Está chegando aos cinemas o filme Juntos, dirigido por Michael Shanks. Trazendo um terror diferente, a produção conta com Dave Franco, Alison Brie e Damon Herriman.
Por mais que o título seja autoexplicativo, Juntos vem com a ousadia de apresentar o pior terror que pode acontecer: quando, numa relação, nos anulamos e nos tornamos uma coisa só.
É justamente assim que o filme começa, com dois cachorros que se olham fixamente, destruindo-se em algo que está longe de entendermos.
Passado um tempo, conhecemos o casal Millie (Alison Brie) e Tim (Dave Franco), que estão se despedindo dos amigos para morar numa cidade do interior. Millie é professora e Tim é um músico frustrado, ainda à sombra da esposa, cuja carreira ainda não alcançou o sucesso que ele imaginava.
Os dois se mudam para uma casa pacata e tentam se acostumar com o marasmo da cidade pequena. É aqui que Tim enfrenta um conflito consigo mesmo: ele tem vontade de se apresentar nos palcos quando convidado por amigos para substituir um membro ausente, mas depender de Millie até para uma carona na estação de trem mostra o quanto sua relação o tornou refém.
Além das dificuldades da mudança, Tim sente um cheiro muito forte vindo do lustre e encontra ratos queimados, juntos, como se tivessem derretido e se fundido.
Alguns dias depois, o casal decide explorar a floresta ao redor da casa e cai numa caverna repleta de desenhos estranhos. Presos na caverna, eles bebem água de uma nascente ali perto, e esse é o pontapé inicial da história.
Como se fosse uma cola, as pernas de Tim e Millie se grudam, e eles culpam alguma substância presente na caverna. Mas será que é isso mesmo?

Jamie, o enigmático vizinho
É aqui que conhecemos o enigmático Jamie (Damon Herriman), professor da mesma escola que Millie. Vizinho do casal, ele se envolve na história como antagonista: pode ter interesse por Millie ou estar escondendo segredos sobre a cidade.
Se a relação de Millie e Tim já não vai bem desde a mudança, Jamie se torna um espectador atento dessa crise.
Trazendo grotesco e sarcasmo, sabemos que algo está nos corpos de Millie e Tim. A narrativa lembra filmes dos anos 80, com Tim se sentindo atraído por Millie e indo atrás dela na escola. Como dois adolescentes, eles transam no banheiro masculino, e novamente se grudam. Numa relação em crise, a faísca surge na forma de desejo, que se transforma em tensão quando tentam se separar. Machucados, acabam chamando a atenção de Jamie, que observa em silêncio, ciente de que algo muito errado está acontecendo.
Segredos são revelados

Tentando entender o que ocorre com seus corpos, Tim tenta driblar seus próprios limites: não dorme, toma analgésicos e luta contra seus músculos. É aqui que vemos a tragédia de Juntos, com o casal tentando controlar seus próprios corpos.
Mas quem ou o quê está por trás disso? Tim descobre um casal que se mudou recentemente e desapareceu sem deixar rastros. Millie, por sua vez, tenta compreender as intenções de Jamie, que explica que a caverna era uma antiga igreja da sua religião e mostra o casamento que teve com seu antigo marido naquele local.
Tim retorna à caverna e identifica uma estranha criatura que habita ali, lembrando a fusão daquele casal desaparecido. Surge então a pergunta: como fugir dessa maldição? E será que eles devem tentar?
Opinião
Juntos pode ser macabro, sarcástico e tudo isso misturado, mas não dá para deixar de lado a genialidade de Michael Shanks. Transformar características de um relacionamento em uma maldição é uma sagacidade que torna o filme um dos melhores desta leva recente de terror.
O longa mostra um casal em crise que percebe que, para serem felizes, precisa deixar as diferenças de lado, a ponto de se tornarem literalmente um só. O que soa poético aqui se torna literal ao som de “2 Become 1” das Spice Girls: Tim e Millie entendem que a única forma de superar a maldição é abrir mão de sua independência. Jamie, como antagonista, tenta transmitir essa mensagem diversas vezes a Millie, mas ela interpreta mal suas intenções, achando que ele estaria interessado nela.
O filme deixa claro que, quando a fusão é perfeita, nasce uma nova pessoa; quando o casal mantém suas diferenças, transforma-se em um ser grotesco, como a criatura da caverna. Pensando na cidade, fica a reflexão: quantas pessoas não são “fundidas” de alguma forma? É uma discussão que permanece com o espectador.
Dave Franco rouba a cena como músico em crise, refletindo sobre sua relação e consigo mesmo. Sua luta se intensifica à medida que a maldição avança, transformando-se em um conflito físico com seu próprio corpo.
Alison Brie brilha como a parceira madura, que tenta reconstruir a relação e salvar sua própria história com Tim. Damon Herriman entrega Jamie como um personagem misterioso e ambíguo. Ele engana o público quanto às suas intenções e até à sua orientação sexual, fazendo parecer que poderia estar interessado em Millie, quando na verdade há algo mais profundo em jogo.
Michael Shanks ainda adiciona uma camada de metalinguagem ao inserir “2 Become 1”, que serve tanto como comentário irônico quanto como reforço do conceito do filme.
No fim, Juntos impressiona pelo roteiro sagaz, criatividade e forma inovadora de abordar o terror. Não é um filme para todos os públicos, mas quem aprecia horror com frescor, grotesco e sarcasmo encontrará aqui uma experiência intensa, original e memorável.

Nota: 5 (de 5)
Juntos
Direção: Michael Shanks
Roteiro: Michael Shanks
Produção: Dave Franco, Alison Brie, Mike Cowap, Andrew Mittman, Erik Feig, Max Silva, Julia Hammer, Timothy Headington
Elenco: Dave Franco, Alison Brie, Damon Herriman
Direção de Fotografia: Germain McMicking
Edição: Sean Lahiff
Trilha Sonora: Cornel Wilczek
Produção: Picturestart, Tango Entertainment, 30West, 1.21, Princess Pictures
Distribuição (Brasil): Diamond Films
Estreia: 14 de agosto de 2025 (Austrália)
Duração: 102 minutos
Países: Austrália, Estados Unidos
Agradecimentos a Diamond Films e a Sinny pelo convite para produção deste conteúdo


