Crítica | A Caixa do Demônio apresenta um vilão além do óbvio

Dirigido por Daniel Stamm, de O Último Exorcismo, filme se destaca pelo elenco e pela relação entre seus protagonistas

Outubro costuma trazer uma expectativa maior por bons filmes de terror, e A Caixa do Demônio chega aos cinemas conquistando seu espaço entre os lançamentos do mês. Dirigido por Daniel Stamm, de O Último Exorcismo, o longa adapta The Lockbox, história de Soren Narnia apresentada no podcast Knifepoint Horror, com roteiro de Justin Yoffe.

Com Carla Gugino, Lou Taylor Pucci e Katharine Isabelle, o filme apresenta uma história pequena, com poucos personagens, mas que nos convence de que existe algo muito errado naquela convivência. É essa sensação que nos faz acompanhar cada um deles, tentando entender o que escondem e até onde podemos confiar em suas atitudes.

Dividido em duas partes bem definidas, A Caixa do Demônio não entrega uma resposta tão óbvia ao seu título e tampouco revela de imediato quem representa a verdadeira ameaça. Antes de conhecer toda a história, somos levados a observar os personagens e julgar seus atos.

A história

Carla Gugino interpreta Ellen, uma mulher que cuidou da mãe com Alzheimer até sua morte, na esperança de encontrar alguma fagulha das lembranças que a doença foi apagando. Tentando seguir em frente, ela recebe a ligação de uma parente pedindo que acolha seu primo Winthrop, vivido por Lou Taylor Pucci, que precisa de um lugar próximo ao novo trabalho.

Alertada de que ele sofre de estresse pós-traumático após servir na guerra do Afeganistão, Ellen aceita recebê-lo. Para ela, aquela convivência também pode ser uma oportunidade de ajudar o primo a voltar a se socializar.

Os primeiros dias são quietos. Winthrop passa boa parte do tempo no quarto, ajuda com os afazeres do jardim e conversa apenas o necessário. Seu comportamento mantém uma distância entre os dois, enquanto fica a impressão de que existe algo que ele prefere não revelar.

Quem traz o verdadeiro “molho” da trama é Vahna, a vizinha interpretada por Katharine Isabelle. Ao se aproximar de Ellen, ela demonstra um interesse imediato por Winthrop e começa a encontrar motivos para frequentar a casa. Entre conversas e ofertas para cozinhar, sua presença se torna cada vez mais constante.

Essa convivência muda quando Vahna é encontrada morta. Ao buscar seu antigo aquecedor, Ellen se depara com a cena do crime e acaba envolvida em um mistério cujas respostas estão longe de ser simples.

Muito além do crime

O que move A Caixa do Demônio é entender como suas peças se encaixam. A morte de Vahna desencadeia uma nova fase, em que as suspeitas recaem sobre Winthrop e Ellen precisa decidir em quem acreditar.

Com a polícia disposta a responsabilizar o primo e encerrar o caso, ela começa a investigar o que aconteceu naquela noite. Porém, defender Winthrop não significa ignorar sua personalidade agressiva e as mudanças que passam a marcar seu comportamento.

Entre a passagem por abrigos e as alterações na maneira de se vestir e falar, ele parece se afastar ainda mais do homem que Ellen recebeu em casa. Quanto mais ela tenta ajudá-lo, mais percebe que conhece apenas uma parte de sua história.

É nessa relação que o filme encontra seu melhor caminho. Depois de perder a mãe para o Alzheimer, Ellen volta a lutar por alguém que parece escapar de seu alcance. Sua insistência também carrega uma culpa antiga: ela sabia de parte do sofrimento vivido pelo primo, mas não fez nada para impedir aquilo.

Agora adultos, acolhê-lo representa uma oportunidade de agir. Essa motivação dá peso às escolhas de Ellen e nos ajuda a entender por que ela continua ao lado de Winthrop, mesmo quando os motivos para desconfiar se acumulam.

O elenco sustenta a história

Carla Gugino entrega uma protagonista cheia de garra, que não tem medo de ir atrás da verdade. Sua Ellen convence tanto pela fragilidade de quem acabou de enfrentar uma perda quanto pela disposição de proteger o primo. A atriz faz com que essa insistência tenha força, sem apagar as dúvidas que cercam suas decisões.

Lou Taylor Pucci, por sua vez, constrói um Winthrop quieto e marcado por uma vida de violência. Depois de presenciar a morte dos pais, conviver com um tio sádico e sofrer abusos durante sua passagem pelo exército, o personagem ainda não encontrou um lugar seguro. Sua atuação nos permite sentir essa dor, mesmo quando suas atitudes provocam desconforto.

Já Katharine Isabelle rouba a atenção como Vahna. Sua personagem lembra alguns dos papéis de Helena Bonham Carter, com um comportamento excêntrico e a impressão constante de que está faltando um parafuso. As falas enigmáticas e o interesse por Winthrop deixam pistas sem tornar suas intenções tão fáceis de entender.

Porém, nem tudo são flores. O roteiro começa bem, mas perde força com a chegada de novos personagens e ao explicar questões que funcionavam melhor como dúvida. Conforme o terror de possessão ganha espaço, parte da tensão construída pela convivência e pela desconfiança acaba diminuindo.

A mudança faz parte do que a história vinha preparando, mas a passagem entre suas duas partes nem sempre mantém o mesmo impacto. A investigação de um assassinato abre caminho para uma ameaça que demora a ganhar forma, e suas respostas podem não envolver tanto quanto o mistério que as antecede.

Ainda assim, A Caixa do Demônio encontra no elenco e na relação entre Ellen e Winthrop motivos para manter nosso interesse. As reviravoltas têm resultados desiguais, mas os personagens fazem com que torçamos pela protagonista, mesmo quando não temos certeza de que ela está tomando a decisão certa.

A Caixa do Demônio chega aos cinemas em 22 de outubro, com uma história que surpreende mais pela tentativa de Ellen de salvar o primo do que pelas explicações de seu mistério, deixando uma discussão sobre até onde podemos ir para ajudar alguém.

Ficha Técnica

Nota: 4 (de 5)

A Caixa do Demônio
Título original: Lockbox
Direção: Daniel Stamm
Roteiro: Justin Yoffe
Baseado em: The Lockbox, de Soren Narnia, do podcast Knifepoint Horror
Elenco: Carla Gugino, Lou Taylor Pucci, Katharine Isabelle e Aedan Edwards
Gênero: Terror
Duração: 105 minutos
País: Estados Unidos
Distribuição: Diamond Films
Estreia nos cinemas: 22 de outubro de 2026

Agradecimentos à a Diamond Films pela produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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