Conhecida por animês como SPY x FAMILY e One Piece Film: Red, Ado se firmou como a voz de uma nova geração da música japonesa, mesmo sem nunca ter mostrado o rosto. Em sua segunda turnê, a cantora gravou um show especial no Estádio Nacional do Japão, local que recebeu os Jogos Olímpicos de Verão de 2020, transformando o espaço em um espetáculo para 140 mil pessoas.
Com um público repleto de crianças e jovens, Ado representa uma nova fase da música japonesa, marcada pelo crescimento de cantores amadores que ganham visibilidade na internet com covers de músicas de Vocaloid. Conhecidos como Utaite (termo que vem da expressão utattemita, algo como “tentando cantar”), esses artistas surgiram em plataformas como a Nico Nico Douga. Ado se tornou o maior nome dessa cena, ao lado de nomes como Reol, Valshe, Piko, clear, 96Neko, Nano, Lon e Mafumafu. Ao mesmo tempo, o sucesso dos próprios Vocaloids, como a icônica Hatsune Miku, contribuiu para um cenário onde Utaites e Vocaloids se influenciam mutuamente, colaborando e criando juntos. Essa troca constante é parte do que explica o sucesso da própria Ado.
No show, ela começa com Usseewa, a música que impulsionou sua carreira em 2020. Mesmo sem aparecer diretamente, sua expressividade vocal e os vídeos exibidos nos telões fazem com que o público não sinta falta da imagem da artista.
Logo em seguida vem Tot, música de One Piece Film: Red, em que sua voz é usada para despertar o “Rei Demônio das Canções”. A faixa conta com a colaboração de Hiroyuki Sawano, compositor conhecido por trilhas de Solo Leveling e To Be Hero X.
A apresentação segue com Lucky Brute, da turnê Wish, com Ado cantando em cima de uma estrutura central no palco, lembrando uma espécie de “gaiola”, reforçada pela projeção no telão.
Em Domestic de Violence, a artista volta com uma canção intensa, cheia de letras que provocam reflexão. Mesmo com frases aparentemente comuns, há muitas camadas por trás da composição.
Depois, Aishite Aishite Aishite mostra outro lado da cantora. Aqui, ela troca o tom mais agressivo por uma sonoridade leve e quase angelical, destacando a versatilidade da sua voz.
A influência dos Vocaloids aparece forte em Kagashuku, onde o uso de sintetizador de voz traz um clima diferente e envolvente. A letra, projetada no telão, ganha coro da plateia em um momento quase de videoclipe ao vivo.
Com uma mensagem sobre enfrentar medos e lidar com os próprios erros, Motherland reforça a profundidade das composições da Ado. A música toca especialmente o público jovem, que se identifica com seus temas.
Mesclando estilos, Gira Gira aparece com uma batida irresistível e se destaca como uma das mais divertidas do primeiro ato do show.
No encerramento dessa primeira parte, Eien no Akuruhi vem acompanhada de um espetáculo de drones, fogos e luzes com a frase “Aishiteru Aishiteru Aishiteru” (“Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.”). A música fecha o primeiro bloco com emoção e grandiosidade.
A segunda metade do show traz músicas como I’m invincible, Readymade, Kura Kura, Chocolate Cadabra, Value e Hello Signals, mantendo o ritmo e a empolgação da plateia.

Ado livre
Em Ibara, Ado finalmente sai da estrutura central e caminha pelo palco diante da multidão, com fitas coloridas estourando sobre o público. Mesmo permanecendo nas sombras, sua presença ao vivo é marcante.
Ela continua a apresentação pelo lado esquerdo do estádio com Odo. O palco é tão grande que são necessárias três músicas para ela percorrer toda a extensão, em um jogo de câmeras que segue preservando o mistério de sua identidade.
One Piece Film: Red
Ado volta ao universo de One Piece com Shinjidai, tema do filme onde interpreta as músicas da personagem Uta. Esse é um dos momentos em que o público mais jovem vibra, já que muitos conheceram a cantora por esse trabalho.
Logo depois, vem uma participação especial: o lendário guitarrista Tak Matsumoto, da banda B’z. Juntos, eles apresentam Strings of My Soul. A colaboração representa o encontro de gerações, já que o B’z é uma das bandas mais bem-sucedidas da história da música japonesa.
Ainda não acabou

Um vídeo no telão apresenta os integrantes da banda: Morita Ryunosuke na bateria, Kobayashi Naoki no baixo, Sara Wakui no teclado e Takafumi “CO-K” Koukei na guitarra. Parece que o show vai acabar, mas Ado surpreende.
Ela retorna em uma plataforma móvel, percorrendo o estádio com Missing, Backlight e Freedom, cantando para todos os cantos do público e sendo recebida com entusiasmo.
Hatsune Miku

Ao falar sobre sua origem, Ado agradece ao movimento Utaite, dizendo que, mesmo com as mudanças em sua carreira, será eternamente grata a esse começo.
É então que o show atinge um dos seus pontos mais altos: a participação especial de Hatsune Miku. Juntas, elas cantam Sakura Biyori e Time Machine ft Miku. O dueto emociona a plateia e faz muita gente chorar diante desse encontro raro entre uma Utaite e uma Vocaloid.
Reflexão e despedida
Antes de encerrar, Ado comenta os desafios enfrentados durante a turnê mundial Wish. Conta que, ao viajar pelo mundo, aprendeu a valorizar ainda mais o Japão.
Ela relembra a infância como filha única, as dificuldades na escola e como sua vida nunca foi fácil. Mas se diz feliz por estar ali, representando tantos jovens. Talvez, segundo ela, até uma versão mais nova de si estivesse na plateia.
O show termina com Kokorotoiunanofukakai, levando o público às lágrimas e encerrando a noite com uma mensagem que vai além da música: um convite à reflexão sobre nós mesmos.
Opinião
O lançamento de Ado SPECIAL LIVE ‘Shinzou’ in Cinema! no Brasil é um grande acerto, não apenas para quem acompanha música japonesa, mas também para os fãs de animês que querem conhecer melhor o trabalho da artista.
Visualmente impressionante e traz uma seleção de músicas marcantes, o show mostra tudo que Ado tem de melhor. A única barreira pode ser o idioma, já que as letras, projetadas nos telões, não têm tradução durante as músicas. As legendas em português aparecem apenas nos trechos em que Ado conversa com o público, o que segue o padrão das últimas exibições de shows asiáticos no Brasil.
Ainda assim, é uma experiência que vale muito a pena. Ver Ado no cinema é algo único. Um espetáculo com identidade própria, cheio de emoção e que, sim, pode te arrancar lágrimas enquanto você torce por ela.
Trailer

Nota: 5 (DE 5)
Ado Special Live “Shinzou” In Cinema
Direção: Ruriko Kano
Elenco: ADO, Hatsune Miku, Tak Matsumoto
Duração: 140 min
País: Japão
Estreia: 17 de julho nos cinemas
Agradecimentos à Cinecolor pelo convite e pelo apoio na produção deste conteúdo.


