Existe algo de profundamente irônico em tratar o sonho americano como um manual de sobrevivência. Manual Prático da Vingança Lucrativa parte exatamente dessa provocação: o que acontece quando a promessa de ascensão social vira um jogo de eliminação? O resultado é um thriller com humor afiado, que não pede desculpas por ser desconfortável.
Dirigido por John Patton Ford, o mesmo nome por trás de Emily, a Criminosa, o longa encontra em Glen Powell um protagonista carismático e perigoso na medida certa. Aqui, charme e crueldade caminham lado a lado.
Um protagonista que começa certo e descamba rápido
Becket Redfellow é apresentado como alguém fácil de defender. Trabalhador comum, criado à margem de uma família rica que expulsou sua mãe ainda jovem, ele decide cobrar essa conta atrasada. O plano? Eliminar, um a um, os parentes que o separam da herança do avô.
No início, há quase um senso de justiça poética. Mas o filme é inteligente o bastante para não romantizar demais essa jornada. À medida que Becket se aproxima do dinheiro, algo muda. A vingança deixa de ser memória afetiva e passa a ser ambição pura. A pergunta que fica não é “ele está certo?”, mas “em que momento ele se torna igual a eles?”.
Riqueza como doença social
O roteiro observa a elite como um ecossistema próprio, onde cada personagem encontrou uma forma particular de transformar privilégio em poder. Um primo usa o sobrenome para circular em galerias de arte com obras medíocres. Outro constrói um império religioso vendendo fé como produto premium. Todos são caricatos, mas nunca irreais.
Essa escolha é fundamental para o tom do filme. Ao tornar esses herdeiros deliberadamente detestáveis, Manual Prático da Vingança Lucrativa convida o espectador a torcer por Becket — e depois o obriga a se questionar por isso.
O espectador como cúmplice
Há algo de perversamente eficaz na forma como o filme constrói suas mortes. Cada passo do plano é calculado para gerar tensão e, em muitos momentos, satisfação. O problema é justamente esse. Quando você percebe, já está vibrando junto com o protagonista.
É aí que o filme acerta em cheio. Ele não aponta o dedo, mas cria um espelho. Até onde você iria se estivesse no lugar dele? Quanto vale manter seus valores quando o dinheiro parece resolver tudo?
Elenco afiado e um tom que não pede licença
Além de Powell, o elenco reúne nomes como Bill Camp, Ed Harris, Margaret Qualley, Topher Grace, Jessica Henwick e Zach Woods. Cada um ajuda a reforçar essa sensação de que o dinheiro não apenas corrompe, mas isola, distorce e desumaniza.
Distribuído no Brasil pela Diamond Films, o longa assume seu lado mais ácido sem medo de desagradar. Não é um filme sobre vingança fria e calculada, mas sobre como o desejo por status pode ser tão destrutivo quanto qualquer arma.
Manual Prático da Vingança Lucrativa estreia nos cinemas brasileiros em 26 de fevereiro.


