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Crítica | O amor pode ser programado? Make a Girl e a busca do amor nas IAs

Está chegando aos cinemas brasileiros a nova animação da Kadokawa Pictures, Make a Girl. Em 3DCG, a animação reproduz aquele efeito de 2D das animações japonesas e vem com a proposta de apresentar que o amor também é possível na era das IAs.

Do visionário Gensho Yasuda, ainda não tão conhecido no ocidente, o animador independente é bastante famoso na Ásia e produziu esta animação com financiamento coletivo, arrecadando 23.730.805 ienes (cerca de 880 mil reais) para produzir seu filme. Realizado pelo Yasuda Gensho Studio e o estúdio Xenotoon, Make a Girl nasceu de um curta de 2020 chamado Make Love, em que um cientista consegue criar o amor de forma artificial. O curta ganhou inúmeros prêmios, o que serviu de pontapé inicial para a animação que está chegando aos cinemas brasileiros pela Sato Company.

Mas do que se trata a história?

Zero

Num futuro próximo, todos os lares têm seus próprios robôs para afazeres domésticos. Chamados de Solts, esses robôs foram criados por Inaba Mizutame, uma cientista muito importante em sua época e que, já falecida, deixa seu filho Akira Mizutame com muitos de seus sonhos.

É aqui que conhecemos o dia a dia desse futuro, com o gênio da robótica Akira Mizutame, que tenta trazer grandes avanços à sociedade como sua mãe, mas vem penando para que seus projetos deem certo. Ele vive com o pai adotivo Shoichi Takamine e tem uma vida relativamente normal.

Só que um dia, Kunito Oobayashi, amigo de Akira, comenta que sua vida mudou muito depois de começar a namorar. Akira, ao ouvir isso, pensa literalmente que só namorar iria melhorar sua vida — não necessariamente com uma pessoa, mas podendo fabricar isso. É aqui que nasce Zero, uma androide muito gentil, criada para ser a namorada de Akira, e que choca Kunito, que tenta entender por que fabricar algo que se pode viver naturalmente.

Zero, Akane e o despertar do sentimento

Akane

Zero tenta entender como funciona a sociedade, prestando atenção em todos os amigos de Akira, especialmente em Akane Yukimura. E é aqui que surge aquela dúvida: será que Akira sempre viu Akane como uma mulher interessante ou apenas como um modelo a ser inspirado em seu projeto com a Zero?

Akane reluta em ser amiga da androide, mas acaba ensinando muito do seu dia a dia para ela, levando-a para trabalhar num café junto dela e de Kunito. Assim, Zero vai aprendendo não só como lidar com humanos, mas também a cozinhar e sorrir na frente das pessoas.

Tornando-se cada vez mais humana, Zero surpreende Akira ao aprender muitas coisas que ele mesmo nunca imaginou. Ao mesmo tempo, ele entra num dilema: mesmo tendo uma namorada, não se sente mais criativo, enquanto Zero tenta trazer mais elementos de namoro para a relação, sobrecarregando Akira, que não queria se dedicar tanto a isso.

Um segredo muito além dos relacionamentos

Akira com a Zero

Akira decide bancar um apartamento para Zero, mas quer distância dela e desse namoro. Ele conclui que esse relacionamento não foi produtivo e se tranca em seu laboratório.

Zero segue tentando entender o amor, com Kunito dizendo que ela só ama Akira por ter sido programada assim. Mas Zero entende que não é só isso. Ela percebe que os sentimentos realmente nasceram e que sua experiência diária trouxe emoções e formas de pensar próprias, agindo por vontade e não por programação.

Enquanto isso, as lembranças com sua mãe se tornam cada vez mais frequentes, fazendo Akira entender que não são apenas memórias, mas uma chance de finalmente se despedir dela. Mesmo assim, ele segue ignorando o pendrive com os projetos que ela deixou.

Zero acaba sequestrada por estranhos, e Akira entende que precisa dela de qualquer maneira.

