InícioFilmesCrítica | A Meia-Irmã Feia reinventa Cinderela com sarcasmo e horror social

Crítica | A Meia-Irmã Feia reinventa Cinderela com sarcasmo e horror social

Será que podemos mudar o nosso destino? Dando vida a Elvira (Lea Myren), uma garota “feia” que sonha em casar com um príncipe encantado, A Meia-Irmã Feia chega aos cinemas pela Mares Filmes e Alpha Filmes.

Co-produção entre Noruega, Dinamarca, Romênia, Polônia e Suécia, o longa apresenta uma versão inusitada de Cinderela, onde a viúva Rebekka (Ane Dahl Torp) e suas filhas, Elvira (Lea Myren) e Alma (Flo Fagerli), assumem o protagonismo. Já Agnes (Thea Sofie Loch Næss), a nossa Cinderela, é transformada em uma personagem secundária e até fútil nesta releitura ousada.

Um conto distorcido e provocante

Agnes contando a Elvira que seu pai só se casou com a mãe dela achando que fossem ricos

Misturando elementos de terror e sátira, A Meia-Irmã Feia vem recebendo elogios em festivais e agora chega ao Brasil com cópias dubladas e legendadas. E a pergunta é inevitável: vale a pena? Sim, e muito. É uma experiência curiosa, incômoda e inteligente dentro das estreias da semana.

A trama se inicia em uma era medieval, repleta de banquetes nada apetitosos. É nesse cenário que Rebekka (Ane Dahl Torp) se casa com Otto (Ralph Carlsson), unindo suas famílias por puro interesse: ela acredita que o noivo é rico, e ele pensa o mesmo dela. No dia do casamento, Otto morre, deixando a filha Agnes (Thea Sofie Loch Næss) aos cuidados de Rebekka e as terras confiscadas.

Com o príncipe da região prestes a se casar, as jovens da nobreza são convidadas para o grande baile. Alma (Flo Fagerli) recebe um convite e, de forma improvisada, Rebekka tenta incluir Elvira também, usando o convite da meia-irmã. Percebendo que está envelhecendo e teme perder sua chance de ascender socialmente, Rebekka decide transformar Elvira em sua nova aposta.

Cirurgias da época eram bem “agressivas”

O dinheiro que seria usado para o enterro de Otto vira investimento em Elvira: aulas de dança com Sophie von Kronenberg (Cecilia Forss), cirurgia no nariz com o excêntrico Dr. (Adam Lundgren) e a remoção do aparelho dental. A sequência da cirurgia é desconfortável e realista, com o médico quebrando o nariz da jovem em uma cena grotesca e marcante. Ainda insegura com o corpo, Elvira tenta controlar a gula para conquistar o príncipe.

Enquanto isso, Agnes se envolve com Isak (Malte Gårdinger), um empregado da casa, mas é descoberta e punida. Rebekka expulsa o rapaz e rebaixa Agnes à condição de serviçal, repassando seus vestidos caros às filhas. As aulas de dança revelam que, para Sophie, apenas Agnes tem talento, e que Elvira está ali apenas porque a mãe paga.

Entre vermes e vaidade

Dança no baile

O príncipe Julian (Isac Calmroth), típico herdeiro arrogante, zomba de Elvira enquanto ela ainda se recupera da cirurgia. Determinada, ela ignora as humilhações e aceita até mesmo um “ovo de tênia” que supostamente ajudaria a emagrecer, um toque grotesco e simbólico da obsessão pela beleza.

Agnes, por sua vez, tenta usar o vestido deixado pela mãe falecida, interpretada por Agnieszka Żulewska, mas o ciúme de Rebekka e Elvira leva à destruição da roupa. Quando tudo parece perdido, a jovem recebe ajuda sobrenatural da mãe, em uma sequência que brinca com o conto de fadas original, com o vestido restaurado por bichos-da-seda.

No baile, Elvira surge deslumbrante, com vestido novo e peruca loira. Mas é Agnes quem chama atenção do príncipe, disfarçada com um adereço. Mesmo nesta versão distorcida, o destino parece repetir o mesmo enredo: é a Cinderela quem conquista o príncipe e foge à meia-noite.

Só que aqui, tudo o que Elvira sacrificou para ser bela começa a cobrar o preço. O cabelo cai, o corpo reage e a sanidade se esvai. Ao tentar tomar o antídoto fornecido por Madame Wandzia (Katarzyna Herman), ela já não pensa por conta própria.

Crueldade disfarçada de fábula

A Meia-Irmã Feia impressiona pela coragem em reinterpretar o clássico. Mostra sem filtros o desespero de mulheres que precisam agradar homens ricos para garantir segurança e status. Rebekka é o retrato dessa dependência, moldando as filhas para seguirem o mesmo caminho.

Apesar de conter elementos grotescos, o filme se encaixa melhor na sátira do que no terror. A sujeira, os vermes e até o corpo em decomposição de Otto, mantido em casa à espera do “casamento perfeito” de Elvira, funcionam como metáforas da decadência moral.

A nudez é usada de forma simbólica com Elvira diante do espelho, questionando a própria beleza, e os corpos masculinos, como o de Isak e do príncipe Julian, expostos de modo quase banal, reforçando a relação entre desejo, poder e aparência.

O momento mais impactante chega quando Elvira, tentando calçar o sapatinho, corta o próprio pé e, desmaiada, é mutilada pela própria mãe, que completa o ato sem hesitar. É a crueldade do pragmatismo levado ao extremo. Na sequência, vemos Frederik von Bluckfish (Willy Ramnek Petri) e Jan (Kyrre Hellum) reforçando a presença masculina superficial e cínica que orbita a história, enquanto a chef (Oksana Czerkasyna) e o administrador (Richard Forsgren) completam o retrato social dessa corte decadente.

Na reta final, Alma foge levando Elvira, enquanto Rebekka se entrega a outro homem, indiferente ao que causou. É um encerramento que escancara o ciclo de abusos e ambições que cercam aquelas mulheres.

Não é exatamente um filme de terror, mas um retrato sombrio sobre o que a busca pela aceitação pode fazer com as pessoas. Ao inverter os papéis e questionar quem é, de fato, a protagonista de um conto de fadas, A Meia-Irmã Feia mostra que mudar o destino tem um preço, e nem sempre o final feliz pertence à heroína.

Agnes com seu pai em decomposição

Nota: 4,5 (de 5)

A Meia-Irmã Feia

Título Original: Den Stygge Stesøsteren (The Ugly Stepsister)
Direção: Emilie Blichfeldt
Roteiro: Emilie Blichfeldt, baseado em Aschenputtel dos Irmãos Grimm
Elenco: Lea Myren, Ane Dahl Torp, Thea Sofie Loch Næss, Flo Fagerli, Isac Calmroth, Malte Gårdinger, Ralph Carlsson, Cecilia Forss, Katarzyna Herman, Adam Lundgren, Willy Ramnek Petri, Kyrre Hellum, Oksana Czerkasyna, Richard Forsgren, Agnieszka Żulewska
Fotografia: Marcel Zyskind
Montagem: Olivia Neergaard-Holm
Música: Kaada e Vilde Tuv
Produção: Mer Film, Lava Films, Motor, Zentropa
Distribuição: Mares Filmes, Alpha Filmes
Países: Noruega, Dinamarca, Romênia, Polônia e Suécia
Ano: 2025
Duração: 109 minutos
Gênero: Terror, Comédia
Classificação: 18 anos

Agradecimentos a Alpha Filmes e a Mares Filmes pelo convite para produção deste conteúdo.

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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