Quando tudo era mato, Truxton já fazia sucesso nos arcades dos anos 1980, entregando um dos melhores shoot ‘em ups de todos os tempos. Conhecido como o famoso jogo de “navinha” por muita gente da geração dos 30 e 40 anos (meu caso), o título marcou época pela ação frenética e pela dificuldade que exigia reflexos quase sobre-humanos.
Agora, Truxton Extreme traz a franquia de volta sem abrir mão do seu DNA. Ao mesmo tempo em que mantém a essência do clássico, incorpora recursos modernos, como campanha dividida em capítulos, modo história em formato de quadrinhos ao estilo mangá, dificuldade ajustável e até cooperativo.
Com visual que mistura a estética dos anos 1980 com elementos de cyberpunk, o retorno da série conta novamente com Masahiro Yuge, criador do Truxton original. E, como diz o velho ditado, em time que está ganhando não se mexe. Toda a base da jogabilidade permanece intacta com combates rápidos, inúmeros power-ups e uma dificuldade elevada que provoca a mesma mistura de satisfação e frustração de um Mega Man clássico.
A história

Uma das principais novidades de Truxton Extreme é justamente algo que o primeiro jogo praticamente não podia explorar: sua narrativa.
Sem as limitações técnicas da época dos fliperamas, o novo título finalmente apresenta a mitologia da franquia por meio de capítulos em formato de quadrinhos animados, lembrando bastante as animações utilizadas pela Marvel para adaptar algumas de suas HQs.
Ambientado no ano de 2200, o jogo mostra uma humanidade ameaçada pela entidade biomecânica Geranium, capaz de se autorreplicar e devastar planetas inteiros. Para impedir a extinção da espécie, os pilotos Ash, Bergamot e Cyrilla tornam-se a última linha de defesa da Terra.

A narrativa acompanha a campanha entre as fases e ganha personalidade graças às ilustrações de Junya Inoue, conhecido por Btooom!, publicado no Brasil pela Editora JBC. A história não rouba o protagonismo da jogabilidade, mas ajuda a expandir o universo da franquia de maneira interessante.
O que faz Truxton Extreme funcionar

Quando falamos de um shoot ‘em up, a narrativa dificilmente é o principal fator de avaliação. Diferentemente de muitos jogos atuais, o foco aqui continua sendo a experiência arcade, em que cada fase coloca à prova os reflexos, a estratégia e a capacidade do jogador de sobreviver a uma verdadeira chuva de projéteis.
Pensando nisso, Truxton Extreme preserva tudo o que tornou o original memorável. São oito fases recheadas de inimigos, obstáculos e chefes gigantescos que exigem paciência, memorização de padrões e precisão quase coreografada para escapar dos ataques.
Outro acerto está na liberdade oferecida ao jogador. É possível escolher entre o tradicional Modo Arcade ou a campanha dividida em episódios. E convenhamos que os jogos modernos nos acostumaram tanto com checkpoints e salvamentos frequentes que voltar ao estilo clássico pode ser um choque. Por isso, a opção episódica acaba sendo uma excelente alternativa para quem quer aproveitar o desafio sem precisar recomeçar longos trechos a cada erro.
A dificuldade continua elevada, como manda a tradição da série. Dependendo da sua habilidade, uma fase pode durar vários minutos ou terminar em questão de segundos. É justamente essa combinação de desafio, aprendizado constante e sensação de evolução que mantém Truxton Extreme tão divertido quanto há quase quatro décadas.
Jogabilidade

