InícioCríticasCrítica | Fora da “casinha” e longe do rótulo de escoteira, Supergirl...

Crítica | Fora da “casinha” e longe do rótulo de escoteira, Supergirl aposta na rebeldia

Com Milly Alcock, novo filme da DC deixa de lado a imagem tradicional da heroína e mostra uma personagem perdida

O novo universo da DC começa a ganhar forma nos cinemas e Supergirl chega não apenas como mais uma história ligada ao Superman, mas também apostando em um tom bem diferente do tradicional. Interpretada por Milly Alcock, a nova Supergirl está longe da imagem de heroína certinha e quase “escoteira” que marcou algumas de suas versões anteriores.

Dirigido por Craig Gillespie e com roteiro de Ana Nogueira, o filme tem inspiração em Supergirl: Mulher do Amanhã, mas ganha uma identidade própria, principalmente pela forma como apresenta Kara Zor-El e pelo ritmo embalado por uma trilha sonora que lembra bastante o estilo dos filmes de James Gunn.

A nova abordagem também aposta em uma aventura espacial que remete às famosas cenas de bar de Star Wars, algo que já foi reverberado em outras produções, como o tokusatsu Jaspion. Esse clima de aventura espacial, herdado de obras como Flash Gordon, é fundamental para afastar Kara da Terra e colocá-la em contato com um universo bem mais amplo de personagens.

E é justamente aí que o filme mostra sua proposta. Com a trilha sonora alta, Krypto fazendo xixi em um jornal com Superman na capa e Kara de ressaca na cama, fica claro que estamos diante de uma personagem bem diferente do que normalmente se espera da Supergirl.

A história

Comemorando 23 anos, Kara está viajando pelo espaço em uma rotina que já se tornou quase corriqueira. Por não conseguir se adaptar ao planeta Terra, ela prefere viajar e beber até cair, enquanto seu primo, Superman, tenta a todo custo trazê-la de volta.

É durante uma dessas ressacas, no planeta Holzherr, que Kara encontra uma garota chamada Ruthye Marye Knoll, interpretada por Eve Ridley.

Kara escolheu justamente aquele planeta porque ele está em um sistema solar com um sol vermelho, o que faz com que ela fique sem poderes e consiga beber com mais facilidade.

Enquanto isso, Ruthye vê sua família ser assassinada por Krem das Colinas Amarelas, vivido por Matthias Schoenaerts. Atrás das armas feitas pelo pai de Ruthye, Krem acaba deixando a garota órfã. Jurando vingança, ela passa a carregar a última espada feita pelo pai, o que chama a atenção de Kara.

O problema é que Krem consegue roubar a nave da Supergirl e ainda envenena Krypto. Descobrindo que tem poucas horas para conseguir o antídoto, Kara parte atrás de Krem, levando Ruthye junto.

Com um roteiro mais contido e conciso, trazendo menos participações e conflitos paralelos, Supergirl segue atrás dos bandidos e acaba esbarrando com Lobo, interpretado por Jason Momoa.

O que começa com uma relação cheia de medo e receios por parte de Kara acaba virando um respeito mútuo, principalmente quando os dois percebem que possuem um objetivo em comum: derrotar Krem, especialmente depois que ele consegue roubar a moto de Lobo.

Mas será que Supergirl conseguirá salvar Krypto? E Ruthye terá sua vingança? E como Lobo entra nessa história?

Quando o filme olha para Kara

Não dá para negar que o filme se esforça para entregar uma versão bem diferente da personagem e consegue fazer isso muito bem. Milly Alcock entende essa Supergirl, entregando uma Kara impulsiva, perdida e muito distante da imagem tradicional da heroína.

O problema é que, enquanto Superman consegue trabalhar com vários conflitos ao mesmo tempo, Supergirl aposta em uma história muito mais simples: salvar Krypto e ajudar Ruthye em sua vingança.

Ser mais contido não seria necessariamente um problema. O problema é que o roteiro não consegue fazer essa história mais simples ter força suficiente para sustentar o filme.

E é justamente quando Kara decide contar sua própria origem que o filme realmente brilha.

Abrindo espaço para um flashback, a produção amplia a história apresentada em Superman, mostrando o que aconteceu com Krypton depois da partida de Clark para a Terra. É nesse momento que conhecemos Argo, uma cidade que sobreviveu pelo espaço, enquanto Kara nasceu anos depois e já quase adulta.

