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Crítica | Ato Noturno e o preço de existir em silêncio

Premiado por onde passa, Ato Noturno finalmente chega aos cinemas brasileiros com uma história de suspense que, apesar de intensa, poderia acontecer com qualquer pessoa.

Distribuído pela Vitrine Filmes e produzido pela Avante Filmes e Vulcana Cinema, o longa dos diretores e roteiristas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon parte de uma situação aparentemente corriqueira em Porto Alegre. O que o diferencia é o ritmo afiado, a ambição de seus personagens e uma sucessão de reviravoltas que lembram como a vida costuma puxar o tapete, sempre com consequências. Só isso já justifica o ingresso.

Com Gabriel Faryas e Henrique Barreira nos papéis centrais, o filme pode até parecer, à primeira vista, um romance entre atores da mesma peça. Mas logo fica claro que a história segue por caminhos bem menos confortáveis.

Muito além do prazer

Ambientado em Porto Alegre, o filme se passa em torno de uma escola de teatro conhecida por revelar talentos para todo o país. É ali que conhecemos Matias (Gabriel Faryas) e Fabio (Henrique Barreira), dois atores que disputam protagonismo e vivem em constante tensão. Qualquer faísca vira conflito.

Com texto direto, Ato Noturno não suaviza seu recorte LGBTQIA+. A rivalidade entre os dois aparece em pequenos gestos e falas, como a zombaria envolvendo notificações de aplicativos gays, deixando claro o incômodo e a competitividade latente.

Morando juntos há dois meses, Matias e Fabio veem a disputa ganhar forma na peça em que atuam. O espetáculo caminha para um final simbólico: apenas um deles protagoniza o monólogo final, enquanto o outro “cai” da estrutura do palco. Uma metáfora clara sobre vitória e exclusão.

Mas a história não se sustenta apenas nessa rivalidade. É aí que entra Rafael (Cirillo Luna). Após conhecer Matias por um aplicativo, os dois passam uma noite juntos em uma casa antiga. Rafael deixa claro que aquilo é casual, algo que não surpreende Matias, já acostumado a lidar com homens “discretos”.

Quando Rafael reaparece, os encontros continuam até que os dois quase são flagrados por Camilo (Ivo Müller), o novo segurança de Rafael. No meio disso, Matias acaba deixando uma blusa na casa, detalhe que mais tarde ganha peso.

Muito mais que um segredo

O que Matias ainda não sabe é que Rafael é candidato a prefeito de Porto Alegre. Para a campanha, ele precisa sustentar a imagem de uma vida perfeita. Sua discrição não vem de um relacionamento escondido, mas da construção cuidadosa de um personagem público.

Paralelamente, uma série de televisão começa a ser produzida na região, e a equipe busca talentos locais. Fabio acaba escolhido como protagonista, o que desperta ciúmes em Matias, que se considera mais preparado.

Influenciado pela relação com Rafael, Matias tenta virar o jogo. Ele surge de surpresa no teste da série, confiante de que pode entregar mais do que o amigo. Não funciona. Matias é dispensado.

A situação muda quando Matias descobre a candidatura de Rafael. Em meio às tensões, Rafael leva a equipe da série ao teatro e convence os produtores de que Matias deveria assumir o protagonismo. Fabio perde o papel, vê o amigo assinar contrato e ocupar o espaço que julgava seu, aprofundando o conflito entre eles.

Protagonismo fora de cena

Ao conquistar o papel principal, Matias entende que precisará esconder sua vida LGBTQIA+ para se manter como galã. Ainda assim, continua vendo Rafael às escondidas. Em um desses encontros, Fabio flagra os dois transando em um estacionamento, próximos a uma família, e grava tudo.

Ele leva o vídeo até o segurança de Rafael e ameaça divulgar o material caso não reassumam seu lugar como protagonista. A partir daí, o filme muda de eixo, com Fabio se tornando alvo das consequências dessa chantagem.

A pergunta que o filme levanta é simples e incômoda: vale tudo para conseguir o que se deseja? Rafael cria um personagem para vencer a eleição; Matias constrói outro para sustentar sua carreira. Ambos parecem em sintonia nessa fuga dos holofotes, mas até onde isso pode ir?

Opinião

Ato Noturno aposta em um suspense movido pela ambição e pelo desejo de sucesso a qualquer custo. Sendo um filme LGBTQIA+, ele não perde tempo explicando demais: vai direto ao ponto.

As cenas de intimidade entre Matias e Rafael começam como algo casual, mas evoluem para um vínculo afetivo impossível de ignorar. Ao mesmo tempo, esse relacionamento se torna um risco para Rafael, que mira um eleitorado conservador, enquanto Matias se expõe cada vez mais por essa relação.

O filme também escancara a lógica da televisão ao mostrar cláusulas contratuais e a exigência de uma imagem pública “vendável”, revelando a permanência de galãs no armário. Uma realidade que, apesar do discurso de mudança, ainda existe.

Vale destacar a sutileza do roteiro ao construir Matias como um personagem fluido. Seu uso de roupas femininas, tratado com naturalidade, só vira problema quando verbalizado no teste para o protagonismo. O filme confia no espectador e evita didatismos.

O elenco sustenta bem a produção, com destaque para Gabriel Faryas e Cirillo Luna. Henrique Barreira também se sobressai como Fabio, um personagem que parece ter tudo e, de repente, perde tudo.

Com uma história densa e envolvente, Ato Noturno entende bem seus limites e provoca o público a refletir até onde seus protagonistas estão dispostos a ir. O reconhecimento internacional não é à toa. Agora, vale acompanhar essa trajetória nos cinemas brasileiros.

Ficha Técnica

Nota: 4 (de 5)

Ato Noturno

Ano: 2025 Gênero: Drama, Thriller
Duração: 117 min Idioma: Português

Direção e Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon
Produção: Avante Filmes
Coprodução: Vulcana Cinema
Distribuição (Brasil): Vitrine Filmes
Vendas Internacionais: m-Appeal

Fotografia: Luciana Baseggio
Montagem: Germano de Oliveira
Direção de Arte: Manuela Falcão
Som: Tiafo Bello
Música Original: Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier

Elenco: Gabriel Faryas, Cirillo Luna, Henrique Barreira e Ivo Müller

Estreia: 15 de janeiro

Agradecimentos a Vitrine Filmes pelo convite para produção deste conteúdo

Giuliano Peccilli
Giuliano Peccillihttp://www.jwave.com.br
Editor do JWave, Podcaster e Gamer nas horas vagas. Também trabalhou na Anime Do, Anime Pró, Neo Tokyo, Nintendo World e Jornal Nippon Já.

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