Por mais simples que pareça, Truxton Extreme entrega exatamente o que se espera de um grande shoot ‘em up. O jogador dispara tiros convencionais, utiliza projéteis especiais em formato de caveira e coleta power-ups que alteram tanto a cor da nave quanto o tipo de armamento disponível para enfrentar os inimigos.
A grande sacada é que tudo funciona muito bem no controle. Mesmo quem nunca jogou um título do gênero (ou está enferrujado) encontra um tutorial curto, objetivo e eficiente, que ensina rapidamente as mecânicas desse “novo clássico”.
E aqui é preciso reconhecer um dos grandes méritos do jogo: apesar da dificuldade elevada, a curva de aprendizado é bastante acessível. Aprender os comandos leva poucos minutos. O verdadeiro desafio está em dominar os padrões dos inimigos, desviar da enxurrada de projéteis e escolher a arma certa para cada situação.
A tela rapidamente se transforma em um verdadeiro espetáculo de disparos, exigindo reflexos rápidos e muita precisão. É justamente esse equilíbrio entre simplicidade nos controles e dificuldade na execução que faz cada fase ser tão recompensadora.
Outro ponto interessante é que jogos com essa proposta retrô continuam extremamente democráticos. É possível avançar apenas confiando nos reflexos e atirando sem parar, mas entender o comportamento dos inimigos e criar uma estratégia torna a experiência muito mais satisfatória — e praticamente indispensável nas fases mais avançadas.
E, pode acreditar: se as fases já exigem concentração, os chefes conseguem elevar ainda mais o nível de desafio. Cada confronto exige memorização, posicionamento e paciência, fazendo com que uma jogabilidade precisa seja fundamental para seguir avançando.
Visual moderno, alma arcade
Com quase quatro décadas de história da franquia, Truxton Extreme respira a essência dos fliperamas. Embora utilize gráficos em 3D, toda a jogabilidade preserva a perspectiva 2D que consagrou a franquia.
A modernização aparece principalmente nas cenas de animação, nas sequências em estilo história em quadrinhos e na apresentação geral, mas sem descaracterizar o que tornou o original tão marcante. O resultado é um visual atualizado que respeita completamente suas raízes.
Não espere efeitos cinematográficos ou cenários hiper-realistas. A proposta aqui é outra que é manter a identidade arcade, com cores vibrantes, explosões constantes e uma quantidade impressionante de elementos na tela sem comprometer a leitura da ação.
Trilha sonora
Um clássico dos anos 1980 dificilmente seria completo sem uma trilha sonora marcante — e Truxton Extreme entende muito bem essa responsabilidade.
O jogo combina composições inéditas com novas versões de músicas que ajudaram a tornar a franquia conhecida, criando uma identidade sonora que conversa tanto com os veteranos quanto com quem está conhecendo a série agora.
O resultado é uma trilha extremamente energética, que acompanha perfeitamente o ritmo acelerado das fases e serve como combustível para continuar jogando, mesmo depois de morrer inúmeras vezes. É daquelas que permanecem na cabeça mesmo após desligar o videogame.
Localização

Se nos anos 1980 a localização era um detalhe quase irrelevante, hoje ela faz toda a diferença, especialmente em um jogo que finalmente resolveu investir em narrativa.
Nesse aspecto, Truxton Extreme faz um bom trabalho. Toda a história está localizada em português de forma natural, facilitando o entendimento do universo do jogo e tornando a campanha muito mais envolvente.
O único ponto negativo é que os menus permanecem em inglês. Não chega a comprometer a experiência, principalmente por serem bastante intuitivos, mas causa certa estranheza em um título que traduz todo o restante do conteúdo.
Vale a pena?

Truxton Extreme é um exemplo de como trazer um clássico de volta sem descaracterizá-lo. Em vez de tentar reinventar uma fórmula que já funcionava, a Tatsujin preferiu expandi-la com inteligência, adicionando uma narrativa, novos modos de jogo, cooperativo e opções de acessibilidade, sem comprometer aquilo que sempre definiu a franquia: sua jogabilidade intensa e desafiadora.
Ao longo da campanha, fica claro que o objetivo nunca foi conquistar o público acostumado apenas com experiências cinematográficas. O foco continua sendo oferecer um shoot ‘em up clássico, exigente e extremamente recompensador para quem aceita aprender seus padrões e dominar suas mecânicas.
A expansão da narrativa é outro acerto. Ela não rouba o protagonismo da ação, mas consegue enriquecer o universo da série e dar mais contexto para cada fase, algo que simplesmente não era possível na época do primeiro jogo.
Com uma jogabilidade extremamente divertida, chefes memoráveis, excelente trilha sonora e uma apresentação visual que respeita suas origens, Truxton Extreme prova que alguns clássicos envelhecem muito bem quando modernizados na medida certa.
Jogando no Nintendo Switch 2, a experiência foi bastante positiva. O jogo impressiona tanto na televisão quanto no modo portátil, mantendo a ação fluida e o visual sempre agradável, independentemente da forma escolhida para jogar.
Para quem cresceu nos fliperamas, o título desperta uma forte sensação de nostalgia. Já para quem nunca teve contato com a franquia, ele funciona como uma excelente porta de entrada para um dos gêneros mais importantes da história dos videogames.
No fim das contas, Truxton Extreme mostra que alguns clássicos não precisam ser reinventados para continuarem relevantes. Basta entender o que os tornou especiais. Ao expandir sua narrativa sem abrir mão da essência arcade, a Tatsujin entrega um retorno digno de uma franquia que ajudou a definir o gênero shoot ‘em up.
Ficha técnica

Nota: 5 (de 5)
Jogo: Truxton Extreme
Desenvolvedora: Tatsujin
Publicadora: Clear River Games
Direção: Masahiro Yuge
Gênero: Shoot ‘em up (Shmup)
Plataformas: PC (Steam e GOG), PlayStation 5, Xbox Series X|S e Nintendo Switch 2
Lançamento: 30 de julho de 2026
Agradecimentos a Clear River Games, Tatsujin e a Masamune pela produção deste conteúdo


