milenares do presente, investindo em ações como essa turnê que uniu emoção, humor e pertencimento.

(Entrevista enviada pela própria Fundação Japão)

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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