Interpretado por David Krumholtz, Zor-El ajuda a ampliar essa parte da história, enquanto Emily Beecham interpreta Alura.

O solo de Argo está envenenado pela presença de kriptonita, fazendo com que a própria sobrevivência naquele lugar se torne um problema. A chegada de Kara à Terra também acontece já quase adulta, o que muda completamente sua relação com Clark.

Enquanto Superman cresceu na Terra e teve tempo para construir sua identidade naquele planeta, Kara chega depois de adulta e ainda precisa aprender até mesmo o idioma. E é justamente essa diferença entre os dois que enriquece a experiência.

Aqui, o filme consegue fazer algo que sua aventura principal nem sempre alcança: mostrar quem é Kara e por que ela se tornou essa pessoa perdida.

O problema está no vilão

Voltando ao plot principal, Krem das Colinas Amarelas sofre de um problema sério: falta carisma.

O personagem funciona como o responsável por colocar a história em movimento, mas pouco consegue fazer além disso. Krem acaba se tornando quase um monstro da semana, sem força suficiente para transformar a vingança de Ruthye em algo realmente marcante.

A própria busca pelo antídoto de Krypto escancara esse problema. A missão é simples e funciona como motor da história, mas o antagonista não consegue carregar o peso necessário para fazer com que essa jornada seja realmente memorável.

Enquanto isso, Ruthye acaba assumindo uma função muito mais importante.

Com a ausência de Krypto durante boa parte da aventura, é ela quem passa a ocupar o espaço de dupla de Kara. E funciona.

Ruthye é forte, determinada e ainda bastante imatura. Existe uma ingenuidade na personagem que combina bem com a Kara apresentada aqui, e a relação entre as duas acaba sustentando boa parte do filme.

É uma relação interessante justamente porque as duas estão perdidas de maneiras diferentes. Kara tenta fugir de seus próprios problemas, enquanto Ruthye está completamente concentrada na vingança pela morte da família.

Lobo funciona, mas

Quanto ao Lobo, Jason Momoa claramente se diverte com o personagem.

O ator capricha na interpretação e o personagem funciona muito bem em cena, principalmente nas sequências de ação. Lobo consegue roubar alguns momentos do filme sem necessariamente tirar o protagonismo de Kara.

Ao mesmo tempo, sua participação deixa bastante claro que estamos diante de uma introdução.

Ele funciona bem, mas continua sendo uma participação especial dentro da história de Supergirl. E isso abre espaço para que o personagem seja explorado de maneira muito maior no futuro.

Veredito

No fim, Supergirl consegue entregar exatamente o que promete em relação à sua protagonista: uma Kara Zor-El diferente, rebelde e muito distante daquela imagem de heroína certinha.

Milly Alcock é um dos grandes acertos do filme e consegue encontrar personalidade própria para a personagem. Ruthye também funciona muito bem como contraponto, enquanto Lobo mostra potencial para voltar em uma participação ainda maior.

O problema é que o roteiro não acompanha todo esse potencial.

A história principal é linear demais e fica presa a uma missão simples, enquanto os melhores momentos estão justamente naqueles em que o filme para de correr atrás de Krem e decide olhar para Kara.

É na origem da personagem, na relação com Clark e na dificuldade de se encaixar na Terra que Supergirl encontra sua melhor história.

Com desvio de rota em relação ao que se espera da personagem e um lançamento fraco nos cinemas, Supergirl não chega a fazer feio. Porém, está longe de entregar um filme tão sólido quanto seu primo.

É uma boa apresentação de Milly Alcock como Supergirl, mas ainda não é uma boa história para essa nova versão da heroína.

Ficha técnica

Nota: 3 (de 5)

Supergirl
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Ana Nogueira
Elenco: Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham, David Corenswet e Jason Momoa
Fotografia: Rob Hardy
Montagem: Tatiana S. Riegel e Fred Raskin
Música: Cláudia Sarne
Produção: DC Studios, Troll Court Entertainment e Safran Company
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Duração: 108 minutos
País: Estados Unidos
Idioma: Inglês
Estreia: 26 de junho de 2026 (EUA)

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

Leia também

O novo universo da DC começa a ganhar forma nos cinemas e Supergirl chega não apenas como mais uma história ligada ao Superman, mas também apostando em um tom bem diferente do tradicional. Interpretada por Milly Alcock, a nova Supergirl está longe da imagem...Crítica | Fora da “casinha” e longe do rótulo de escoteira, Supergirl aposta na rebeldia