Muito além de uma namorada

Zero

Akira finalmente entende que Zero é um presente que sua mãe lhe deixou e, indo atrás dela, consegue usar os Solts a seu favor numa corrida contra o tempo.

Mas quem está por trás do sequestro? É aqui que Akira descobre que nem sempre os melhores amigos são confiáveis e que o projeto com a Zero despertou a atenção de alguém que esteve com ele o tempo todo.

Agora, frente a frente com Zero, Akira acha que terá paz, mas a androide decide lutar contra ele. Indo contra ao protocolo para o qual foi criada, Zero se arrisca ao ultrapassar os limites de sua própria programação.

Será que esse romance quase juvenil acabaria em tragédia?

Opinião

Akane e Kunito

Make a Girl tem toda uma discussão filosófica sobre o protagonista que confunde o amor de mãe e o cuidado pelo próximo com o amor de uma namorada artificial. Zero realmente amava Akira, se esforçando para aprender e viver em sociedade, superando até mesmo seu criador quando o assunto era compreender o mundo.

Mas será que tudo isso era amor de verdade ou apenas algo fabricado? É uma discussão que vai muito além das telas. Na minha opinião, Zero desenvolveu sentimentos próprios, mas o filme traz um debate que fica na cabeça por um bom tempo.

Um detalhe curioso é o elenco, com Atsumi Tanezaki fazendo as vozes da Zero e da Inaba Mizutame. Interpretar tanto a “namorada” quanto a mãe de Akira favorece a narrativa de que ele não sabia o que era amor e ser cuidado por alguém, por isso não percebia que Zero foi criada à imagem da própria mãe.

E Akane? O filme traz cenas nos créditos em que ela entrega chocolate a Akira no Dia dos Namorados, mostrando que nutria sentimentos por ele. Mas será que eles namorariam? É algo que vai além da narrativa do filme.

Entre Evangelion e o amor programado

Make a Girl traz ótimos personagens e faz com que o público torça por eles o tempo todo. Com aquela vibe positiva que lembra obras como Sakura Card Captor, o filme tem carisma de sobra e deixa a sensação de que merecia virar série para explorar melhor esse futuro.

Tecnicamente, a animação 3DCG evoluiu muito nos últimos anos e aqui mostra enquadramentos de câmera que soam naturais mesmo em cenas complexas. “Enganando” o olhar do espectador, o 3DCG só chama atenção nos raros momentos em que os personagens se movem de forma diferente do 2D, mostrando o quanto essa tecnologia já se tornou natural para a indústria japonesa.

Entregando também uma ótima trilha sonora, com músicas originais marcantes, Make a Girl é uma animação que faz a lição de casa e entrega acima da média. O ponto alto é o carisma dos personagens, especialmente Akane e Kunito, que roubam a cena em vários momentos.

É impossível não lembrar de Evangelion ao ver Akira, um protagonista com dilemas que lembram o Shinji e sua relação com Rei Ayanami. Zero tem muito da essência da mãe de Akira, assim como Rei carregava traços de Yui Ikari. A diferença é que Make a Girl troca o peso psicológico por uma leveza juvenil, quase como uma comédia adolescente que equilibra emoção e reflexão.

Make a Girl reafirma as IAs no nosso mundo e traz a discussão de que elas também podem amar. E, sinceramente, eu não tenho nenhuma dúvida disso.

Nota: 4,5 (de 5)

Make A Girl

Título original: Meiku a Garu

Ano: 2024

Duração: 1h 32min

País: Japão

Gênero: Animação, Ficção científica, Suspense psicológico

Direção, Roteiro, Design de personagens e Direção de arte: Gensho Yasuda

Produção: Aniplex / Studio KADOKAWA

Distribuição: Sato Company

Idioma original: Japonês

Lançamento: 13 de novembro de 2025

Agradecimentos a Sato Company e a Sinny pela produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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