InícioCríticasCrítica | Napoli-New York, o cinema italiano revisita suas feridas de guerra

Crítica | Napoli-New York, o cinema italiano revisita suas feridas de guerra

Essa semana tivemos o início do Festival de Cinema Italiano no Brasil, e com ele, a chance de ver o que há de melhor na produção italiana recente. Comemorando 20 anos, o festival abriu sua edição com Napoli-New York, uma trama pós-guerra que mostra uma Nápoles destruída e protagonistas tentando uma nova chance em Nova York.

Dirigido por Gabriele Salvatores, o filme é uma adaptação da história original de Federico Fellini e Tullio Pinelli. Mas quem realmente chama atenção são os jovens Dea Lanzaro e Antonio Guerra, que protagonizam o filme com atuações intensas e emocionais.

Vencedor de prêmios como o David di Donatello 2025 de Melhores Efeitos Visuais e o Globo de Ouro Italiano 2025 de Melhor Trilha Sonora, a obra impressiona pela qualidade técnica, recriando com perfeição cenários e figurinos que reforçam a força da narrativa.

Mas vamos falar da história?

Em 1949, vários bombardeios em Nápoles destroem regiões inteiras. Entre elas, uma morada que vai pelos ares, levando seus habitantes a um hospital da região.

É ali que Celestina Scognamiglio (Dea Lanzaro), de dez anos, acaba ficando órfã. Sua tia Amélia falece no hospital, e a única parente viva seria a irmã, que havia se mudado para a América.

Sozinha, Celestina tenta sobreviver nas ruas, indo atrás de Carmine (Antonio Guerra), que tenta ganhar a vida vendendo cigarros americanos.

Em meio a idas e vindas, Carmine vê a chance de ajudar o americano George (Omar Benson Miller) a vender um filhote de tigre e receber uma comissão. Mas quando marinheiros levam George de volta ao navio, o garoto não aceita o prejuízo e decide ir atrás dele, levando Celestina junto.

Presos no navio e indo embora da Itália, os dois tentam se misturar com o público a bordo, mas o disfarce não dura muito. Levados ao capitão, acabam sendo poupados graças a Domenico Garofalo (Pierfrancesco Favino), que convence o capitão a deixá-los seguir até Nova York. A partir daí, Carmine e Celestina criam laços com a tripulação e descobrem um novo mundo.

Um novo mundo

Ao chegar em Nova York, Carmine e Celestina tentam descobrir o paradeiro da irmã dela, mas descobrem que o endereço da foto era falso e que Agnese Scognamiglio estava presa.

Enquanto Carmine é acolhido por Domenico Garofalo, Celestina se perde na multidão e passa a descobrir o que aconteceu com sua irmã através dos jornais da cidade.

É aqui que Domenico usa sua influência na Pequena Itália para ajudar. Ele convence o famoso jornal da comunidade italiana a defender Agnese, transformando o caso em uma causa que une italianos e americanos.

Enquanto isso, sua esposa vê em Carmine e Celestina uma oportunidade de transformar tudo em uma família. Mas será que os dois aceitam ser adotados por eles?

Um filme em três atos

Napoli-New York é um filme encantador, dividido em três atos bem distintos. Mostra os protagonistas em uma Nápoles destruída e sem oportunidades, depois como foragidos em um navio e, por fim, buscando uma nova vida em Nova York.

Cada fase tem cores próprias, reforçando a luta de Celestina e Carmine para sobreviver. Se em Nápoles tudo é acinzentado, no navio as cores começam a surgir, e em Nova York, o “sonho americano” aparece em um mundo vibrante e colorido.

A reprodução de época é outro destaque, crescendo a cada momento do filme. A Nova York de outrora rouba a cena e é reconstruída com tantos detalhes que a cidade se torna um personagem à parte.

Elenco e atuações

Todo o elenco está muito bem, mas é justo dizer que Dea Lanzaro e Antonio Guerra roubam a cena.
Eles carregam o filme em sua atuação e a entregam o auge do drama aqui. Antonio, com seu Carmine cheio de valores e dúvidas sobre o mundo adulto, mostra um garoto dividido entre a inocência e o desejo de viver com suas próprias regras. Dea traz uma Celestina pequena e perdida, tentando entender o mundo e as pessoas à sua volta. Mesmo quando encontra gentileza, ela hesita em aceitá-la e é aí que sua atuação brilha.

Mesmo com nomes como Pierfrancesco Favino e Omar Benson Miller no elenco, os dois jovens atores dominam a tela e dão o peso emocional super necessário à história.

Temas e reflexões

Sem entrar muito em spoilers, o filme também aborda a luta das mulheres por espaço na sociedade, representada pela história de Agnese.
Além disso, traz à tona o preconceito racial vivido por George, um homem negro em um tempo em que os Estados Unidos ainda não haviam passado por suas grandes mudanças sociais.

Tudo isso dentro de um contexto em que os imigrantes italianos ainda eram vistos com desconfiança e o roteiro não foge dessas discussões.

O pensamento final, quando Celestina cita um provérbio napolitano que os pobres sofrem com a imigração, os ricos são cidadãos do mundo, o que escancara o preconceito da época e o conecta aos dias atuais. É um fechamento que leva a discussão para além do cinema.

Napoli-New York é, sem dúvida, um dos grandes destaques do Festival de Cinema Italiano no Brasil. Com uma ótima história, atuações marcantes e um figurino impecável, é o tipo de filme que começa discreto, mas termina grandioso e nos deixa refletindo muito depois da sessão.

Perfeito em sua execução, é um dos filmes que mais merecem (e até devem) ser vistos este ano com toda certeza.

Ficha Técnica

Nota: 5 (de 5)

Napoli-New York

Direção e Roteiro: Gabriele Salvatores

Produção: Isabella Cocuzza, Vlaho Krile, Claudio Lullo, Arturo Paglia, Marco Patrizi, Francesco Ruggeri

Cinematografia: Diego Indraccolo

Edição: Julien Panzarasa

Música: Federico De Robertis

Produção: Paco Cinematográfica, Cinema Rai, Film Commission Friuli Venezia Giulia, Film Commission Campânia

Distribuição: 01 Distribuzione

Lançamento: 21 de novembro de 2024

Duração: 124 minutos

País: Itália

Orçamento: € 18.750.000

Bilheteria: US$ 10.737.628 (Itália)

Elenco

  • Dea Lanzaro como Celestina Scognamiglio
  • Pierfrancesco Favino como Domenico Garofalo
  • Antonio Guerra como Carmine
  • Anna Ammirati como Anna Garófalo
  • Omar Benson Miller como George
  • Anna Lucia Pierro como Agnese Scognamiglio
  • Tomás Arana como Il Capitano
  • Antonio Catania como Joe Agrillo

Agradecimentos a organização do Festival de Cinema Italiano no Brasil e a Sinny por assistirmos o filme para produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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