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Lana, como eu odeio esses caras! | Romance resgata 2008 entre Orkut, Britney e suspense sobrenatural

Livro de estreia de Arthur Simon mistura nostalgia dos anos 2000, romance LGBTQIAPN+ e uma trama envolvendo extremismo em uma pequena cidade de Santa Catarina

Se você ainda lembra do Orkut, do MSN e das comunidades que definiam boa parte da internet brasileira, Lana, como eu odeio esses caras! começa em um território bastante familiar. O romance de estreia de Arthur Simon volta para 2008 para acompanhar uma adolescente que deixa Florianópolis e precisa começar praticamente do zero em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina.

Só que a história não fica apenas na nostalgia.

Em Hortênsias, cidade fictícia de colonização alemã, Jéssica conhece Lana, uma vizinha de cabelo platinado, tatuagem de arco-íris e uma habilidade que definitivamente não faz parte da rotina de uma adolescente comum: ela consegue mover objetos com a mente.

A partir desse encontro, Simon transforma uma história de descoberta adolescente em uma mistura de romance, coming-of-age, suspense sobrenatural e thriller político.

Britney Spears, MSN e uma cidade que esconde seus próprios fantasmas

A escolha de 2008 não está ali apenas para criar uma estética retrô.

Jéssica vive em um período em que redes sociais e aplicativos de mensagem começavam a transformar as relações pessoais. Enquanto conversa pelo MSN com a amiga que ficou em Florianópolis, ela acompanha Britney Spears e escuta Blackout. O Orkut e suas comunidades também fazem parte desse cotidiano.

É um cenário reconhecível para quem viveu aquela época, mas que funciona de maneira diferente para a protagonista. Jéssica está justamente tentando descobrir quem é enquanto deixa para trás tudo aquilo que conhecia.

E é nesse processo que Lana entra em sua vida.

A amizade entre as duas gradualmente se transforma em romance, enquanto Jéssica começa a compreender a própria bissexualidade. A descoberta vem acompanhada pelo medo da rejeição, pelo peso de permanecer no armário e pela dificuldade de viver em uma comunidade que trata qualquer diferença com desconfiança.

O romance, portanto, não usa o passado apenas como decoração. A atmosfera de 2008 serve para colocar a protagonista em um momento específico da adolescência e, ao mesmo tempo, discutir questões que continuam bastante atuais.

O problema é que Hortênsias tem um passado bem mais sombrio

Se a relação entre Jéssica e Lana conduz o lado emocional da história, os acontecimentos de Hortênsias levam o livro para outro caminho.

A descoberta de diários de 1942 revela que o avô de Lana viveu um amor proibido durante o Estado Novo. A partir desses registros, a história começa a conectar o passado da cidade com o presente das personagens.

E o suspense deixa de ser apenas sobrenatural.

O romance trabalha com a permanência de ideias ligadas ao nazismo e ao integralismo, apresentando uma organização secreta que continua atuando na cidade. A investigação faz com que Jéssica e Lana percebam que determinadas ideias que pareciam pertencer aos livros de História continuam encontrando espaço no presente.

É aí que Lana, como eu odeio esses caras! encontra seu diferencial. A história de duas adolescentes tentando entender seus sentimentos acontece ao mesmo tempo em que elas descobrem uma ameaça muito maior.

O romance e o suspense não funcionam como duas histórias separadas.

Uma história contada por posts, diários e mensagens

Simon também decidiu brincar com a maneira como essa história é apresentada.

Além da narrativa tradicional, o livro incorpora bilhetes, posts de fóruns da internet, artigos de jornal e um diário, criando diferentes perspectivas para reconstruir os acontecimentos de Hortênsias.

A estrutura funciona como uma espécie de investigação dentro do próprio romance. O leitor acompanha o presente enquanto encontra pistas de acontecimentos que começaram décadas antes.

Essa escolha combina particularmente bem com a ambientação. A internet de 2008 aparece como parte da narrativa, enquanto os documentos antigos revelam um passado que insiste em voltar.

O resultado é uma história que transita entre a memória afetiva dos anos 2000 e um conflito muito menos confortável.

Entre nostalgia e pertencimento

No fim, Lana, como eu odeio esses caras! parece interessado justamente nesse choque.

De um lado estão Britney Spears, MSN, Orkut e a cultura pop de 2008. Do outro, uma cidade marcada pelo conservadorismo, uma história familiar escondida e personagens que precisam decidir se vão simplesmente deixar aquele lugar para trás ou enfrentar o que existe por baixo dele.

Para Arthur Simon, a ideia do romance começou com uma imagem: duas meninas em uma floresta. A partir dela surgiu uma história que mistura referências da cultura pop, literatura e questões relacionadas à identidade e ao pertencimento. O autor também aponta influências como Carol Bensimon, além de obras como O Morro dos Ventos Uivantes, O Apanhador no Campo de Centeio e Os Sete Maridos de Evelyn Hugo.

Publicado pela Casa de Astérion, o livro tem 326 páginas e marca a estreia de Simon na literatura. Mais do que simplesmente voltar aos anos 2000, Lana, como eu odeio esses caras! usa aquele período como ponto de partida para falar sobre primeiro amor, sexualidade, memória e a permanência de ideias que deveriam ter ficado no passado.

E talvez seja justamente essa combinação que torne a proposta curiosa: uma história que começa com a nostalgia de uma época em que o MSN fazia parte da rotina, mas rapidamente lembra que nem tudo que ficou para trás realmente desapareceu.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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