O legado do Nintendo 64 vai muito além dos videogames. Em um novo artigo, Mark Fernandez, Chief Scientist de Space Technologies and Solutions e principal investigador do Spaceborne Computer-2 da HPE, explica como conceitos utilizados no clássico console ajudaram a consolidar princípios de engenharia que hoje sustentam supercomputadores, inteligência artificial e sistemas de computação de alto desempenho.
Segundo o especialista, embora as GPUs sejam frequentemente associadas ao avanço dos games e, mais recentemente, da IA, muitos dos fundamentos que permitiram essa evolução já eram empregados décadas antes em áreas como simulação de voo, visualização científica e computação de alto desempenho.
A arquitetura do Nintendo 64 como referência
Fernandez destaca que um dos diferenciais do Nintendo 64 estava na forma como seu hardware dividia tarefas entre a CPU e um processador gráfico desenvolvido com tecnologia da antiga Silicon Graphics Inc. (SGI), empresa cuja engenharia posteriormente passou a integrar a HPE.
Enquanto a CPU era responsável pela lógica dos jogos, o hardware gráfico cuidava da renderização das imagens. O verdadeiro diferencial, no entanto, estava na arquitetura de memória compartilhada, que permitia a troca rápida de dados entre os componentes.
Segundo o executivo, essa organização demonstrou que o desempenho de um sistema depende não apenas da velocidade de processamento, mas também da eficiência na movimentação de dados entre seus diferentes elementos.
Paralelismo abriu caminho para a IA
O artigo também explica como os gráficos tridimensionais impulsionaram o uso do processamento paralelo.
Renderizar milhões de pixels em tempo real exigia que diversas operações fossem executadas simultaneamente, um conceito que mais tarde passou a ser utilizado em áreas muito além dos games.
Esse modelo evoluiu para o chamado GPGPU (General-Purpose GPU Computing), tecnologia que hoje é fundamental para o treinamento de modelos de inteligência artificial, capazes de executar milhões de operações matemáticas simultaneamente sobre grandes volumes de dados.
O sistema é mais importante que o chip
Um dos principais pontos defendidos por Fernandez é que processadores rápidos, sozinhos, não garantem alto desempenho.
O especialista resgata uma frase de Seymour Cray, considerado um dos pais da supercomputação:
“Qualquer um consegue construir uma CPU rápida. O truque é construir um sistema rápido.”
Segundo o executivo, essa filosofia continua válida na era da IA e da computação exascale, em que CPUs, GPUs, memória, armazenamento e software precisam funcionar de forma integrada para evitar gargalos.
Da sala de estar ao supercomputador Frontier
Como exemplo dessa evolução, Fernandez cita o Frontier, primeiro supercomputador exascale do mundo, desenvolvido sobre a arquitetura HPE Cray EX.
Seu desempenho, capaz de executar mais de um quintilhão de operações por segundo, não depende apenas da potência das GPUs, mas da integração entre processadores, memória, interconexão de alta velocidade, armazenamento e software, formando um único sistema.
Segundo o artigo, esse mesmo conceito também está presente em iniciativas como o HPE Spaceborne Computer, projeto voltado para computação de alto desempenho no espaço.
Engenharia continua sendo o diferencial
Para Fernandez, a principal conexão entre um console como o Nintendo 64 e os atuais supercomputadores não está na tecnologia em si, mas na filosofia de engenharia.
Ao longo das últimas décadas, a evolução da computação passou por diferentes gerações de hardware, mas manteve o mesmo objetivo: construir sistemas em que processamento, memória e movimentação de dados trabalhem de forma coordenada para maximizar o desempenho.
Na avaliação do especialista, o futuro da computação não será definido apenas por chips mais rápidos, mas pela capacidade de integrar diferentes componentes em sistemas cada vez mais eficientes e coesos.


