Na Teia da Aranha traz metalinguagem do cinema sul-coreano em plena censura
O Brasil e a Coreia do Sul são dois países que viveram períodos muito parecidos no passado, em que ditaduras redefiniram as rotas de cada país. E enquanto o Brasil tem se destacado com filmes como Ainda Estou Aqui e o ainda a ser lançado O Agente Secreto, a Coreia do Sul tem entregado filmes como 12.12: O Dia e agora Na Teia da Aranha, que, mesmo cômico, desmistifica um período de censura em que o cinema sul-coreano só podia filmar com a devida autorização do governo.
Dirigido por Kim Jee-Woon, o filme Na Teia da Aranha nos leva aos anos de 1970, em que a criatividade sul-coreana, já bem aflorada, era podada pela censura estatal e moldada para recriminar valores e políticas que não fizessem a cartilha do governo.
E é aqui que conhecemos um diretor em crise, chamado Kim Ki-yeol (Song Kang-ho), e que está terminando o seu filme Na Teia da Aranha. Não gostando nem um pouco de como ficou, ele tem uma epifania e acredita que, se refilmar em dois dias, poderá tornar o filme um novo clássico do cinema.
Para conseguir fazer mudanças em sua obra, o rito é os censores lerem as mudanças e, num primeiro passo, ele acaba rejeitado, o que faz com que ele vá atrás da presidente da empresa, que também se recusa a apoiar e viaja para o Japão. Indo atrás da herdeira, Kim Ki-yeol prova que pode fazer um ótimo filme, e é aí que temos um caos generalizado com um filme sendo rodado totalmente ilegal pelas leis da época.
Kim precisa convencer elenco e equipe a retornarem para as filmagens, driblar a burocracia estatal e esconder a produção secreta de olhares indesejados. É assim que ele consegue manter o cenário do filme montado e traz todo mundo de volta, sem saberem que estavam fazendo uma filmagem praticamente clandestina.
Um dos maiores dilemas para mudar o final é a presença da atriz em ascensão Han Yu-rim (Krystal Jung). Saindo do filme direto para filmar um K-drama, a atriz não poderia demorar muito nas refilmagens, o que não só fazem com que mintam para ela sobre a quantidade de cenas, como chegam até a trancar o estúdio para que ela cumpra as refilmagens, gerando apreensão da equipe.
Semelhante a filmes como Parasita, sabemos o tempo todo que Na Teia da Aranha tem tudo pra dar errado. É quando censores aparecem para impedir o filme, sendo embebedados pela produção, que o filme mostra que tem tudo para acabar mal.

Além da metalinguagem, um recorte de uma época

Redefinindo a história e assassinos, Na Teia da Aranha vai ganhando nova forma com as refilmagens, o que não impede o desenvolvimento de novos problemas, com Han Yu-rim revelando estar grávida e fazendo Kim Ki-yeol reprogramar a rota, usando cenas mais leves para ela durante as filmagens.
Com o caos nas filmagens, a presidente retorna às pressas da viagem ao Japão querendo impedir as filmagens, enquanto o chefe dos censores do governo da Coreia do Sul chega tentando entender o porquê de o filme estar sendo rodado. E é aqui que Na Teia da Aranha se sobressai, mostrando o “jeitinho coreano”, tentando driblar tudo e todos para Kim Ki-yeol terminar seu filme.
E olha que Na Teia da Aranha tem de tudo, com direito a Kim Ki-yeol conversando com seu “mestre”, também diretor de cinema, em lembranças, dando o tom de que ele queria superar e entregar um filme memorável nos cinemas.
Vale notar aqui que o diretor lendário com quem Kim Ki-yeol trabalhou havia morrido em um incêndio no set de filmagem, e fica claro que essa paixão pela atuação verdadeira irá até as últimas consequências aqui também.
Mas será que, com tamanho caos… Na Teia da Aranha valeu realmente a pena em ser refilmado?
Conclusão

Numa homenagem ao próprio cinema, Na Teia da Aranha surpreende e muito pelo roteiro, pela comédia, pelas ótimas atuações e pela sua metalinguagem em trazer um filme sendo filmado dentro do próprio. As situações, até que caricatas, são hilárias, mostrando que não existiam limites para se filmar antigamente.
É fato que parte da graça do filme está em acompanhar esses absurdos de um diretor que foi sempre visto como mediano e tenta reescrever sua história com essa loucura. E é justamente este absurdo que acompanhamos em cena, com a equipe comprando a ideia (mesmo que alguns à revelia), o que torna Na Teia da Aranha tão épico de ser visto.
Song Kang-ho, conhecido em especial por Parasita, está impagável como o diretor Kim Ki-yeol, e com certeza é destaque mais que merecido por seu personagem tão excêntrico. No elenco, ainda temos Oh Jung-se (Tudo Bem Não Ser Normal), Lim Soo-jung (Eu Sou um Cyborg, e Daí?), Krystal Jung (Manual do Presidiário), Kim Min-jae (Força Bruta: Punição e Invasão Zumbi 2: Península), entre tantos rostos conhecidos das produções sul-coreanas. Já o filme, com direção de Kim Jee-Woon, também é velho conhecido do público brasileiro com as produções Os Invencíveis (2008) e Eu Vi o Diabo (2010).
Agora, falar de Na Teia da Aranha é falar de um filme que entrega drama e comédia em um plot que você até sabe o que vai acontecer, mas a forma como é contada é o que torna tudo tão interessante e convidativo para assistir cada minuto. É diversão na medida certa e que, com certeza, supera as expectativas de qualquer um.

Nota: 5 de 5
Na Teia da Aranha (Cobweb)
Duração: 135 minutos
Direção: Kim Jee-woon
Roteiro: Shin Yeon-shick
Produção: Choi Jae-won, Ahn Eun-mi, Shin Yeon-sik, Ahn Soo-hyun, Choi Dong-hoon
Elenco principal: Song Kang-ho, Im Soo-jung, Oh Jung-se, Jeon Yeo-been, Krystal Jung
Direção de Fotografia: Kim Ji-yong
Montagem: Yang Jin-mo
Trilha Sonora: Mowg
Distribuição: Pandora Filmes
Estreias: 12 de junho de 2025
Agradecimentos a Pandora Filmes pelo convite para produção deste conteúdo

