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Crítica | A Odisseia de Enéias

Quando se fala em cinema italiano atual, fala-se de Pietro Castellitto — não à toa, o destaque dado à chegada de A Odisseia de Enéias aos cinemas brasileiros. Produzido em 2023 e aplaudido de pé por oito minutos, o longa é escrito, dirigido e protagonizado por Pietro Castellitto. Mostra a decadência dos jovens em uma sociedade regada a drogas e dinheiro, em que ecoam ruínas a longo prazo.

A história, que está chegando aos cinemas pela Pandora Filmes, apresenta um jovem bonito, rico e entediado chamado Enéias. Ao seu lado, temos o melhor amigo, Valentino (Giorgio Quarzo Guarascio), um piloto de avião recém-formado, constantemente no ar (em diferentes sentidos). Enéias e Valentino são amigos desde sempre, convivendo em um mundo cheio de riquezas, mas que vai além disso, atravessando o universo das drogas, num ambiente corrompido.

E vale uma curiosidade aqui: Pietro Castellitto trouxe sua família também para as telonas. Seu pai, Sergio Castellitto, interpreta Celeste, pai de Enéias, enquanto seu irmão mais novo, Brenno Castellitto, também está presente no papel de Cesare, irmão do protagonista.

E é aqui que, por mais que estejamos diante de jovens em decadência, A Odisseia de Enéias ainda é um filme italiano que não só bate na tecla da família, como evoca essas relações em seu tempo de tela.

O resultado em cena faz com que Pietro Castellitto brinque ao dizer que é “um filme de gângsteres sem gângsteres”. Mostra que o vazio da juventude leva os jovens a encontrar soluções que nem sempre são as melhores.

E se a vida passa diante dos seus olhos, Enéias demonstra uma preocupação genuína com seu irmão mais novo, Cesare. Vive cobrando que ele vá à escola, que se alimente direito — num papel de irmão mais velho, mas também quase um pai, desejando que seu irmão tenha uma vida mais justa do que a sua.

Além da história

Explicar A Odisseia de Enéias não é tarefa fácil. Enéias é dono do restaurante japonês “Sushi Sam” e passa seus dias entre uma vida ociosa, consumida por festas luxuosas e tráfico de cocaína.

Valentino é cúmplice de Enéias, compartilhando essa vida cheia de luxos e testando os limites da própria moralidade.

Por mais que esse não seja o foco principal do filme, o grande estopim para os acontecimentos está justamente na vida que Enéias e Valentino levam. Envolvidos com o tráfico, vendem 20 kg de cocaína para Giordano, chefe da região. A morte de Giordano reacende uma briga entre facções que desmorona a vida dos dois jovens — agora caçados.

Mas a relação entre Enéias e Valentino, muitas vezes, se confunde. O que poderia ser apenas uma amizade, ao menos sob a ótica de Valentino, se transforma em um amor platônico — revelado em cenas abstratas nas quais os dois dialogam e se beijam (fora das câmeras).

Durante a fuga, Valentino se despede de seu amor por Enéias, busca sua mãe e sobrevoa a torre de um prédio, chocando o avião contra ele. Redenção, morte, perdão por amar um amigo — Valentino apenas se despede da vida, ao lado da mãe em cena.

Enquanto isso, Enéias conhece Eva (Benedetta Porcaroli) e se apaixona perdidamente, o que leva ao casamento. Em uma típica festa de família italiana, o evento é cercado por facções que estão atrás do dinheiro de Giordano.

Opinião

Devo confessar aqui que A Odisseia de Enéias, por mais que tenha um grande elenco, se destaca muito mais no visual do que na história. Ao dar enfoque a outras narrativas, o filme acaba confuso e difícil de entender. Em contrapartida, as cenas que recebem maior atenção revelam uma capacidade técnica imensa de traduzir um mundo abstrato para a tela.

Os personagens são carismáticos, e você compra parte de sua história exatamente pelo carisma. No entanto, é difícil compreender a jornada deles em cena. É fácil entender a vingança e a caçada em torno dos dois jovens, mas, ao mesmo tempo, você se pergunta por que o filme opta por focar em outros momentos que julga mais importantes do que contar sua trama central.

Se aqui resumi o que parece ser A Odisseia de Enéias, vale dizer que há diversas tramas: da mãe de Valentino, dos pais de Enéias, do estilo de vida de Cesare ao ignorar a escola — camadas que enriquecem os personagens, mas ocupam um tempo precioso de desenvolvimento da história principal, ausente no fim das contas.

Há ainda outras histórias contadas pelos personagens e depois confirmadas visualmente, como o chefe de cozinha do “Sushi Sam”, que transa com salmões do restaurante. Só quando o local é invadido por bandidos, ele é flagrado nu, com a boca dentro do peixe. Não era algo importante, mas foi mencionado tantas vezes que ganha destaque em cena.

Falando ainda em cenas, a sequência em que Valentino busca a mãe doente e se suicida se destaca na narrativa. Não apenas impacta, como também chama atenção para seu amor não correspondido.

O que posso dizer, por fim, é que A Odisseia de Enéias é, tecnicamente, um bom filme, mas falha em nos cativar com sua história. Tem bons diálogos e reflexões interessantes, mas, lá no fundo… parece que faltou algo ali.

Nota: 3 (de 5)

A Odisseia de Enéias

Título original: Enea
Ano: 2023
País: Itália
Direção e Roteiro: Pietro Castellitto
Elenco: Pietro Castellitto, Giorgio Quarzo Guarascio, Benedetta Porcaroli, Sergio Castellitto, Brenno Castellitto
Duração: 117 min
Gênero: Drama
Distribuição no Brasil: Pandora Filmes
Estreia no Brasil: 19 de junho de 2025

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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