Nem sempre o cinema político fala do agora usando imagens do presente. Em ORWELL 2+2=5, o cineasta Raoul Peck olha para trás, revisita a obra de George Orwell e encontra um retrato inquietantemente atual do mundo em que vivemos. O documentário estreia nesta quinta feira (12) nos cinemas brasileiros, com distribuição da Alpha Filmes.
Quando 2 + 2 vira 5
O título do filme vem direto de 1984 e resume seu ponto central. Aceitar que dois mais dois podem ser cinco não é um erro matemático, é um ato político. É a submissão à mentira quando ela é repetida com autoridade suficiente. Peck usa esse conceito como fio condutor para investigar como manipulação da linguagem, negação da realidade e controle da verdade deixaram de ser ficção distópica.
O filme costura textos de Orwell, imagens de arquivo e acontecimentos contemporâneos para mostrar como ideias formuladas no pós guerra seguem moldando disputas de poder, discurso público e comportamento social.
A voz de Orwell no presente
A narração fica por conta de Damian Lewis, que empresta sua voz a textos adaptados de Orwell. A escolha não é gratuita. A narração evita tom solene e se aproxima de um alerta direto, quase íntimo, como se o próprio escritor comentasse os rumos do século XXI.
Essa abordagem rendeu ao filme o prêmio de Melhor Narração no Critics Choice Documentary Awards, além de reconhecimento pela trilha sonora assinada por Alexei Aigui.
Peck, memória e política
Depois de Eu Não Sou Seu Negro e O Jovem Karl Marx, Raoul Peck segue interessado em personagens históricos não como ícones, mas como ferramentas para pensar o presente. Aqui, Orwell não é tratado como profeta, e sim como alguém que observou mecanismos de poder que continuam operando, agora potencializados por tecnologia, redes sociais e polarização.
O documentário evita didatismo excessivo. Em vez disso, provoca desconforto ao aproximar regimes totalitários do passado de práticas normalizadas no cotidiano atual.
Recepção e circulação
Selecionado para a seção Cannes Premiere do Festival de Cannes, Orwell 2+2=5 concorreu ao L’Œil d’Or e acumulou mais de 30 indicações internacionais. No Rotten Tomatoes, o filme mantém 83 por cento de aprovação, com críticas destacando seu impacto político e emocional.
Veículos como o The New York Times apontaram o documentário como um dos trabalhos mais urgentes de Peck, justamente por falar menos de regimes distantes e mais do que acontece diante dos nossos olhos.
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Estreia no Brasil
Orwell 2+2=5 estreia exclusivamente nos cinemas brasileiros nesta quinta feira (12), com sessões em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Maceió, Aracaju, Poços de Caldas e Londrina.
Não é um documentário confortável. Tampouco pretende ser. Peck usa Orwell para lembrar que o perigo maior não é a mentira em si, mas o momento em que ela deixa de causar espanto.


