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Crítica | Stella: Vítima e Culpada

Exibido em 2024 na 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa alemão Stella: Vítima e Culpada chega aos cinemas trazendo uma das tramas mais controversas do Holocausto. Inspirado na história real de Stella Goldschlag, o filme mergulha na trajetória da jovem aspirante a cantora de jazz que, da noite para o dia, passa a ser perseguida por ser judia numa Berlim nazista que caça seu povo impiedosamente pelas ruas.

Dirigido e roteirizado por Kilian Riedhof, o filme tem uma performance brilhante de Paula Beer, acompanhada por um elenco à altura, com rostos conhecidos do público brasileiro, como Damian Hardung (Maxton Hall – O Mundo Entre Nós) e Jannis Niewöhner (da franquia juvenil Rubinrot).

Stella quando era só cantora, antes de se transformar para sobreviver

Cheio de energia e vida, Stella: Vítima e Culpada se inicia em 1940, quando conhecemos uma Stella animada e integrada a um grupo de artistas que se apresentam por toda a Alemanha. Mesmo percebendo o avanço da perseguição aos judeus, Stella tenta seguir com sua vida, embora note que, a cada dia, precisa ser mais cuidadosa com seus passos.

Com amigos sendo capturados, sua carreira artística dá lugar a uma realidade em que ela passa a flertar com um policial alemão em troca de passaportes em branco para falsificação no mercado informal.

A doçura do filme vai se perdendo à medida que Stella se vê envolvida em um cenário cada vez mais insano. Capturada pela Gestapo em 1943 e torturada, ela retorna ferida para a casa dos pais — o que não dura muito, pois eles também são presos. Interrogada e pressionada a proteger a família, Stella sucumbe à única coisa que tentava evitar: entregar outros judeus.

A partir daí, Stella: Vítima e Culpada faz jus ao título brasileiro, mostrando sua transição de vítima para culpada. Ela passa a denunciar antigos amigos e conhecidos, acompanhando a polícia alemã em buscas que levam muitos deles a Auschwitz.

Stella se despede dos seus pais

Stella acreditava que, ao fazer isso, estaria salvando seus pais e até acreditou quando o Gestapo prometeu transferi-los para uma cidade do interior. Mas tudo era mentira. Ela descobre que seus pais também morreram em Auschwitz. Os anos passam e, com uma nova Alemanha surgindo, Stella acaba julgada por seus atos.

Baseado em fatos reais, Stella: Vítima e Culpada salta para 1954, quando vemos uma Alemanha em transformação e uma Stella frente a frente com antigos conhecidos, agora do outro lado do tribunal. Culpada aos olhos da sociedade, ela se vê prisioneira de suas próprias escolhas.

Mais uma vez o tempo avança, agora para 1984, e acompanhamos uma Stella envelhecida, que enfim reconhece o peso dos crimes cometidos — tanto para seu povo quanto para si mesma. É com essa Stella amargurada que a narrativa tenta compreender uma trajetória que terminou com a própria vida da personagem.

Opinião

Stella: Vítima e Culpada é um filme que não apenas se destaca por contar uma história real, mas por construir camadas complexas em torno de uma figura que de fato existiu.

Kilian Riedhof consegue explorar diferentes tons ao longo da obra, mostrando uma personagem em constante transformação. Parte desse impacto vem da entrega emocional de Paula Beer, entre a alegria e a dor, em busca de sua verdade.

Jannis Niewöhner também brilha como Rolf Isaaksohn, com quem Stella falsificava passaportes. O “casal” funciona bem em cena, mesmo que, para sobreviver, Stella não limite sua história a ele.

O que choca é a jornada cruel e, por vezes, mostrada de forma brutal, de como a tortura desfigurou Stella emocionalmente. Essa mudança é retratada com detalhes, evidenciando sua perda de valores em troca de mais um dia de sobrevivência.

Vemos policiais zombando de sua escolha em cantar jazz — “música de negros” —, além de parceiros abusando física e emocionalmente dela. Não é de se espantar sua frieza ao se tornar aliada da polícia em 1943.

Indicado para representar a Alemanha no Oscar, Stella: Vítima e Culpada é impactante e não busca justificar os atos de sua protagonista. Sua intenção é recordar às novas gerações os horrores do passado e garantir que histórias como essa nunca mais se repitam. Um filme necessário para compreender as marcas indeléveis que a barbárie deixou em nossos corpos e mentes.

Nota: 4,5 (de 5)

STELLA: VÍTIMA E CULPADA

Alemanha – Áustria – Suíça – Reino Unido | 2023 | 121 min. | Drama | 16 anos

Título Original: Stella. Ein leben.

Direção: Kilian Riedhof

Roteiro: Kilian Riedhof, Jan Braren, Marc Blöbaum

Elenco: Paula Beer, Joel Basman, Jannis Niewöhner, Katja Riemann, Lukas Miko, Bekim Latifi, Damian Hardung, Gerdy Zint

Distribuição: Mares Filmes

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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