Steven Spielberg não precisa de apresentações. O diretor já nos fez acreditar nos dinossauros e, quando o assunto são alienígenas, E.T., Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Guerra dos Mundos são exemplos de como o diretor já trabalhou a ideia de que não estamos sozinhos no universo.
Mas como seria o dia da Revelação? E é justamente nessa abordagem que Dia D se constrói, com uma trama de tirar o fôlego que pouco lembra o estilo narrativo de Steven Spielberg, porém com personagens que deixam claro que estamos diante de uma obra dirigida por ele.
E aqui temos uma história de mais de duas horas, cheia de reviravoltas, com a sensação de que estamos vendo pelas beiradas uma trama muito maior.
Mas você estaria preparado para o Dia D?
A História

Conhecemos Daniel Kellner, vivido por Josh O’Connor, um especialista em segurança cibernética que rouba informações de uma empresa ligada ao governo americano. Fugindo o máximo que pode, ele acaba tendo que proteger Jane Blankenship, vivida por Eve Hewson, sua namorada, que também passa a ser perseguida pela estranha empresa.
É aqui que também conhecemos a história de Margaret Fairchild, interpretada por Emily Blunt, uma meteorologista de televisão cuja vida muda depois de um acontecimento aparentemente banal. Enquanto tenta deixar de ser a “garota do tempo” e assumir a bancada do jornal, Margaret começa a apresentar habilidades que não consegue explicar, falando idiomas que nunca aprendeu e, posteriormente, viralizando ao falar uma estranha língua durante uma transmissão ao vivo.
Enquanto isso, conhecemos Noah Scanlon, chefe da Wardex Corporation, interpretado por Colin Firth, que corre contra o tempo para impedir o maior vazamento da história dos Estados Unidos. Chamando a atenção de seus superiores, Noah tenta a todo custo impedir que diversas filmagens comprometedoras, registradas ao longo da história e envolvendo contatos entre humanos e seres de outros planetas, vazem nas mãos erradas.
Ele representa o segredo institucional e a tentativa de controlar uma informação capaz de mudar a humanidade.
E é aqui que conhecemos quem está ajudando Daniel em sua fuga: Hugo Wakefield, um desertor da Wardex, vivido por Colman Domingo. Com um esquema preparado para o grande dia, ele precisa de Daniel, mas sabe que outra pessoa também irá aparecer: Margaret.
Em uma disputa entre Hugo e Noah para descobrir quem encontrará Daniel e Margaret primeiro, somos levados a uma fuga sem precedentes. Mas quem será que vai conseguir chegar até eles? E o que Noah quer tanto esconder das pessoas?
Veredito

Com roteiro de David Koepp, que já trabalhou com Steven Spielberg em Jurassic Park, Dia D entrega uma trama que cresce e mantém o público sentado, sem tirar os olhos da tela. O filme traz uma bagagem do roteirista em suspense, mas entrega personagens bem definidos e uma condução bastante característica de Spielberg.
E se a história parece começar pelas beiradas, aos poucos se revela que Margaret e Daniel são os verdadeiros protagonistas da trama. Os dois possuem uma ligação muito maior com os acontecimentos do que imaginamos inicialmente, e essa conexão se torna fundamental para entendermos como será o Dia D.
Se em filmes como Sinais a presença dos alienígenas pode acabar se tornando um dos pontos mais frágeis da história, aqui, em Dia D, o visual clássico deles não mudou tanto. A diferença está na forma como o filme utiliza a ideia de eles aparecerem para os humanos na forma de animais. É uma sacada inteligente do roteiro, porque cria a sensação de que a verdade sempre esteve lá fora e nós apenas não sabíamos reconhecê-la.
A trama mostra o quanto a sociedade já sabe dessa verdade e, ao mesmo tempo, o quanto algumas instituições estão dispostas a fazer para escondê-la. Humanos interrogam e torturam essas outras raças, realizam experiências e fazem engenharia reversa para aprender a utilizar a tecnologia extraterrestre.
Dia D nos faz questionar como a população lidaria com a verdade nua e crua sendo revelada e se estamos realmente preparados, como sociedade, para lidar com isso.
Aqui, Jane, namorada de Daniel e que já foi uma noviça alguns anos atrás, também traz uma discussão interessante sobre como a religião católica lidaria com uma descoberta dessa proporção. Afinal, se a humanidade realmente descobrisse que outras formas de vida existem, diversas crenças e certezas que construímos ao longo de séculos precisariam ser revistas.
Spielberg consegue trazer o cotidiano para dentro do fantástico justamente por saber como fazer essa narrativa e, principalmente, como contar uma história sem precisar mostrar tudo.
E é no último ato que essa discussão chega ao seu ponto máximo com a grande revelação que acontece durante uma transmissão para o mundo todo. Margaret retorna para a emissora onde trabalhava e, ao lado daqueles que decidiram revelar a verdade, transforma o local que antes servia para transmitir previsões do tempo no palco da maior revelação da história da humanidade.
A informação passa a ser transmitida para o mundo inteiro e uma guerra iminente com a Coreia do Norte acaba sendo interrompida diante do choque das pessoas ao descobrirem a verdade.
Em uma época em que a IA já é uma realidade, a maneira como a informação se espalha também ganha outro peso. As emissoras de todo o mundo passam a transmitir aquilo que está acontecendo, mas a consequência verdadeira está fora das telas. O filme acaba trazendo uma discussão que podemos levar para casa e que não termina simplesmente quando os letreiros sobem.
E podemos dizer que, por mais que Spielberg entregue um filme bem diferente do que se espera dele, parte da magia do diretor funciona não só por ser uma história assinada por David Koepp, mas também pela trilha sonora, resultado de mais uma parceria de longa data com John Williams.
Dia D não é E.T. e nem Contatos Imediatos do Terceiro Grau, mas se concentra em mostrar uma visão atual de como seria esse contato hoje em dia.
Com bons personagens, uma boa narrativa e, principalmente, um bom condutor como Steven Spielberg, o filme consegue nos fazer acreditar em sua história.
Não é uma produção para agradar a todos com uma história fantástica, mas um filme que nos faz acreditar naquilo que está vendo na tela e, principalmente, levar essa discussão para as nossas casas.
Ficha técnica

Nota: 4,5 (de 5)
Título: Dia D
Duração: 145 minutos
Gênero: Ficção científica
Direção: Steven Spielberg
Produção: Kristie Macosko Krieger e Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
História: Steven Spielberg
Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson e Colman Domingo
Música: John Williams
Cinematografia: Janusz Kamiński
Edição: Sarah Broshar
Companhia produtora: Amblin Entertainment
Distribuição: Universal Pictures
Lançamento no Brasil: 11 de junho de 2026

