Sabe quando uma receita é desconstruída e você olha meio desconfiado para aquilo, sem saber exatamente se aquilo ainda funciona como antes? O DRAMA, novo filme da A24 com direção de Kristoffer Borgli, provoca exatamente essa sensação ao longo de toda a sua narrativa.
Com Robert Pattinson e Zendaya nos papéis principais, o que por si só já chama atenção, o filme acompanha um casal prestes a se casar, mas que vê toda a relação ser colocada em dúvida a partir de uma única noite em que álcool e segredos vêm à tona, abrindo espaço para questionamentos que antes pareciam inexistentes.
Em um primeiro momento, a impressão é de que estamos diante de uma comédia romântica com uma abordagem mais atual, mas conforme a história avança, surge um incômodo que faz o espectador se perguntar se está realmente preparado para o que está sendo proposto.
Mas, afinal, estamos preparados para O DRAMA?


Charlie (Robert Pattinson) é um rapaz comum que, ao ver em uma cafeteria uma garota que acredita ser a mulher dos seus sonhos, decide puxar assunto de forma improvisada, pesquisando sobre o livro que ela está lendo para conseguir iniciar uma conversa. Ao se apresentar para Emma (Zendaya), ele acaba passando vergonha ao não perceber que ela é surda de um ouvido, mas, ainda assim, os dois criam uma conexão quase imediata.
O encontro evolui para um jantar, onde Emma demonstra interesse genuíno em discutir o livro, enquanto Charlie acaba revelando que toda aquela aproximação foi planejada apenas para conseguir sair com ela, o que poderia facilmente ter colocado tudo a perder logo no início.
A narrativa então avança para os dias atuais, com o casamento se aproximando, e o casal participando de uma degustação de vinhos e pratos ao lado dos amigos Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim). Durante a noite, surge um jogo aparentemente inofensivo, no qual cada um deve revelar a pior coisa que já fez ou disse, criando um clima que rapidamente sai do controle.
Charlie admite ter praticado bullying pesado na época da escola, enquanto Emma resiste o máximo possível em compartilhar seu passado, até que, pressionada pelo momento, acaba cedendo.
Ela então revela que, durante a adolescência, após mudar diversas vezes de cidade e sofrer preconceito constante, chegou a cogitar levar um rifle para a escola e cometer um atentado, algo que nunca chegou a acontecer, mas que, ainda assim, carrega um peso enorme.
A revelação choca todos à mesa, especialmente Charlie, que passa a encarar Emma de uma forma completamente diferente daquela que havia construído ao longo do relacionamento.
Mike e Rachel deixam o encontro com a sensação de que aquele casamento dificilmente irá acontecer, e a dúvida passa a acompanhar todos os envolvidos.
Com o casamento cada vez mais próximo, Charlie começa a questionar se consegue seguir com alguém carregando um passado tão pesado. Dá para simplesmente ignorar e seguir em frente?
Enquanto Rachel se afasta da cerimônia, Mike tenta convencer Charlie a desistir. Mas será que é isso que ele realmente quer?
Opinião
O DRAMA se apresenta inicialmente como uma comédia romântica que segue estruturas conhecidas, mas rapidamente revela uma proposta mais provocativa, especialmente ao inserir um elemento que rompe com a idealização típica do gênero e transforma a relação em um dilema moral constante.
O segredo de Emma funciona como um ponto de ruptura, fazendo com que tudo aquilo que parecia encaminhado para um “felizes para sempre” passe a ser questionado, não apenas pelos personagens, mas também por quem assiste.
É inevitável sentir desconforto diante do tema abordado, principalmente por se tratar de algo sério e delicado, mas o filme utiliza essa tensão justamente para provocar uma reflexão sobre até que ponto uma pessoa deve ser definida por pensamentos do passado, especialmente quando esses pensamentos nunca se concretizaram.
Ao longo da narrativa, fica claro que Emma não é mais aquela adolescente, mas o impacto do que ela revela torna impossível separar completamente passado e presente, o que coloca Charlie em uma posição de conflito constante.
Mesmo profundamente apaixonado, ele não consegue ignorar o que ouviu, e em determinado momento chega a tentar seguir outro caminho, apenas para perceber que seus sentimentos continuam ali, tornando a decisão ainda mais difícil.
Zendaya constrói uma personagem cheia de camadas, mantendo uma ambiguidade que impede julgamentos simples, enquanto Robert Pattinson sustenta bem o conflito interno de alguém que precisa rever tudo aquilo que acreditava sobre a pessoa que ama.
Mamoudou Athie e Alana Haim funcionam como contrapontos importantes, trazendo leveza em alguns momentos, mas também verbalizando dúvidas que refletem o olhar do próprio público.
Se por um lado é possível imaginar que, sem esse elemento central, o filme seria apenas mais uma comédia romântica, por outro, é justamente esse desconforto que dá força à narrativa, fazendo com que todas as peças pareçam se encaixar, ainda que exista a dúvida se deveriam mesmo.
Kristoffer Borgli conduz a história sem oferecer respostas fáceis, optando por deixar o conflito em aberto e transferir para o espectador a responsabilidade de refletir sobre aquela situação.
No fim, o dilema de Charlie não se encerra com o filme, mas permanece como uma pergunta que acompanha quem assiste.
Ficha Técnica

Nota: 3,5 (de 5)
O DRAMA
Direção
Kristoffer Borgli
Elenco
Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim
Gênero
Drama, Romance
Duração
1h 46min
Ano de Produção
2026
Título Original
The Drama
Agradecimentos a Diamond Films pela produção deste conteúdo


