InícioFilmesCrítica | Muito além da vingança, 'Filhos' aborda redenção

Crítica | Muito além da vingança, ‘Filhos’ aborda redenção

Estreou nos cinemas a coprodução entre França, Dinamarca e Suécia que acompanha a rotina da agente penitenciária Eva. Perturbador e reflexivo, o filme revela o cotidiano brutal de uma prisão e as diferentes relações que se formam ali dentro, mostrando como tudo pode se tornar ainda mais degradante entre aquelas paredes.

Conhecida por tratar todos os detentos com respeito, Eva mantém uma relação quase maternal com os presos. Ainda assim, decide abrir mão da relativa tranquilidade de seu setor e pedir transferência para a ala mais violenta da penitenciária.

A mudança revela um ambiente caótico, com gritos, agressões e tensão constante. A pergunta que fica é: por que alguém como Eva escolheria voluntariamente mergulhar nesse cenário? A resposta começa a surgir quando ela conhece o detento 017, Mikkel. A inquietação de Eva diante dele é notável, e o filme nos convida a entender o que há por trás dessa tensão.

Mikkel tem 25 anos, foi preso aos 19 e acabou sendo transferido após matar outro detento. Sua personalidade alterna entre o comportamento infantil e atitudes violentas. Em uma das cenas, chega a jogar fezes em Eva. A imaturidade dele contrasta com a brutalidade de seus atos e com o tempo que já passou na prisão.

A relação entre Eva e Mikkel se torna mais complexa quando ela, tentando contê-lo em um surto, acaba o agredindo. A denúncia chega à administração do presídio, e Eva pode ser penalizada. Mikkel percebe que está no controle. Em troca do silêncio, exige benefícios: cigarros, mais tempo no pátio e até uma visita à casa da mãe. Eva cede, e o filme nos faz questionar se o comportamento dela se baseia apenas em compaixão ou em algo mais profundo.

Segredos revelados

Descobrimos então que Eva teve um filho preso anos antes. Ela, na época, optou por nunca visitá-lo, e o jovem acabou morrendo em uma briga dentro da cadeia. O arrependimento a assombra desde então.

A relação com Mikkel, ao que parece, é uma tentativa inconsciente de corrigir essa ausência. Mas a história toma um rumo ainda mais sombrio quando, após o encontro entre Mikkel e sua própria mãe terminar em desastre, Eva passa a chamá-lo pelo nome. É o prenúncio da revelação mais chocante do filme: Mikkel foi o responsável pela morte do filho de Eva.

Ao descobrir a verdade, Mikkel foge. Eva o alcança, e ele é levado de volta à prisão. Abalada, ela decide que é hora de retornar ao seu antigo setor. Mikkel, desesperado, pede para ser transferido com ela, mas nunca teve e talvez nunca tenha esse direito.

Opinião

Filhos não é um filme fácil. Mas sua força está justamente na maneira como o trauma une dois personagens por um elo invisível e devastador. Saber que Eva está frente a frente com o assassino do próprio filho transforma cada cena em um campo minado de tensões e sentimentos conflitantes.

Será que a calma dela é genuína? Ou os jatos de mangueira e os pequenos abusos revelam uma vingança silenciosa? Sua postura materna com outros presos seria uma tentativa tardia de exercer o papel que não conseguiu cumprir com o próprio filho?

Sidse Babett Knudsen é o coração do filme. Como Eva, ela equilibra frieza, dor e um senso de controle que nunca escapa ao olhar. Já Sebastian Bull, como Mikkel, entrega uma performance inquieta e imatura, dando forma a um jovem corrompido pela prisão e pelo abandono.

Juntos, os dois constroem uma relação perturbadora e fascinante. O jogo de favores e chantagens revela muito mais do que simples manipulação. É um retrato da culpa, da dor e da tentativa desesperada de encontrar redenção.

Filhos é denso, desconfortável e surpreendente. Um drama que vai além da vingança para tratar daquilo que fica quando a justiça e a moral deixam de ser suficientes.

Nota: 4 (de 5)

FILHOS

França – Dinamarca – Suécia | 2024 | 100 min. | Drama | 14 anos

Título Original: Vogter

Direção: Gustav Möller

Roteiro: Gustav Möller, Emil Nygaard Albertsen

Elenco: Sidse Babett Knudsen, Sebastian Bull, Dar Salim, Marina Bouras, Olaf Johannessen, Jacob Lohmann, Siir Tilif

Distribuição: Mares Filmes

Agradecimentos a Mares Filmes pelo convite da produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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